Sêneca: a sabedoria e o dinheiro 

Sêneca — A Sabedoria na Riqueza

Haverá dúvidas de que um homem de sabedoria tem mais condições para desenvolver as suas qualidades no meio das riquezas do que na pobreza? 

Na pobreza, só há um gênero de virtude: não se curvar nem se abater; na riqueza, a temperança, a liberalidade, a frugalidade, a ordem e a magnificência têm um campo aberto. 

O sábio não se despre­zará a si próprio, mesmo que seja de baixa estatura; desejará porém ser elegante. Com um corpo frágil ou com um olho a menos, ele sentir-se-á bem, mas preferirá, contudo, que o seu corpo seja robusto, apesar de saber que, em si, há algo mais forte. Ele tolerará uma saúde má, procurando ter uma saúde boa.

De fato, algumas coisas, ainda que sejam pequenas em relação ao conjunto, quando são aproveitadas sem que se arruíne o bem principal, contribuem para a perpétua alegria, que nasce da virtude: as riquezas causam ao sábio a mesma impressão e o mesmo gáudio que causa o vento favorável ao navegador, ou que um belo dia causa num lu­gar enregelado pelo frio do Inverno. 

Quem, entre os sábios (falo dos nossos, aqueles para os quais a virtude é um bem) nega que mesmo estas coisas, que consideramos indiferentes, têm algum valor e que algumas são até preferíveis a outras? A umas atribuímos alguma honra, a outras atribuímos muita. Não te iludas, as riquezas estão entre aquelas que são preferíveis. 

Deves estar a gozar comigo, dizes tu, então as riquezas não ocupam na tua casa o mesmo lugar que ocupam na minha? — Queres saber como não ocupam o mesmo lugar? Para mim, se as riquezas desa­parecerem, só se arrastarão a elas mesmas; se elas se afastarem de ti, tu ficarias estupefacto e sentir-te-ias abandonado por ti próprio; na minha cabeça, as riquezas ocupam um lugar qualquer; na tua ocupam o lugar mais elevado; em suma, as riquezas pertencem-me, tu pertences às riquezas. 

— Sêneca, em “Da Vida Feliz”.

Abaixo: Van Gogh, auto retrato, 1886

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Sêneca: joguetes da sorte 

” Desprezarei tudo o que pertence ao domínio da Fortuna, mas, se for dado escolher, irei preferir a melhor parte ” 

– Sêneca, senador romano  e filósofo estóico. 

Como filósofo,  defendia o comedimento, o autocontrole e a resiliência para suportar a dor, as frustrações e a pobreza. Como senador, viveu na opulência. 

Foi exilado pelo imperador Cláudio e posteriormente  condenado por Nero a cometer suicídio. 

Abaixo: a morte de Sêneca, de Manuel Domingues

Sêneca e o tempo da vida 

Sêneca e o tempo da vida:
A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. 

Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido.

O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores. Tal como abundantes e régios recursos, quando caem nas mãos de um mau senhor, dissipam-se num momento, enquanto que, por pequenos que sejam, se são confiados a um bom guarda, crescem pelo uso, assim também nossa vida se estende por muito tempo, para aquele que sabe dela bem dispor. 
– Lúcio Sêneca, Filósofo Estoico, 4 a.C. – 65 d.C, Roma. 

Abaixo: “Nero e Seneca”, do escultor espanhol Eduardo Barrón (1858 – 1911)