Explicando os conceitos: Platão e o mundo das idéias

Para Platão, o verdadeiro ser das coisas é a “essência” que não muda, perfeita em todas as suas concepções. O que vemos com nossos olhos e percebemos com nossos sentidos não atinge essa verdadeira “essência”.

Como no mundo em que vivemos tudo está em permanente mudança, tal essência imutável não participa do dia a dia das decisões e experiências humanas.

Não podendo existir nas coisas materiais, mutáveis e passageiras, Platão colocou a “essência” em outra dimensão, que denomina “mundo inteligível”, oposto ao “mundo sensível” em que nos encontramos.

Somente as essências, também chamadas “universais”, existem verdadeiramente, sendo a imutabilidade o sinal distintivo da realidade completa, sem falhas.

As coisas, perecíveis, arrastadas pela onda eterna da mudança, existem na medida em que são meros constructos das essências, cópias mal feitas das Ideias ou Formas existentes no mundo inteligível .

Para nos afastarmos do mundo sensível e atingirmos algum vislumbre das Idéias perfeitas do mundo inteligível, Platão coloca como único instrumento o uso da razão pura.

Essa dicotomia entre corpo e razão – ou corpo e alma, na releitura platônica feita pela Igreja medieval – é o cerne do pensamento dualista que dominou o paradigma filosófico desde Platão.

– Manuel Sanchez

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Explicando os conceitos – Nietzsche : a morte de Deus 

Explicando os conceitos: Deus está morto

Uma passagem famosa e mal compreendida do filósofo Nietzsche refere-se à morte de Deus. O trecho reproduzido a seguir traz esse trecho de imensa beleza literária e profundo impacto filosófico e existencial. 

Para Nietzsche, Deus é a maior muleta inventada pelo homem. O homem que teme a vida que ocorre agora – neste instante – estando sempre jogando seus sonhos, anseios e esperanças para um futuro longínquo ou mesmo para outra vida, além do túmulo. Nietzsche desconfia de toda e qualquer ideologia, religião ou guru que traga respostas prontas, verdades absolutas, revelações transcendentes. Pouco importa se estamos de fato falando de religiões  ou de ideologias laicas para o filósofo, ele chama de “Deus” a idéia de que alguma outra coisa, energia, grupo ou entidade virá resolver nossos problemas – nesta ou em outra vida.

O verdadeiro homem – o super-homem nietzschiano – é alguém que abandona as muletas. Nega a transcendência. Afasta-se dos gurus. Dá as costas para as verdades absolutas. Não se filia a ideologias que lhe tragam as explicações do mundo empacotadas e com respostas prontas. Esse homem que não precisa mais de muletas e desconfia de tudo aquilo que nega a vida – a vida aqui, agora, completamente plena neste instante que vivemos hoje – não precisa mais de um deus. Nietzsche defendia que deveríamos nos transformar em super-homens. Para então, podermos afirmar que não precisamos mais de muletas. Deus está morto.       

(Manuel Sanchez)

 

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A Morte de Deus (Nietzsche)

O homem Louco. 

– Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? 

– E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós os matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!”

 Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. 

Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram! – 

Conta-se também no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas , e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternaum deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”.

Aforismo 125 – Friederich Nietzsche – Gaia Ciência

Explicando os Conceitos: O Eterno Retorno em Nietzsche

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O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terá de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.

– Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”.

Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela”

– Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência, 341

 

índice

 

O conceito do eterno retorno é central na obra de Nietzsche. Trata-se de um um rigoroso critério de avaliação da própria vida.

Através do eterno retorno, o filósofo pergunta se  vida que você tem hoje é a vida que você quer viver. O conceito passa longe de qualquer interpretação metafísica e também não tem qualquer relação com a repetição da rotina ou a  passagem do tempo de forma cíclica e outras interpretações enviesadas que encontra-se em alguns textos.

O eterno retorno é uma régua de avaliação individual para a vida que você leva neste momento: agora. 

Nietzsche é um filósofo vitalista preocupado com a vida que se leva na completa imanência – neste mundo, o único possível –  sem qualquer tipo de muleta metafísica ou transcendental. Assim, seu critério de avaliação da vida só pode ser feito aqui, neste momento.  O emprego que você tem, o relacionamento em que você está, o tipo de vida que você leva…. se eles voltassem e voltassem e voltassem, você seria feliz? E se a resposta for negativa, o que te impede de mudar? A felicidade deve ser buscada e batalhada na criação de uma vida que se deseje que retorne, a cada dia, a cada momento, que pode ser repetir  sempre.

A régua de avaliação do eterno retorno é individual. Não se trata aqui de um conceito de autoajuda; não se fala de regras de condutas a serem copiadas e imitadas por todos. Cada um, por si e na mais desolada solidão, deve enxergar em seus gostos e inclinações aquilo que o deixa feliz e satisfeito. E colocá-los de maneira integral em sua vida.  E assim entendemos a pergunta do demônio de Nietzsche:  se essa vida que você tem agora tivesse que repetir de novo e de novo e de novo, você ajoelharia e rangeria os dentes ou responderia que nunca ouviu coisa mais linda?

– Manuel Sanchez

Nietzsche e o Niilismo

“Eu vi a verdade e ela não faz sentido.” – placa de rua 

O niilismo é definido como a linha filosófica que se afasta da crença em valores absolutos, sejam eles religiosos ou laicos. Nesta linha, as transcendências são assumidas como criações falaciosas, já que não existiria nada além do presente mundo e todos os valores e regramentos morais seriam meramente correntes sem sentido algum. Para o niilista as crenças religiosas, os grandes movimentos políticos, os valores laicos de defesa da igualdade são sem sentidos e ocos.

Nietzsche, por sua vez, definia o niilismo de forma diferente em seus livros; o que gera confusão na leitura nos incautos dessa distinção já que Nietzsche usa o termo pelo seu contrário  (mas não avisa).

Para ele – e somente em Nietzsche encontramos isso – o niilista é o sujeito que crê no mundo das transcendências,  ideologias laicas ou religiosas e na luta por mudanças políticas, esperando por um mundo por vir (seja pela religião, pelos movimentos políticos  ou pela revolução) e negando a vida presente tal como é. Nietzsche se colocava contra os niilismos  (em seu jargão) que vinham lutar contra a vida como ela é: religião, socialismo, feminismo, democracia etc… O que o coloca muitas vezes em um campo elitista, antidemocrático e anti religioso.

– Manuel Sanchez 

Explicando os conceitos: Nietzsche e a religião vs. O super-homem 

 

Nietzsche tinha uma postura virulenta contra a religião, sobretudo a cristã, responsável pelo caldo cultural do Ocidente. Para ele, este era o símbolo maior do niilismo, lembrando que em Nietzsche o niilismo tem o significado oposto do que normalmente defini-se na filosofia. Aqui, o niilismo é a negação da vida, a entrega da própria vida e pulsões em nome de alguma crença transcendente à realidade (seja esta crença religiosa ou laica).

Para o filósofo do martelo, a religião era uma forma de controle sobre o homem, sendo uma ferramenta usada para retirar de nós nossas vontades e pulsões. O homem religioso seria um cordeiro, um eunuco da própria potência que busca sempre um guru, pastor, mestre ou divindade para decidir por ele e em quem poderia recorrer para chorar suas fraquezas. 

Nietzsche acreditava que a filosofia e a moral religiosas eram a moral do escravo, do subserviente. É a criação dos homens reativos que se juntam em grupo por não terem força de cuidar das suas necessidades e vontades, opondo-se pelo maior número aos homens dominados por suas forças ativas.

O homem religioso – ou qualquer outro homem entregue ao niilismo (niiilismo segundo a definição de Nietzsche!) – buscaria uma resposta exterior a si próprio por não ter coragem de decidir sozinho  e viver com as consequências de suas escolhas.  O homem forte não necessitaria de qualquer auxílio psicológico ou metafísico  para gerir sua vida. E também não estaria jungido a qualquer moral de auxílio aos fracos. Este seria o super-homem.

O homem niilista em Nietzsche  – entregue a doutrinas externas, transcendentes da realidade – seria o oposto do super homem, última fase de nossa evolução pessoal. 

Para Nietzsche o super-homem é aquele que tem controle sobre a sua vida, luta pelos seus desejos, assume suas responsabilidades sem necessitar de apoios externos ou crenças metafísicos. É o homem que não recorre a pastores, divindades, autoajuda, respostas prontas, mandamentos exteriores ou tabelas pré moldadas de valores. O super-homem se basta por ter atingido um grau de autoconhecimento em que aceita sua vontade de potência e vive o mundo real, sem muletas metafísicas e criaturas ficcionais.

Ao mesmo tempo em que vemos o super-homem de Nietzsche como modelo a ser perseguido, a força ativa por natureza criando-se a si próprio sem subserviência; não se pode ficar cego para sua fácil inclinação a assumir uma postura fria e insensível para com os demais seres humanos. 

-Nietzsche e a religião vs o super-homem, introdução por  Manuel Sanchez