Explicando os conceitos: David Hume – paixão ou livre arbítrio?

“A razão é, e só pode ser, escrava das paixões”, é um dos conceitos mais difundidos e repetidos de David Hume.

Hume (sec xviii) não acreditava no império da razão e colocava em xeque a supremacia do livre arbítrio; um pilar filosófico desde Platão.

Para ele, o ser humano era um agenciamento de forças que passavam primariamente pelo desejo e pelos afetos para, depois do fato consumado, justificarmos nossas ações pela razão.

O que acreditamos que racionalmente desejamos  (uso da vontade na determinação dos desejos a serem realizados ou inibidos) está decidido por nós antes de termos consciência.

Primeiro desejamos. Depois agimos. Por fim, justificamos.

Com isso em mente, entendemos o significado de suas  palavras: ” A razão é, e só pode ser, escrava das paixões” (David Hume em Tratado da natureza humana)

– Manuel Sanchez

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Guia Rápido do Blog: Explicando os Conceitos

Para facilitar a vida dos leitores, criei a série “Guia Rápido do Blog” para acessar os links relativos a determinado assunto que escrevi no Blog. 

Como ponta-pé inicial vamos estruturar a série “Explicando os Conceitos“, onde tento destrinchar conceitos chave no entendimento da obra de alguns autores. 

Espero que ajude,

Manuel Sanchez

  1. Amor Fati em Nietzsche
  2. Ética da Virtude v. Ética do Dever (Aristóteles v. Kant)
  3. Hobbes: O Homem é Lobo do próprio Homem
  4. Nietzsche e a Religião v. Super-Homem
  5.  O Eterno Retorno em Nietzsche
  6. Sartre: A Existência Precede a Essência
  7. Kant e o Imperativo Categórico
  8. O Estado de Natureza em Hobbes e em Rosseau
  9. Descartes: Penso, Logo Existo
  10. Nietzsche: Deus está Morto
  11. O Totalitarismo em Platão
  12. O Homem como Ser Político e o Estado Aristotélico
  13. David Hume: paixão determinística vs livre-arbítrio

 

Explicando os conceitos: amor fati em Nietzsche 

SOBRE O AMOR FATI

“Amor fati: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz sim!”

Nietzsche, Gaia Ciência, 276.

“Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo,(…) mas amá-lo..”

Nietzsche, Ecce Homo.

Explicando os conceitos:

O amor fati em Nietzsche é a sua fórmula para uma reconciliação com o Real.

E isso pode ter consequências positivas e negativas em igual monta, apesar das últimas passarem quase sempre despercebidas.

Devemos lembrar que o filósofo atacava visceralmenre os grandes sistemas de pensamentos que tentavam criar utopias, fossem elas religiosas ou laicas.

Nietzsche direcionava  suas críticas sobretudo contra o cristianismo, que via como o símbolo máximo da idéia tiranizadora que retirava o homem do mundo das sensações, do mundo real, colocando como pecado a vida vivida e buscando sempre uma idéia utópica, castradora dos sentidos e gozos mundanos – para ele, os únicos verdadeiros.

Assim, o  cristianismo era identificado por Nietzsche como o ápice do niilismo. Devemos nos lembrar que Nietzsche dava um significado particular  ao niilismo.   Aqui, niilismo é visto como a negação da vida real, de prazeres e sensações.

O amor fati seria então abraçar o mundo real com seus dados de dores e prazeres. Não negar coisa alguma. Nada do que seja humano deve ser pecaminoso. O próprio pecado não existe porque não há transcendência religiosa alguma para julgar nada.  O amor fati é o símbolo do homem que diz sim para as sensações do mundo e o abraça como ele é.

Mas o ataque ao niilismo de nietzsche também abarca os ideais laicos.

Nietzsche defendia que ideologias laicas que postulavam utopias também retiravam o homem de uma possibilidade de reconciliação com o real.

Assim, lemos trechos de ataque a ideais democráticos e igualitários que causam profundo estranhamento e desconforto para um leitor contemporâneo.

Devemos sempre ler Nietzsche colocando o pano de fundo de suas idéias como um todo: o filósofo não acreditava  na igualdade entre as pessoas; seus textos defendem uma postura altiva, que ultrapassa as crenças do homem médio e que cria castas entre as pessoas. Nietzsche postula uma visão aristocrática e desigual entre os homens.

Uma lógica de pensamento como essa ataca imediatamente as idéias de igualdade e democracia porque elas justamente querem modificar a estrutura desigual do mundo. Pelo mesmo motivo, Nietzsche desacreditava do socialismo e mesmo do feminismo.

Defender um mundo desigual como ele ja é – e abraçá-lo – leva a atacar todos que querem transformá-lo. Nada querer atrás de si ou para frente também pode acarretar um imenso imobilismo político e social. Quando a única negação é desviar o olhar, chega-se muito próximo da conivência com o opressor.

As possíveis  interpretações do amor fati continuam.

Há quem leia o amor fati de forma mais restritiva e como forma de reagir e agir na vida pessoal.

Para essa visão, o amor fati não engloba grandes paisagens sociais e lutas políticas, mas apenas uma postura individual de como encarar a vida.

Assim, o amor fati seria quase uma régua de medição dos fatos da vida e um compasso para direcionar as ações . Entender e aceitar as dores e frustrações.  Receber e amar os prazeres. Viver as experiências. Não fugir das sensações do mundo. Passar pela experiência humana tentando expressar toda a sua potência interior. Transformar-se naquilo que você pode e deve ser, sem aceitar limites impostos pela tradição ou por preconceitos.

Nesta leitura, o amor fati transforma-se quase em uma filosofia de vida. Uma mola propulsora para galvanizar todas as energias que cada um pode agenciar dentro de si. Ser ativo ao invés de reativo. Criativo ao invés de passivo. Receptivo ao invés de frio.

Particularmente, é com esse significado que eu tento aplicar o amor fati no meu dia a dia.

– Manuel Sanchez , editor do Blog Opinião Central

 

Explicando os conceitos: ética da virtude e ética do dever 

De acordo com o pensamento grego antigo , ser uma boa pessoa e distinguir o certo do errado não é primordialmente uma questão de entender e aplicar determinadas regras e princípios morais em abstrato. 

Para os antigos gregos, o agir ético é uma questão de ser ou tornar-se o tipo de pessoa que, ao adquirir sabedoria por meio da prática correta, irá se comportar habitualmente de forma apropriada nas circunstâncias apropriadas analisando o caso concreto.

Aristóteles ainda é considerado o maior dos filósofos no campo da ética da virtude e sua obra principal neste tema foi “Ética a Nicomaco “. 

Os que advogam a ética da virtude se colocam em campo distinto  da linha da ética do dever,  cujo maior nome foi Kant. Para este, na obra ‘Critica da Razao Prática’ , a ética e a moral seriam avaliadas em abstrato, seguindo regras hipotéticas que serviriam de ordens mandatórias para todos os indivíduos sujeitos à determinada situação. 

Para Aristóteles,  comportar-se de modo ético  estava intrinsecamente ligado ao exercício da razão, ou à escolha racional, no caso concreto, transformando o bom agir em um hábito.  Para Kant, comportar-se de forma ética estava ligado a seguir a ordem do imperativo categórico que, hipotecamente serviria de referência para a forma correta de agir de qualquer indivíduo.

Explicando os conceitos: O homem é o lobo do homem 

“Homo homini lupus”, é uma sentença latina que significa: “O homem é o lobo do homem”.

A frase original é de  Plauto, dramaturgo romano de comédias e farsas que viveu de 254 a 184 a.C. 

Foi popularizada, bem mais tarde no século XVII, pelo filósofo inglês Thomas Hobbes, autor da obra O Leviatã, no qual defendia que através do contrato social, os homens entregaram parcela de sua liberdade ao Estado para que este controlasse os impulsos de destruição e barbárie que nos dominam no estado de liberdade.

Para Hobbes, o homem livre é um lobo raivoso sempre pronto para atacar os seus semelhantes e se valer da força para sua própria satisfação. Seria então necessário o controle e a força do Estado para retirar dos cidadãos essa liberdade absoluta colocando-os sob o império da lei. 

Obviamente nunca existiu o aludido contrato social.  Trata-se de uma ficção política para explicar o Estado e a formação da sociedade.  

Posteriormente, Jean Jaques Rousseau traria uma visão diferente do contrato social e da vida em sociedade.  Em Rousseau, o homem fora do estado vivia em harmonia e em paz com todos que encontrava.  Teria sido a criação do Estado que ordenando os homens em leis e regras, criou a mola de inveja e destruição. Rousseau falava do bom selvagem, outra figura fictícia que só existiu nos livros. 

– Manuel Sanchez