Explicando os conceitos: Platão e o mundo das idéias

Para Platão, o verdadeiro ser das coisas é a “essência” que não muda, perfeita em todas as suas concepções. O que vemos com nossos olhos e percebemos com nossos sentidos não atinge essa verdadeira “essência”.

Como no mundo em que vivemos tudo está em permanente mudança, tal essência imutável não participa do dia a dia das decisões e experiências humanas.

Não podendo existir nas coisas materiais, mutáveis e passageiras, Platão colocou a “essência” em outra dimensão, que denomina “mundo inteligível”, oposto ao “mundo sensível” em que nos encontramos.

Somente as essências, também chamadas “universais”, existem verdadeiramente, sendo a imutabilidade o sinal distintivo da realidade completa, sem falhas.

As coisas, perecíveis, arrastadas pela onda eterna da mudança, existem na medida em que são meros constructos das essências, cópias mal feitas das Ideias ou Formas existentes no mundo inteligível .

Para nos afastarmos do mundo sensível e atingirmos algum vislumbre das Idéias perfeitas do mundo inteligível, Platão coloca como único instrumento o uso da razão pura.

Essa dicotomia entre corpo e razão – ou corpo e alma, na releitura platônica feita pela Igreja medieval – é o cerne do pensamento dualista que dominou o paradigma filosófico desde Platão.

– Manuel Sanchez

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Explicando os Conceitos: O Mito da caverna de Platão

O mito da caverna é uma passagem clássica da história da Filosofia, sendo parte constituinte do livro VI de “A República” onde Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação de seu Estado ideal, que tem algumas conotações totalitárias em alguns aspectos.

A narrativa expressa a imagem de prisioneiros que desde o nascimento são acorrentados no interior de uma caverna de modo que olhem somente para uma parede iluminada por uma fogueira. Essa, ilumina um palco onde estátuas dos seres como homem, planta, animais etc. são manipuladas, como que representando o cotidiano desses seres. No entanto, as sombras das estátuas são projetadas na parede, sendo a única imagem que aqueles prisioneiros conseguem enxergar. Com o correr do tempo, os homens dão nomes a essas sombras (tal como nós damos às coisas) e também à regularidade de aparições destas. Os prisioneiros fazem, inclusive, torneios para se gabarem, se vangloriarem a quem acertar as corretas denominações e regularidades.

Um destes prisioneiros sai das amarras e vasculha o interior da caverna. Ele percebe o que permitia a visão era a fogueira e que na verdade, os seres reais eram as estátuas e não as sombras. Passou a vida inteira julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade. Posteriormente esse mesmo prisioneiro sai da própria caverna. Ao sair, a luz do sol ofusca sua visão imediatamente e só depois de muito habituar-se com a nova realidade, pode enxergar as maravilhas dos seres fora da caverna.

Não demora a perceber que aqueles seres tinham mais qualidades do que as sombras e as estátuas. Observa que o Sol é a fonte da luz e envergonha-se da simples fogueira do interior da caverna.

img_como_e_o_mito_da_caverna_5379_origMaravilhado com esse novo mundo e com o conhecimento que então passara a ter da realidade, esse ex-prisioneiro lembra-se de seus antigos amigos no interior da caverna e da vida que lá levavam.  Desce à caverna para lhes contar o novo mundo que descobriu. No entanto, como os ainda prisioneiros não conseguem vislumbrar senão a realidade que presenciam, debocham de seu colega liberto, dizendo-lhe que está louco e o ameaçam de morte caso não cessasse suas loucuras.

Com essa alegaria, Platão quis mostrar que os prisioneiros somos nós. A caverna é o mundo ao nosso redor, físico, sensível em que as imagens prevalecem sobre os conceitos, formando em nós opiniões por vezes errôneas e equivocadas. Quando começamos a descobrir a verdade, temos dificuldade para entender e apanhar o real (ofuscamento da visão ao sair da caverna) e para isso, precisamos nos esforçar, estudar, aprender, querer saber.

O mundo fora da caverna representa o mundo real, que para Platão é o mundo inteligível por possuir Formas ou Ideias que guardam consigo uma identidade indestrutível e imóvel, galgada apenas pelo intelecto e pela filosofia.  A descida de retorno à caverna é a vontade ou a obrigação moral que o homem esclarecido tem de ajudar os seus semelhantes a saírem do mundo da ignorância e do mal. Mas cuidado, nem todos irão compreender ou mesmo aceitar esse doação e aquele que se dispõem a isso poderá ouvir apenas impropérios e mesmo ameaças.

E se você continua interessado no assunto, leia também esse link com a visão de José Saramago sobre o mito da caverna e como o filme Matrix fez também uma referência direta.

Guia Rápido do Blog: Explicando os Conceitos

Para facilitar a vida dos leitores, criei a série “Guia Rápido do Blog” para acessar os links relativos a determinado assunto que escrevi no Blog. 

Neste, temos uma lista da série “Explicando os Conceitos“, onde tento destrinchar conceitos chave no entendimento da obra de alguns autores. 

Espero que ajude,

Manuel Sanchez

  1. Amor Fati em Nietzsche
  2. Ética da Virtude v. Ética do Dever (Aristóteles v. Kant)
  3. Hobbes: O Homem é Lobo do próprio Homem
  4. Nietzsche e a Religião v. Super-Homem
  5.  O Eterno Retorno em Nietzsche
  6. Sartre: A Existência Precede a Essência
  7. Kant e o Imperativo Categórico
  8. O Estado de Natureza em Hobbes e em Rosseau
  9. Descartes: Penso, Logo Existo
  10. Nietzsche: Deus está Morto
  11. O Totalitarismo em Platão
  12. O Homem como Ser Político e o Estado Aristotélico
  13. David Hume: paixão determinística vs livre-arbítrio
  14. Epicuro e o Paradoxo do Mal na existência humana
  15. Maquiavelismo Político
  16. Sartre e os limites da liberdade de escolha: conceito de situação
  17. A percepção em Berkley
  18. A Linguagem em Wittgenstein
  19. Bakthin e os Limites do Eu e da Linguagem
  20. Pitágoras e Juvenal: Mente Sã em Corpo São
  21. Por que Sócrates foi julgado?
  22. Explicando o Niilismo em Nietzsche
  23. O mundo das Idéias Platônico
  24. A alegoria da Caverna Platônica

 

Explicando os conceitos – Nietzsche : a morte de Deus 

Explicando os conceitos: Deus está morto

Uma passagem famosa e mal compreendida do filósofo Nietzsche refere-se à morte de Deus. O trecho reproduzido a seguir traz esse trecho de imensa beleza literária e profundo impacto filosófico e existencial. 

Para Nietzsche, Deus é a maior muleta inventada pelo homem. O homem que teme a vida que ocorre agora – neste instante – estando sempre jogando seus sonhos, anseios e esperanças para um futuro longínquo ou mesmo para outra vida, além do túmulo. Nietzsche desconfia de toda e qualquer ideologia, religião ou guru que traga respostas prontas, verdades absolutas, revelações transcendentes. Pouco importa se estamos de fato falando de religiões  ou de ideologias laicas para o filósofo, ele chama de “Deus” a idéia de que alguma outra coisa, energia, grupo ou entidade virá resolver nossos problemas – nesta ou em outra vida.

O verdadeiro homem – o super-homem nietzschiano – é alguém que abandona as muletas. Nega a transcendência. Afasta-se dos gurus. Dá as costas para as verdades absolutas. Não se filia a ideologias que lhe tragam as explicações do mundo empacotadas e com respostas prontas. Esse homem que não precisa mais de muletas e desconfia de tudo aquilo que nega a vida – a vida aqui, agora, completamente plena neste instante que vivemos hoje – não precisa mais de um deus. Nietzsche defendia que deveríamos nos transformar em super-homens. Para então, podermos afirmar que não precisamos mais de muletas. Deus está morto.       

(Manuel Sanchez)

 

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A Morte de Deus (Nietzsche)

O homem Louco. 

– Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? 

– E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós os matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!”

 Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. 

Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram! – 

Conta-se também no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas , e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternaum deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”.

Aforismo 125 – Friederich Nietzsche – Gaia Ciência

Explicando os Conceitos: O Eterno Retorno em Nietzsche

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O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terá de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.

– Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”.

Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela”

– Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência, 341

 

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O conceito do eterno retorno é central na obra de Nietzsche. Trata-se de um um rigoroso critério de avaliação da própria vida.

Através do eterno retorno, o filósofo pergunta se  vida que você tem hoje é a vida que você quer viver. O conceito passa longe de qualquer interpretação metafísica e também não tem qualquer relação com a repetição da rotina ou a  passagem do tempo de forma cíclica e outras interpretações enviesadas que encontra-se em alguns textos.

O eterno retorno é uma régua de avaliação individual para a vida que você leva neste momento: agora. 

Nietzsche é um filósofo vitalista preocupado com a vida que se leva na completa imanência – neste mundo, o único possível –  sem qualquer tipo de muleta metafísica ou transcendental. Assim, seu critério de avaliação da vida só pode ser feito aqui, neste momento.  O emprego que você tem, o relacionamento em que você está, o tipo de vida que você leva…. se eles voltassem e voltassem e voltassem, você seria feliz? E se a resposta for negativa, o que te impede de mudar? A felicidade deve ser buscada e batalhada na criação de uma vida que se deseje que retorne, a cada dia, a cada momento, que pode ser repetir  sempre.

A régua de avaliação do eterno retorno é individual. Não se trata aqui de um conceito de autoajuda; não se fala de regras de condutas a serem copiadas e imitadas por todos. Cada um, por si e na mais desolada solidão, deve enxergar em seus gostos e inclinações aquilo que o deixa feliz e satisfeito. E colocá-los de maneira integral em sua vida.  E assim entendemos a pergunta do demônio de Nietzsche:  se essa vida que você tem agora tivesse que repetir de novo e de novo e de novo, você ajoelharia e rangeria os dentes ou responderia que nunca ouviu coisa mais linda?

– Manuel Sanchez