Crônicas e Afins : Pecados e Charutos

image

E eu aqui, divagando.

Virei para ela meio bêbado e levantando a voz, disse que continuava seguindo meu rumo, no eterno exercício. Não para descobrir quem eu sou (porque não somos uma substância pronta), mas sim na tarefa de construir quem eu quero ser.

E ela disparou sem pena: –  E precisa beber todo dia para isso?

– Não.  Também sinto falta dos meus charutos.

– Suicídio lento. – ela continuou sem se render.

– Mantenho a pistola por perto para o dia que tiver pressa.
——————
Trecho de “Pecados e charutos” Manuel Sanchez

 

Anúncios

Crônicas e Afins: Paralelas 

“Eu sinto falta dela.

Como sinto falta do sol nos dias frios e nublados. Como sinto falta da chuva no meio da seca. Como sinto falta da cama

Dos lençóis manchados

Se ela soubesse. Eu sinto falta dela.

orgulho. mágoa. Nossa história. dor. mensagens raivosas chamando socorro e atenção.

Depois o silêncio vil. 

O silêncio que nubla os dias e torna árido o solo. Que tranca o quarto.

O silêncio do samurai. E sua espada

Fria.

O silêncio do maestro que antecede o adágio.

Bach com sua perfeição.

Notas Frias ao piano.

Perfeição matemática de formas geométricas que nunca existirão. Que nunca se encontram.

Como paralelas.

Se ela soubesse.

————-

Manuel Sanchez, ” Paralelas ”

A beleza do casal 

“E a morte, maravilhada pela vida, disse impulsivamente: “Você é tão linda que quero estar sempre contigo”.

Aceite a realidade. Viva o presente. Regue a árvore e colha os frutos.

As coisas são o que são.  Ame o momento presente e entenda que ele se esvai. 

Carpe Diem.

Crônicas e Afins: Os dias e os namorados

image

Os amores e os afetos movimentam o pensamento e a arte desde o dia em que a faísca cruzou nossos olhos. 

É na busca dos encontros que criamos sentido. Encontros com o corpo, consigo mesmo e com o outro. A energia, o amor e o tesão descobertos NESTE mundo. O mundo real. O mundo dos movimentos e das energias. Encontros com os sentidos do corpo. Desejo que está no corpo. Mente produto do corpo. Mundo que é. Nada de mundos idealizados romanticamente. Mundo de atrito. Amor na posição vertical.

O que desejar para alguém? Amor. Mas que tipo de amor? Que o mundo te mostre menos amores Platônicos e mais amores Espinozanos. Menos amores articulados no desejo da  falta. Menos amores sustentados em idealizações. E que te ofereça mais amores de encontros reais. Que você busque mais amores de afetos. Tangíveis. Com tudo o que eles proporcionam de alegria e tristeza. Sem negar nada. Sem se afastar de coisa alguma que os amores deste mundo podem oferecer.

Amor aqui. Amor fati.
Potência de viver.
—————–
Crônica, “Os dias e os namorados” , de Manuel Sanchez .

Crônicas e Afins: colo de mãe 

Colo de mãe 

(Manuel Sanchez)
Eu tive a imensa sorte de ter tido uma mãe que foi uma verdadeira leoa: forte , amorosa e decidida. Pelo tempo que a vida permitiu nossa caminhada juntos, eu só tenho a agradecer.

Tantos foram os conselhos e conversas que mesmo hoje me sinto dialogando com ela em todos os pontos da minha vida. E mesmo quando saio do trilho é a imagem dela que vejo me mostrando como voltar, me desculpar e tomar o rumo certo.

Valores. Sabedoria de Vida. Paciência. Perdão. Dedicação. Mesmo o ponto em que se traça a linha na areia e não se recua. O que verdadeiramente importa eu aprendi da minha leoa. O resto foram apenas detalhes aprendidos em livros.

Quanto mais o tempo passa, mais eu vejo que muitos dos meus interesses e conversas orbitam ou encontram alguma tangencia  em muitas coisas que ela também gostava. E não é consciente. Quando dou por mim estou interessado em um assunto, lugar ou música que na juventude não me dizia nada. Mas hoje me interessam. E só depois percebo: minha mãe gostava disso ou ela tentou falar disso comigo em algum momento. E saber sobre o que a interessava ou ir nos lugares que ela um dia mencionou traz um resgate. Um alento. E vejo o quanto de profundidade tinha naquela mulher.

Poderia ter feito mais. Poderia ter demonstrado mais. Mas até nisso eu acho que ele entendeu minhas limitações do momento e da idade. 

Foram os olhos mais  amorosos que vi. As mãos mais seguras. E o abraço mais terno. Dela ouvi as palavras de maior incentivo e as verdades mais duras, sem subterfúgios ou ilusões. 

Sinto muitas saudades da minha leoa. Durante muitos anos doeu na alma. Mas hoje é uma saudade alegre. Carinho em lembrar.  Hoje o que sinto é muito orgulho. Sempre fui um homem de sorte. Protegido por Santos, orixás e pais dedicados. 

Sinto paz. Amor. Gratidão. Preparo. Curiosidade. Força. Ela me ensinou a ser espada e escudo; quando calar e quando tocar o tambor. As principais  lições que aprendi foram  andando ao lado da minha leoa.

Minha mãe de azul intenso. Minha mãe de azul Celeste.