Guia Rápido do Blog: Explicando os Conceitos

Para facilitar a vida dos leitores, criei a série “Guia Rápido do Blog” para acessar os links relativos a determinado assunto que escrevi no Blog. 

Neste, temos uma lista da série “Explicando os Conceitos“, onde tento destrinchar conceitos chave no entendimento da obra de alguns autores. 

Espero que ajude,

Manuel Sanchez

  1. Amor Fati em Nietzsche
  2. Ética da Virtude v. Ética do Dever (Aristóteles v. Kant)
  3. Hobbes: O Homem é Lobo do próprio Homem
  4. Nietzsche e a Religião v. Super-Homem
  5.  O Eterno Retorno em Nietzsche
  6. Sartre: A Existência Precede a Essência
  7. Kant e o Imperativo Categórico
  8. O Estado de Natureza em Hobbes e em Rosseau
  9. Descartes: Penso, Logo Existo
  10. Nietzsche: Deus está Morto
  11. O Totalitarismo em Platão
  12. O Homem como Ser Político e o Estado Aristotélico
  13. David Hume: paixão determinística vs livre-arbítrio
  14. Epicuro e o Paradoxo do Mal na existência humana
  15. Maquiavelismo Político
  16. Sartre e os limites da liberdade de escolha: conceito de situação
  17. A percepção em Berkley
  18. A Linguagem em Wittgenstein
  19. Bakthin e os Limites do Eu e da Linguagem

 

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Explicando os conceitos: maquiavelismo político

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Realpolitik é um termo alemão que faz menção à politica ou diplomacia baseada em considerações de ordem prática, abandonando-se quaisquer noções ideológicas. Trata-se de um termo usado normalmente de forma pejorativa, mas que se lastreia, em última análise em puro realismo político.

Historicamente, o termo foi usado pela primeira vez por escritores alemães do séc. XIX, mas  teóricos em história política apontam que o primeiro escritor a tratar de forma extensa do tema teria sido o florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527).

Normalmente vinculado à sua obra mais famosa “O Principe” , Maquiavel também foi poeta, escritor de peças teatrais ( “Mandrágora” ainda é considerada um ponto alto das peças de comédia apesar de engenhosamente tratar de política) , diplomata, historiador e músico. 

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Ao contrário de outros escritores que se debruçaram sobre a descrição de Estados idealizados (podemos citar Platão em “A República” e Thomas More em “Utopia”, por exemplo), Maquiavel está preocupado em descrever o mundo tal qual ele é, com suas costuras políticas violentas e mesmo impiedosas. Não há qualquer tentativa de criação de um exemplo mais puro ou mais nobre a ser seguido ; nem  julgamentos sobre a moralidade da realidade que nos cerca.

Vídeo “O Príncipe” de Maquiavel

Maquiavel está preocupado em estabelecer normas de conduta para o agir do governante na vida real, sem idealizar estados perfeitos ou utópicos. Para tanto, considera e estuda diversos exemplos de governantes da antiguidade e de seu próprio tempo, mostrando onde agiram bem ou mal e o que poderiam ter feito de diferente no objetivo de conquistar e manter o poder.

Olhando ao redor, analisando a politica nacional e internacional, verificamos que nenhum desses conceitos são novos e, ao contrário, são praticados diuturnamente pela classe politica de todos os espectros.

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Também não foram uma invenção do autor florentino, em que pese seu nome estar vinculado inexoravelmente ao cometimento de atos imorais ou de crueldade fria. Maquiavel  escreveu seu livro como um médico realizando uma autópsia. Não expôs suas inclinações morais ou seus conceitos de estado perfeito; apenas trouxe luz para um tema em que outros autores antes dele apenas tergiversavam. Por isso, é considerado o pai da teoria política moderna.

A virtude do governante está em agir de acordo com as exigências das circunstâncias para alcançar ou manter-se no poder, sem dar ouvidos às noções comuns da moral.

Maquiavel declara que a astúcia, a mentira, a má-fé, a troca de favores, o abandono de aliados que não são mais úteis, todos os meios são válidos para manutenção do poder do Estado. Os fins justificam os meios, conforme explicita literalmente.

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Não existe um objetivo maior para se alcançar o poder. Não se fala em bem comum, servir ao próximo, felicidade geral etc… apenas luta-se para ter o poder; para estar-se na posição de vantagem na sociedade.

Contudo, é necessário aparentar sempre comportamentos da virtude comum, de boa-fé, de religiosidade e moral para não perder o sentimento de respeitabilidade com o restante da população.

O autor entende que os homens não são bons, portam-se com violência e trairão o governante se as circunstâncias assim o permitirem. Contudo, apesar de não serem bons, os homens (súditos ou aliados) valorizam a imagem de boa-fé e honradez que deve ser cuidadosamente cultivada quando for de interesse.

Em nenhuma circunstância o governante deve abrir mão do comando. O poder detesta o vácuo e qualquer vacilo no exercício do poder será aproveitado por outrem. É necessário que os súditos tenham exata noção do poder e autoridade do governante de forma que em momentos de dificuldade ou guerra, este comando não venha a ser ameaçado ou contestado.

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É clássica a explanação do autor sobre o amor ou temor dos súditos. O ideal seria ser amado e ao mesmo tempo manter o temor entre os seus súditos, contudo, como manter ambas qualidades é dificil, é melhor ser temido do que ser  amado. O temor possui meios mais eficientes para a manutenção do poder.

Quando ações duras ou maléficas se fazem necessárias, o governante deve realizá-los de uma só vez e de forma rápida, de forma a maximizar seus efeitos de terror e sem manter a sociedade eternamente atemorizada (o que ocorreria se as maldades do governo fossem feitas aos poucos e em intervalos constantes), pois tal situação levaria à revolta e a rebelião. Mas as eventuais bondades devem ser sempre feitas aos poucos, de forma seletiva e protraindo-se no tempo,  mantendo sempre a necessidade e a gratidão do povo.

 

Explicando os conceitos: David Hume – paixão ou livre arbítrio?

“A razão é, e só pode ser, escrava das paixões”, é um dos conceitos mais difundidos e repetidos de David Hume.

Hume (sec xviii) não acreditava no império da razão e colocava em xeque a supremacia do livre arbítrio; um pilar filosófico desde Platão.

Para ele, o ser humano era um agenciamento de forças que passavam primariamente pelo desejo e pelos afetos para, depois do fato consumado, justificarmos nossas ações pela razão.

O que acreditamos que racionalmente desejamos  (uso da vontade na determinação dos desejos a serem realizados ou inibidos) está decidido por nós antes de termos consciência.

Primeiro desejamos. Depois agimos. Por fim, justificamos.

Com isso em mente, entendemos o significado de suas  palavras: ” A razão é, e só pode ser, escrava das paixões” (David Hume em Tratado da natureza humana)

– Manuel Sanchez

Explicando os conceitos: amor fati em Nietzsche 

SOBRE O AMOR FATI

“Amor fati: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz sim!”

Nietzsche, Gaia Ciência, 276.

“Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo,(…) mas amá-lo..”

Nietzsche, Ecce Homo.

Explicando os conceitos:

O amor fati em Nietzsche é a sua fórmula para uma reconciliação com o Real.

E isso pode ter consequências positivas e negativas em igual monta, apesar das últimas passarem quase sempre despercebidas.

Devemos lembrar que o filósofo atacava visceralmenre os grandes sistemas de pensamentos que tentavam criar utopias, fossem elas religiosas ou laicas.

Nietzsche direcionava  suas críticas sobretudo contra o cristianismo, que via como o símbolo máximo da idéia tiranizadora que retirava o homem do mundo das sensações, do mundo real, colocando como pecado a vida vivida e buscando sempre uma idéia utópica, castradora dos sentidos e gozos mundanos – para ele, os únicos verdadeiros.

Assim, o  cristianismo era identificado por Nietzsche como o ápice do niilismo. Devemos nos lembrar que Nietzsche dava um significado particular  ao niilismo.   Aqui, niilismo é visto como a negação da vida real, de prazeres e sensações.

O amor fati seria então abraçar o mundo real com seus dados de dores e prazeres. Não negar coisa alguma. Nada do que seja humano deve ser pecaminoso. O próprio pecado não existe porque não há transcendência religiosa alguma para julgar nada.  O amor fati é o símbolo do homem que diz sim para as sensações do mundo e o abraça como ele é.

Mas o ataque ao niilismo de nietzsche também abarca os ideais laicos.

Nietzsche defendia que ideologias laicas que postulavam utopias também retiravam o homem de uma possibilidade de reconciliação com o real.

Assim, lemos trechos de ataque a ideais democráticos e igualitários que causam profundo estranhamento e desconforto para um leitor contemporâneo.

Devemos sempre ler Nietzsche colocando o pano de fundo de suas idéias como um todo: o filósofo não acreditava  na igualdade entre as pessoas; seus textos defendem uma postura altiva, que ultrapassa as crenças do homem médio e que cria castas entre as pessoas. Nietzsche postula uma visão aristocrática e desigual entre os homens.

Uma lógica de pensamento como essa ataca imediatamente as idéias de igualdade e democracia porque elas justamente querem modificar a estrutura desigual do mundo. Pelo mesmo motivo, Nietzsche desacreditava do socialismo e mesmo do feminismo.

Defender um mundo desigual como ele ja é – e abraçá-lo – leva a atacar todos que querem transformá-lo. Nada querer atrás de si ou para frente também pode acarretar um imenso imobilismo político e social. Quando a única negação é desviar o olhar, chega-se muito próximo da conivência com o opressor.

As possíveis  interpretações do amor fati continuam.

Há quem leia o amor fati de forma mais restritiva e como forma de reagir e agir na vida pessoal.

Para essa visão, o amor fati não engloba grandes paisagens sociais e lutas políticas, mas apenas uma postura individual de como encarar a vida.

Assim, o amor fati seria quase uma régua de medição dos fatos da vida e um compasso para direcionar as ações . Entender e aceitar as dores e frustrações.  Receber e amar os prazeres. Viver as experiências. Não fugir das sensações do mundo. Passar pela experiência humana tentando expressar toda a sua potência interior. Transformar-se naquilo que você pode e deve ser, sem aceitar limites impostos pela tradição ou por preconceitos.

Nesta leitura, o amor fati transforma-se quase em uma filosofia de vida. Uma mola propulsora para galvanizar todas as energias que cada um pode agenciar dentro de si. Ser ativo ao invés de reativo. Criativo ao invés de passivo. Receptivo ao invés de frio.

Particularmente, é com esse significado que eu tento aplicar o amor fati no meu dia a dia.

– Manuel Sanchez , editor do Blog Opinião Central

 

Explicando os conceitos: ética da virtude e ética do dever 

De acordo com o pensamento grego antigo , ser uma boa pessoa e distinguir o certo do errado não é primordialmente uma questão de entender e aplicar determinadas regras e princípios morais em abstrato. 

Para os antigos gregos, o agir ético é uma questão de ser ou tornar-se o tipo de pessoa que, ao adquirir sabedoria por meio da prática correta, irá se comportar habitualmente de forma apropriada nas circunstâncias apropriadas analisando o caso concreto.

Aristóteles ainda é considerado o maior dos filósofos no campo da ética da virtude e sua obra principal neste tema foi “Ética a Nicomaco “. 

Os que advogam a ética da virtude se colocam em campo distinto  da linha da ética do dever,  cujo maior nome foi Kant. Para este, na obra ‘Critica da Razao Prática’ , a ética e a moral seriam avaliadas em abstrato, seguindo regras hipotéticas que serviriam de ordens mandatórias para todos os indivíduos sujeitos à determinada situação. 

Para Aristóteles,  comportar-se de modo ético  estava intrinsecamente ligado ao exercício da razão, ou à escolha racional, no caso concreto, transformando o bom agir em um hábito.  Para Kant, comportar-se de forma ética estava ligado a seguir a ordem do imperativo categórico que, hipotecamente serviria de referência para a forma correta de agir de qualquer indivíduo.