Sartre: Omissão, ação é

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Ainda que fôssemos surdos e mudos como uma pedra, a nossa própria passividade seria uma forma de ação.”

Jean Paul Sartre

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Sartre, sobre os muitos fins

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Um amor, uma carreira, uma revolução: outras tantas coisas que se começam sem saber como acabarão.
Jean-Paul Sartre

Identidade e Raízes Familiares – Zygmunt Bauman

“De certa forma, na vida contemporânea somos todos desconhecidos. Somos desconhecidos em relação ao que está ao nosso redor, e também para nós mesmos. O que acontece na sociedade contemporânea é que estamos em movimento. Chamamos isso de ‘tumbleweed society’. Tumbleweed é um tipo de planta que em certo momento se separa da raiz, fica livre e rola de território em território, levada pelo vento. Isto quer dizer que nossas vidas não são mais definidas no berço. Nossas identidades não são mais um presente dos céus ou dada pelos nossos pais. É um desafio, algo que temos que criar.”

Entrevista com Zygmunt Bauman (GloboNews)

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Eu Quero. Eu Posso. Mas eu devo?

“Porque tudo me é lícito, mas nem tudo me convém.”
Apóstolo Paulo, na Epístola aos Coríntios

“Tudo aquilo que não puder contar como o fez, não o faça.”
Immanuel Kant

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Explicando os Conceitos: O Existencialismo e as Limitações da Liberdade – o conceito de situação

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 I – O Existencialismo e a Liberdade

Para Sartre, a existência precede a essência humana; ou seja, não haveria uma essência humana a priori, seja ela determinada por uma alma transcendente ou pela razão. Com isso, ele rompe com uma tradição filosófica que colocava a existência humana como uma criação especial, definida por critérios superiores e transcendentes, seja por uma interpretação religiosa ou puramente racional.

O que chamamos de humanidade seria uma criação passo a passo, fruto das nossas deliberações e  que moldariam a cultura; e nela, os conceitos e valores que prezamos e/ou perseguimos. O indivíduo tem uma função histórica. E a sociedade é também fruto dessa sucessão de escolhas e deliberações.

Afastam-se os conceitos religiosos e místicos de que haveria uma essência humana anterior à existência, ou algum tipo de natureza humana básica e imutável acessível pela razão.

Somos o que criamos de nós mesmos, tanto no plano individual como no corpo social.

No cerne da questão, Sartre coloca então a liberdade. Somos livres para decidir o rumo de nossas vidas e criarmos o ser humano que desejamos nos tornar. Ou até mesmo somos livres para sermos omissos e covardes, engolindo nossos desejos e cedendo às expectativas da família e da sociedade. 

Sartre lida com a liberdade como a liberdade do sujeito, consciente e autônomo para escolher. Ou seja, seu conceito de liberdade é intencional, voltado para uma finalidade.

O filósofo assim se expressa em o “Existencialismo é um Humanismo”:

(…)   Como ponto de partida não pode existir outra verdade senão esta: penso, logo existo; é a verdade absoluta da consciência que apreende a si mesma. Qualquer teoria que considere o homem fora desse momento em que ele se apreende a si mesmo é, de partida, uma teoria que suprime a verdade pois, fora do cogito cartesiano, todos os objetos são apenas prováveis e uma doutrina de probabilidades que não esteja ancorada numa verdade desmorona no nada; para definir o provável temos de possuir o verdadeiro (…) 

 Ou seja, para o filósofo, o ser humano só se torna humano quando livre. O homem faz-se exercendo sua liberdade, pois é na ação livre que o homem escolhe seus atos e toma suas decisões.

existencialismo-140203213046-phpapp02-thumbnail-4É famosa a passagem do livro em que um jovem pergunta a Sartre se deveria ir para as forças de resistência francesa durante a guerra ou permanecer em casa e ajudar nos cuidados de sua mãe doente. Lembremos que Sartre escreve no contexto da segunda guerra mundial e nos anos do pós-guerra.

Afinal, qual seria a conduta mais valorosa para esse jovem? Recebeu como resposta de que não haveria uma solução certa, uma regra, um parâmetro e nenhuma iluminação exterior que o pudesse guiar em suas escolhas. O jovem era livre para erigir seus próprios valores e com base neles tomar a melhor decisão que fosse conveniente para sua vida.  Não existiriam valores éticos universais que servissem para decodificar a vida, mas somente a construção real e diária de valores pessoais de acordo com situações históricas concretas.

  

II – As Limitações da Liberdade

 O exercício da liberdade possui contudo suas limitações.

A primeira limitação e reiteradamente trabalhada por Sartre é o Outro. Minha liberdade encontra como primeiro limite a liberdade do Outro.

LV270064_NNenhuma ação torna-se inteiramente livre pois a realização dos meus desejos encontra como barreira a existência do Outro na tentativa de realização de seus próprios desejos, no uso de sua própria liberdade. Temos então a questão da alteridade colocada em Sartre.

Minha paz de espirito também pode ser diuturnamente desafiada pelas atitudes do Outro no exercício de sua liberdade. Afinal, o inferno são os outros.

A segunda limitação para a liberdade é o medo.

Sendo incondicionalmente livre, o homem é livre para agir à vontade e criar seu estilo de vida de acordo com seus valores pessoais. Para Sartre, podemos abdicar dessa liberdade pelo medo da reação estatal, familiar ou social. Mas mesmo nestes casos a liberdade estaria presente e se deixarmos o medo de lado poderíamos agir como quiséssemos.

Obviamente, Sartre considera em seu pensamento que o nascimento é um evento aleatório. Nascemos em uma sociedade, em um tempo e em condições sociais que não escolhemos. Mas a partir daí, somos obrigados a viver com tais contingências e e circunstâncias. Tais elementos são denominados por Sartre como “situação”. Vivemos em situação, ou seja, condicionados por símbolos, regras, leis, normas costumeiras que determinam e limitam o escopo e a profundidade de muitas de nossas escolhas. Somos livres para escolher, mas nossas escolhas são contingenciadas pela situação em que vivemos. Tais limitações, contudo, não ignoram a existência de pessoas que encontram forças para romper tais circunstâncias. Normalmente apenas para si, mas às vezes para romper barreiras para grupos ou sociedades inteiras.

A liberdade de escolha, portanto, é sempre um elemento presente e é isto que nos faz humanos. As escolhas, contudo, não são absolutas já que o elemento “situação” – elemento este que é histórico e socialmente diferente para cada um de nós – traz uma carga de limitações que nas possibilidades. Mas sempre existirão escolhas. E nelas, a liberdade de agir, lutar, mentir, contribuir para a manutenção do status quo ou omitir-se.   

Em nenhum momento, Sartre deixa escapar o conceito da construção histórica do ser humano, sem dúvida sua principal lição e o significado do seu célebre slogan existencialista: a existência precede a essência. 

 

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Veja mais em Sartre e o sentido da vida e o nosso post sobre Sartre a noção de desumanidade.