Explicando os conceitos: maquiavelismo político

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Realpolitik é um termo alemão que faz menção à politica ou diplomacia baseada em considerações de ordem prática, abandonando-se quaisquer noções ideológicas. Trata-se de um termo usado normalmente de forma pejorativa, mas que se lastreia, em última análise em puro realismo político.

Historicamente, o termo foi usado pela primeira vez por escritores alemães do séc. XIX, mas  teóricos em história política apontam que o primeiro escritor a tratar de forma extensa do tema teria sido o florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527).

Normalmente vinculado à sua obra mais famosa “O Principe” , Maquiavel também foi poeta, escritor de peças teatrais ( “Mandrágora” ainda é considerada um ponto alto das peças de comédia apesar de engenhosamente tratar de política) , diplomata, historiador e músico. 

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Ao contrário de outros escritores que se debruçaram sobre a descrição de Estados idealizados (podemos citar Platão em “A República” e Thomas More em “Utopia”, por exemplo), Maquiavel está preocupado em descrever o mundo tal qual ele é, com suas costuras políticas violentas e mesmo impiedosas. Não há qualquer tentativa de criação de um exemplo mais puro ou mais nobre a ser seguido ; nem  julgamentos sobre a moralidade da realidade que nos cerca.

Vídeo “O Príncipe” de Maquiavel

Maquiavel está preocupado em estabelecer normas de conduta para o agir do governante na vida real, sem idealizar estados perfeitos ou utópicos. Para tanto, considera e estuda diversos exemplos de governantes da antiguidade e de seu próprio tempo, mostrando onde agiram bem ou mal e o que poderiam ter feito de diferente no objetivo de conquistar e manter o poder.

Olhando ao redor, analisando a politica nacional e internacional, verificamos que nenhum desses conceitos são novos e, ao contrário, são praticados diuturnamente pela classe politica de todos os espectros.

Também não foram uma invenção do autor florentino, em que pese seu nome estar vinculado inexoravelmente ao cometimento de atos imorais ou de crueldade fria. Maquiavel  escreveu seu livro como um médico realizando uma autópsia. Não expôs suas inclinações morais ou seus conceitos de estado perfeito; apenas trouxe luz para um tema em que outros autores antes dele apenas tergiversavam. Por isso, é considerado o pai da teoria política moderna.

A virtude do governante está em agir de acordo com as exigências das circunstâncias para alcançar ou manter-se no poder, sem dar ouvidos às noções comuns da moral.

Maquiavel declara que a astúcia, a mentira, a má-fé, a troca de favores, o abandono de aliados que não são mais úteis, todos os meios são válidos para manutenção do poder do Estado. Os fins justificam os meios, conforme explicita literalmente.

Não existe um objetivo maior para se alcançar o poder. Não se fala em bem comum, servir ao próximo, felicidade geral etc… apenas luta-se para ter o poder; para estar-se na posição de vantagem na sociedade.

Contudo, é necessário aparentar sempre comportamentos da virtude comum, de boa-fé, de religiosidade e moral para não perder o sentimento de respeitabilidade com o restante da população.

O autor entende que os homens não são bons, portam-se com violência e trairão o governante se as circunstâncias assim o permitirem. Contudo, apesar de não serem bons, os homens (súditos ou aliados) valorizam a imagem de boa-fé e honradez que deve ser cuidadosamente cultivada quando for de interesse.

Em nenhuma circunstância o governante deve abrir mão do comando. O poder detesta o vácuo e qualquer vacilo no exercício do poder será aproveitado por outrem. É necessário que os súditos tenham exata noção do poder e autoridade do governante de forma que em momentos de dificuldade ou guerra, este comando não venha a ser ameaçado ou contestado.

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É clássica a explanação do autor sobre o amor ou temor dos súditos. O ideal seria ser amado e ao mesmo tempo manter o temor entre os seus súditos, contudo, como manter ambas qualidades é dificil, é melhor ser temido do que ser  amado. O temor possui meios mais eficientes para a manutenção do poder.

Quando ações duras ou maléficas se fazem necessárias, o governante deve realizá-los de uma só vez e de forma rápida, de forma a maximizar seus efeitos de terror e sem manter a sociedade eternamente atemorizada (o que ocorreria se as maldades do governo fossem feitas aos poucos e em intervalos constantes), pois tal situação levaria à revolta e a rebelião. Mas as eventuais bondades devem ser sempre feitas aos poucos, de forma seletiva e protraindo-se no tempo,  mantendo sempre a necessidade e a gratidão do povo.

  • Manuel Sanchez, Explicando os conceitos: Maquiavelismo

 

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Explicando os conceitos: Platão e o mundo das idéias

Para Platão, o verdadeiro ser das coisas é a “essência” que não muda, perfeita em todas as suas concepções. O que vemos com nossos olhos e percebemos com nossos sentidos não atinge essa verdadeira “essência”.

Como no mundo em que vivemos tudo está em permanente mudança, tal essência imutável não participa do dia a dia das decisões e experiências humanas.

Não podendo existir nas coisas materiais, mutáveis e passageiras, Platão colocou a “essência” em outra dimensão, que denomina “mundo inteligível”, oposto ao “mundo sensível” em que nos encontramos.

Somente as essências, também chamadas “universais”, existem verdadeiramente, sendo a imutabilidade o sinal distintivo da realidade completa, sem falhas.

As coisas, perecíveis, arrastadas pela onda eterna da mudança, existem na medida em que são meros constructos das essências, cópias mal feitas das Ideias ou Formas existentes no mundo inteligível .

Para nos afastarmos do mundo sensível e atingirmos algum vislumbre das Idéias perfeitas do mundo inteligível, Platão coloca como único instrumento o uso da razão pura.

Essa dicotomia entre corpo e razão – ou corpo e alma, na releitura platônica feita pela Igreja medieval – é o cerne do pensamento dualista que dominou o paradigma filosófico desde Platão.

– Manuel Sanchez

Explicando os Conceitos: O Mito da caverna de Platão

O mito da caverna é uma passagem clássica da história da Filosofia, sendo parte constituinte do livro VI de “A República” onde Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação de seu Estado ideal, que tem algumas conotações totalitárias em alguns aspectos.

A narrativa expressa a imagem de prisioneiros que desde o nascimento são acorrentados no interior de uma caverna de modo que olhem somente para uma parede iluminada por uma fogueira. Essa, ilumina um palco onde estátuas dos seres como homem, planta, animais etc. são manipuladas, como que representando o cotidiano desses seres. No entanto, as sombras das estátuas são projetadas na parede, sendo a única imagem que aqueles prisioneiros conseguem enxergar. Com o correr do tempo, os homens dão nomes a essas sombras (tal como nós damos às coisas) e também à regularidade de aparições destas. Os prisioneiros fazem, inclusive, torneios para se gabarem, se vangloriarem a quem acertar as corretas denominações e regularidades.

Um destes prisioneiros sai das amarras e vasculha o interior da caverna. Ele percebe o que permitia a visão era a fogueira e que na verdade, os seres reais eram as estátuas e não as sombras. Passou a vida inteira julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade. Posteriormente esse mesmo prisioneiro sai da própria caverna. Ao sair, a luz do sol ofusca sua visão imediatamente e só depois de muito habituar-se com a nova realidade, pode enxergar as maravilhas dos seres fora da caverna.

Não demora a perceber que aqueles seres tinham mais qualidades do que as sombras e as estátuas. Observa que o Sol é a fonte da luz e envergonha-se da simples fogueira do interior da caverna.

img_como_e_o_mito_da_caverna_5379_origMaravilhado com esse novo mundo e com o conhecimento que então passara a ter da realidade, esse ex-prisioneiro lembra-se de seus antigos amigos no interior da caverna e da vida que lá levavam.  Desce à caverna para lhes contar o novo mundo que descobriu. No entanto, como os ainda prisioneiros não conseguem vislumbrar senão a realidade que presenciam, debocham de seu colega liberto, dizendo-lhe que está louco e o ameaçam de morte caso não cessasse suas loucuras.

Com essa alegaria, Platão quis mostrar que os prisioneiros somos nós. A caverna é o mundo ao nosso redor, físico, sensível em que as imagens prevalecem sobre os conceitos, formando em nós opiniões por vezes errôneas e equivocadas. Quando começamos a descobrir a verdade, temos dificuldade para entender e apanhar o real (ofuscamento da visão ao sair da caverna) e para isso, precisamos nos esforçar, estudar, aprender, querer saber.

O mundo fora da caverna representa o mundo real, que para Platão é o mundo inteligível por possuir Formas ou Ideias que guardam consigo uma identidade indestrutível e imóvel, galgada apenas pelo intelecto e pela filosofia.  A descida de retorno à caverna é a vontade ou a obrigação moral que o homem esclarecido tem de ajudar os seus semelhantes a saírem do mundo da ignorância e do mal. Mas cuidado, nem todos irão compreender ou mesmo aceitar esse doação e aquele que se dispõem a isso poderá ouvir apenas impropérios e mesmo ameaças.

E se você continua interessado no assunto, leia também esse link com a visão de José Saramago sobre o mito da caverna e como o filme Matrix fez também uma referência direta.

Guia Rápido do Blog: Explicando os Conceitos

Para facilitar a vida dos leitores, criei a série “Guia Rápido do Blog” para acessar os links relativos a determinado assunto que escrevi no Blog. 

Neste, temos uma lista da série “Explicando os Conceitos“, onde tento destrinchar conceitos chave no entendimento da obra de alguns autores. 

Espero que ajude,

Manuel Sanchez

  1. Amor Fati em Nietzsche
  2. Ética da Virtude v. Ética do Dever (Aristóteles v. Kant)
  3. Hobbes: O Homem é Lobo do próprio Homem
  4. Nietzsche e a Religião v. Super-Homem
  5.  O Eterno Retorno em Nietzsche
  6. Sartre: A Existência Precede a Essência
  7. Kant e o Imperativo Categórico
  8. O Estado de Natureza em Hobbes e em Rosseau
  9. Descartes: Penso, Logo Existo
  10. Nietzsche: Deus está Morto
  11. O Totalitarismo em Platão
  12. O Homem como Ser Político e o Estado Aristotélico
  13. David Hume: paixão determinística vs livre-arbítrio
  14. Epicuro e o Paradoxo do Mal na existência humana
  15. Maquiavelismo Político
  16. Sartre e os limites da liberdade de escolha: conceito de situação
  17. A percepção em Berkley
  18. A Linguagem em Wittgenstein
  19. Bakthin e os Limites do Eu e da Linguagem
  20. Pitágoras e Juvenal: Mente Sã em Corpo São
  21. Por que Sócrates foi julgado?
  22. Explicando o Niilismo em Nietzsche
  23. O mundo das Idéias Platônico
  24. A alegoria da Caverna Platônica

 

Explicando os conceitos – Nietzsche : a morte de Deus 

Explicando os conceitos: Deus está morto

Uma passagem famosa e mal compreendida do filósofo Nietzsche refere-se à morte de Deus. O trecho reproduzido a seguir traz esse trecho de imensa beleza literária e profundo impacto filosófico e existencial. 

Para Nietzsche, Deus é a maior muleta inventada pelo homem. O homem que teme a vida que ocorre agora – neste instante – estando sempre jogando seus sonhos, anseios e esperanças para um futuro longínquo ou mesmo para outra vida, além do túmulo. Nietzsche desconfia de toda e qualquer ideologia, religião ou guru que traga respostas prontas, verdades absolutas, revelações transcendentes. Pouco importa se estamos de fato falando de religiões  ou de ideologias laicas para o filósofo, ele chama de “Deus” a idéia de que alguma outra coisa, energia, grupo ou entidade virá resolver nossos problemas – nesta ou em outra vida.

O verdadeiro homem – o super-homem nietzschiano – é alguém que abandona as muletas. Nega a transcendência. Afasta-se dos gurus. Dá as costas para as verdades absolutas. Não se filia a ideologias que lhe tragam as explicações do mundo empacotadas e com respostas prontas. Esse homem que não precisa mais de muletas e desconfia de tudo aquilo que nega a vida – a vida aqui, agora, completamente plena neste instante que vivemos hoje – não precisa mais de um deus. Nietzsche defendia que deveríamos nos transformar em super-homens. Para então, podermos afirmar que não precisamos mais de muletas. Deus está morto.       

(Manuel Sanchez)

 

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A Morte de Deus (Nietzsche)

O homem Louco. 

– Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? 

– E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós os matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!”

 Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. 

Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram! – 

Conta-se também no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas , e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternaum deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”.

Aforismo 125 – Friederich Nietzsche – Gaia Ciência