Abujamra declama Fernando Pessoa ” O Guardador de Rebanhos”  

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Fernando Pessoa: Os deuses e os nossos cacos 

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.

Caiu pela escada excessivamente abaixo.

Caiu das mãos da criada descuidada.

Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!

Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.

Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.

Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.

E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zangam com ela.

São tolerantes com ela.

O que eu era um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,

Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.

Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.

Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?

Um caco.

E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa: quando eu quero a outra 

Amamos sempre no que temos

O que não temos quando amamos.

O barco pára, largo os remos

E, um ao outro, as mãos nos damos.

A quem dou as mãos?

À Outra.
Teus beijos são de mel de boca,

Sãos que sempre pensei dar,

E agora a minha boca toca

A boca que eu sonhei beijar.

De quem á a boca?

Da Outra.
Os remos já caíram na água,

O barco faz o que a água quer.

Meus braços vingam minha mágoa

No abraço que enfim podem ter.

Quem abraço?

A Outra?
Bem sei, és bela, és quem desejo…

Não deixa a vida que eu deseje

Mais que o que pode ser teu beijo

E poder ser eu que te beije.

Beijo, e em quem penso?

Na Outra.
Os remos vão perdidos já,

O barco vai não sei para onde.

Que fresco o teu sorriso está,

Ah, meu amor, e o que ele esconde!

Que é do sorriso 

Da Outra?
Ah, talvez, mortos ambos nós, 

Num outro rio sem lugar

Em outro barco outra vez sós

Poderemos recomeçar,

Que talvez sejas 

A Outra.
Mas não, nem onde essa paisagem

É sob eterna luz eterna

Te acharei mais alguém na viagem

Que amei com ansiedade terna

Por ser parecida

Com a Outra.
Ah, por ora, idos remo e rumo,

Dá-me as mãos, a boca, o teu ser.

Façamos desta hora um resumo

Do que não poderemos ter.

Nesta hora, a única, 

Sê a Outra!

(Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa: Quem precisa de alma?

Houve um dia em que Caeiro me disse uma coisa mais que espantosa. Falávamos, ou, antes, falava eu, da imortalidade da alma, e achava que esse conceito era necessário, ainda que fosse falso, para se poder suportar intelectualmente a existência, e ver nela mais que um amontoado de pedras com mais ou menos consciência.

      – Não sei o que é ser necessário, disse Caeiro.

      Respondi sem responder. – Diga-me uma coisa. O Caeiro o que é para si mesmo?

      «O que sou para mim mesmo? repetiu Caeiro. – Sou uma sensação minha.

      Nunca esqueci o choque da frase contra a minha alma. Ela presta-se a muita coisa, inclusive a coisas contrárias à intenção de Caeiro. Mas, enfim, foi espontânea, foi uma réstia de sol, iluminando sem intenção nenhuma.

(Fernando Pessoa)

In: Obra Essencial de Fernando Pessoa. 

Fernando Pessoa niilista 

A levíssima brisa 

Que sai da tarde morna 

Na minha alma imprecisa — 

Imprecisão entorna.
Nada conduz a nada, 

Nada serve de ser 

No sossego da estrada 

Nada vejo viver.
Meu conhecer é triste 

O que é que tem razão? 

Nada, e o nada persiste 

Na estrada e no verão.

(Fernando Pessoa)