Explicando os conceitos: ética da virtude e ética do dever 

De acordo com o pensamento grego antigo , ser uma boa pessoa e distinguir o certo do errado não é primordialmente uma questão de entender e aplicar determinadas regras e princípios morais em abstrato. 

Para os antigos gregos, o agir ético é uma questão de ser ou tornar-se o tipo de pessoa que, ao adquirir sabedoria por meio da prática correta, irá se comportar habitualmente de forma apropriada nas circunstâncias apropriadas analisando o caso concreto.

Aristóteles ainda é considerado o maior dos filósofos no campo da ética da virtude e sua obra principal neste tema foi “Ética a Nicomaco “. 

Os que advogam a ética da virtude se colocam em campo distinto  da linha da ética do dever,  cujo maior nome foi Kant. Para este, na obra ‘Critica da Razao Prática’ , a ética e a moral seriam avaliadas em abstrato, seguindo regras hipotéticas que serviriam de ordens mandatórias para todos os indivíduos sujeitos à determinada situação. 

Para Aristóteles,  comportar-se de modo ético  estava intrinsecamente ligado ao exercício da razão, ou à escolha racional, no caso concreto, transformando o bom agir em um hábito.  Para Kant, comportar-se de forma ética estava ligado a seguir a ordem do imperativo categórico que, hipotecamente serviria de referência para a forma correta de agir de qualquer indivíduo.

Explicando os conceitos: O homem é o lobo do homem 

“Homo homini lupus”, é uma sentença latina que significa: “O homem é o lobo do homem”.

A frase original é de  Plauto, dramaturgo romano de comédias e farsas que viveu de 254 a 184 a.C. 

Foi popularizada, bem mais tarde no século XVII, pelo filósofo inglês Thomas Hobbes, autor da obra O Leviatã, no qual defendia que através do contrato social, os homens entregaram parcela de sua liberdade ao Estado para que este controlasse os impulsos de destruição e barbárie que nos dominam no estado de liberdade.

Para Hobbes, o homem livre é um lobo raivoso sempre pronto para atacar os seus semelhantes e se valer da força para sua própria satisfação. Seria então necessário o controle e a força do Estado para retirar dos cidadãos essa liberdade absoluta colocando-os sob o império da lei. 

Obviamente nunca existiu o aludido contrato social.  Trata-se de uma ficção política para explicar o Estado e a formação da sociedade.  

Posteriormente, Jean Jaques Rousseau traria uma visão diferente do contrato social e da vida em sociedade.  Em Rousseau, o homem fora do estado vivia em harmonia e em paz com todos que encontrava.  Teria sido a criação do Estado que ordenando os homens em leis e regras, criou a mola de inveja e destruição. Rousseau falava do bom selvagem, outra figura fictícia que só existiu nos livros. 

– Manuel Sanchez 

Explicando os conceitos: Nietzsche e a religião vs. O super-homem 

 

Nietzsche tinha uma postura virulenta contra a religião, sobretudo a cristã, responsável pelo caldo cultural do Ocidente. Para ele, este era o símbolo maior do niilismo, lembrando que em Nietzsche o niilismo tem o significado oposto do que normalmente defini-se na filosofia. Aqui, o niilismo é a negação da vida, a entrega da própria vida e pulsões em nome de alguma crença transcendente à realidade (seja esta crença religiosa ou laica), como foi melhor explicado neste post.

Para o filósofo do martelo, a religião era uma forma de controle sobre o homem, sendo uma ferramenta usada para retirar de nós nossas vontades e pulsões. O homem religioso seria um cordeiro, um eunuco da própria potência que busca sempre um guru, pastor, mestre ou divindade para decidir por ele e em quem poderia recorrer para chorar suas fraquezas. 

Nietzsche acreditava que a filosofia e a moral religiosas eram a moral do escravo, do subserviente. É a criação dos homens reativos que se juntam em grupo por não terem força de cuidar das suas necessidades e vontades, opondo-se pelo maior número aos homens dominados por suas forças ativas.

O homem religioso – ou qualquer outro homem entregue ao niilismo (niiilismo segundo a definição de Nietzsche!) – buscaria uma resposta exterior a si próprio por não ter coragem de decidir sozinho  e viver com as consequências de suas escolhas.  O homem forte não necessitaria de qualquer auxílio psicológico ou metafísico  para gerir sua vida. E também não estaria jungido a qualquer moral de auxílio aos fracos. Este seria o super-homem.

O homem niilista em Nietzsche  – entregue a doutrinas externas, transcendentes da realidade – seria o oposto do super homem, última fase de nossa evolução pessoal. 

Para Nietzsche o super-homem é aquele que tem controle sobre a sua vida, luta pelos seus desejos, assume suas responsabilidades sem necessitar de apoios externos ou crenças metafísicos. É o homem que não recorre a pastores, divindades, autoajuda, respostas prontas, mandamentos exteriores ou tabelas pré moldadas de valores. O super-homem se basta por ter atingido um grau de autoconhecimento em que aceita sua vontade de potência e vive o mundo real, sem muletas metafísicas e criaturas ficcionais.

Ao mesmo tempo em que vemos o super-homem de Nietzsche como modelo a ser perseguido, a força ativa por natureza criando-se a si próprio sem subserviência; não se pode ficar cego para sua fácil inclinação a assumir uma postura fria e insensível para com os demais seres humanos. 

-Nietzsche e a religião vs o super-homem, introdução por  Manuel Sanchez 

 

 

 

 

Explicando os Conceitos: O Eterno Retorno em Nietzsche

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O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terá de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.

– Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”.

Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela”

– Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência, 341

 

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Para inaugurar a seção “Explicando os Conceitos”, proponho a chave do eterno retorno exposta em diversas passagens da obra do filósofo Friedrich Nietzsche.

O conceito do eterno retorno é central na obra de Nietzsche. Trata-se de um um rigoroso critério de avaliação da própria vida.

Através do eterno retorno, o filósofo pergunta se  vida que você tem hoje é a vida que você quer viver. O conceito passa longe de qualquer interpretação metafísica e também não tem qualquer relação com a repetição da rotina ou a  passagem do tempo de forma cíclica e outras interpretações enviesadas que encontra-se em alguns textos.

O eterno retorno é uma régua de avaliação individual para a vida que você leva neste momento: agora. 

Nietzsche é um filósofo vitalista preocupado com a vida que se leva na completa imanência – neste mundo, o único possível –  sem qualquer tipo de muleta metafísica ou transcendental. Assim, seu critério de avaliação da vida só pode ser feito aqui, neste momento.  O emprego que você tem, o relacionamento em que você está, o tipo de vida que você leva…. se eles voltassem e voltassem e voltassem, você seria feliz? E se a resposta for negativa, o que te impede de mudar? A felicidade deve ser buscada e batalhada na criação de uma vida que se deseje que retorne, a cada dia, a cada momento, que pode ser repetir  sempre.

A régua de avaliação do eterno retorno é individual. Não se trata aqui de um conceito de autoajuda; não se fala de regras de condutas a serem copiadas e imitadas por todos. Cada um, por si e na mais desolada solidão, deve enxergar em seus gostos e inclinações aquilo que o deixa feliz e satisfeito. E colocá-los de maneira integral em sua vida.  E assim entendemos a pergunta do demônio de Nietzsche:  se essa vida que você tem agora tivesse que repetir de novo e de novo e de novo, você ajoelharia e rangeria os dentes ou responderia que nunca ouviu coisa mais linda?

– Manuel Sanchez

Explicando os conceitos: A existência precede a essência (Sartre)

Para o filósofo Jean Paul Sartre, apenas no ser humano a existência precede a essência, o que constitui toda a angústia e a liberdade do homem.

Imagine uma faca, ou uma roda ou um veículo ou uma empresa química. Esses objetos, máquinas e construções da técnica humana foram idealizados antes de serem efetivamente construídos. Digamos, sua essência pré existia a sua efetivação no mundo físico. A idéia veio antes do corpo físico. A função veio antes da sua construção.  Portanto, a Essência precede a existência.

No caso dos demais seres vivos, desde a samambaia até a onça pintada, todos eles nascem equipados com os instintos e reflexos necessários para a sobrevivência no seu meio. A evolução natural capacitou vegetais, insetos e animais existentes para todos os atos de crescimento, sociabilidade, reprodução, caça ou fuga. Já vem inscrito no instinto. Eles possuem isso no seu software que vem de fabrica insculpido no cérebro ao nascerem. Toda tartaruga marinha vai agir igual. Assim como todo pombo migratório. Nenhum animal desses vai decidir agir como um tatu bola ou sair de sua rota de migração planetária inscrita no seu DNA para de repente largar o grupo e ser ermitão no Himalaia. Podemos ensinar muitos truques a um cachorro mas há um limite possivel pela sua espécie. Um cachorro pode aprender a farejar drogas quando estimulado por petiscos em caso de sucesso, mas nem o cão mais inteligente conseguirá compor uma sinfonia ou calcular matematicamente a órbita de um foguete. 

Não é possível porque isso não está inscrito no seu instinto e eles não são equipados para agir fora de um estrito limite de possibilidades. Nesses seres, a essência também precede a existência.

Para Sartre,  isso não ocorre no ser humano. Não existe uma essência humana que nos coagiria pelo instinto e programação básica a sempre agir de determinada forma. 

Obviamente somos animais inseridos na ordem natural e temos instintos que nos indicam no software de nosso cérebro como lutar , fugir , acasalar e nos dão um instinto gregário. Mas o ser humano não é limitado por eles. Não há uma essência pré programada que nos defina e limite.

O ser humano sai de sua rota migratória e pode decidir ir viver como um ermitão no Himalaia se assim decidir. O ser humano pode decidir usar drogas por toda vida. Assim como pode aprender truques não apenas porque é chantageado com alimento, mas decidir por si próprio aprender a compor sinfonias ou calcular a matemática necessária para construir foguetes. 

Se temos instintos de acasalamento, há quem decida manter-se virgem por valores religiosos. E existem aqueles criados em estruturas gregárias e sociais estritamente asfixiantes e religiosas, mas que quebram o padrão familiar de gerações e decidem ser hippies ou cair na farra. Há quem tenha sido criado com valores simples mas decidiu romper com isso e ser executivo do setor de operações em bolsas de valores para ficar milionário. 

Não somos limitados por nossos instintos. Não existem valores pré ordenados eternos que condicionam nossa vida. 

Ou como diz o lema do existencialismo Sartreano “A existência precede a essência” .

Primeiro nascemos e depois vamos aprendendo a viver. Nosso software instalado no cérebro nos capacita para muita coisa mas não nos define. 

Nascemos em determinada cultura, somos preenchidos com certos valores desde a infância e orientados para agir da forma X,y ou z. Pode ser que ao longo da vida nós concordemos e reforcemos esses valores. Mas também podemos discordar e mudar de vida, valores e mesmo negar o corpo social no qual estamos inseridos. 

E isso ocorre porque não existe essência humana. Nem valores absolutos na espécie humana ou uma maneira única e certa de viver a vida. Não existe essência que antecede a existência humana.

Os valores são construídos por nós após a existência e ao longo da socialização. Decidimos no dia a dia com quais valores vamos aderir e de quais vamos nos afastar. E podemos refletir e alterar de opinião ao longo do caminho.

E fazemos isso individualmente e também como coletividade. O ser humano já aceitou na história recente  que negros eram inferiores e poderiam ser escravizados, que mulheres não tinham o direito de ocupar o espaço público, que homossexuais não tinham direito de ver reconhecidos direitos familiares e sucessórios básicos, que crianças poderiam ser objeto de violência com o objetivo de educação, que grupos raciais ou étnicos minoritários poderiam ser exterminados, que o embranquecimento da raça era desejável, que a eugenia era uma finalidade a ser perseguida, que a liberdade de opinião não cabe para todos os grupos, que certas religiões são mais benéficas do que outras e algumas podem ser caladas pela violência  etc etc etc…. 

E infelizmente nós sabemos que muitos dos exemplos citados acima ainda são defendidos por alguns grupos. E essa luta por valores e pela legitimidade do discurso que deságua na forma individual como levamos a nossa própria vida não terá fim. Ocorrerá com cada pessoa que andar sobre esse planeta. E isso ocorre porque no caso dos humanos o instinto não basta. Ele existe mas não dá conta do recado. Não existe essência humana que precede a existência.

E com isso vem a angústia de não termos caminhos pré decididos. Somos eternamente acompanhados pela liberdade de poder escolher e tomar um rumo que pode ser único. Albert Camus dizia que o entendimento dessa situação levava o homem ao que ele definiu como situação de absurdo.

Todos nascemos em determinada posição social e vivemos em um grupo com valores previamente sedimentados antes de nossa chegada. Sartre chama isso de “situação”. E a situação – tanto social quanto historicamente – traz para cada um de nós um rol de possibilidades e limites. Muitas vezes esses limites podem ser tão fortes e arraigados que romper com os mesmos pode levar a uma resposta violenta do grupo social dominante que acarrete o ostracismo, prisão ou morte daquele que tenta impor sua forma de viver. 

Mas a decisão de seguir adiante ou desistir por preguiça ou medo pela própria vida é nossa. E apenas nossa. Como nos alerta Sartre, mesmo na omissão existe decisão. E não vai nisso um julgamento moral mas uma simples constatação.

Valores são construídos historicamente. E individualmente aderimos ou os rechaçamos. Não existe forma correta prévia e absoluta de viver. Essa liberdade é nossa. E essa angústia também.

E assim resume Sartre nos lemas existencialistas : “a existência precede a essência” ou ” não existe essência antes da existência”.

– escrito por Manuel Sanchez