Crítica de Cinema: Os melhores filmes de Super-heróis

 

Os blockbusters do cinema mergulharam de cabeça no estilo dos heróis dos quadrinhos, tentando tirar o máximo possivel das franquias. Sendo um fã da mídia de quadrinhos e lido Marvel e DC por toda a minha infância e adolescência, eu confesso que não me importo com a superexposição que o gênero está sofrendo.

Em algum momento esse movimento levará a um esgotamento e afastamento do público após alguns anos. Basta ver como a industria cinematográfica tratou gêneros anteriores tais como os westerns, filmes de gângsters, relatos de guerra entre outros, que há algumas décadas eram as grandes franquias de seu tempo.   

Mas enquanto esse futuro de esgotamento não chega, vamos a uma lista dos….

MELHORES FILMES DE SUPER-HERÓIS 

 

 

Batman – O cavaleiro das Trevas

A trilogia de Batman de Chris Nolan alcançou seu ápice na segunda parte. Um grande filme, com excelente roteiro e o melhor vilão de todos os tempos no estilo, o Coringa, que com sua visão niilista e destrutiva, tem como objetivo trazer desordem e mostrar que as noções de moralidade são fluidas e que nosso discurso ético pode ser alterado ao sabor da necessidade e do medo.

O filme questiona a noção de controle, dos limites da sanidade, perpassa por todos os seus principais diálogos a discussão sobre o niilismo e a exigência do dever. Depois desta obra, os filmes do gênero passaram a ser comparados por uma nova régua já que ficou demonstrado que era sim possível tratar super-heróis com um roteiro adulto.  

O filme Batman Begins – inicio da trilogia – também merecia estar na lista como uma lição de como contar uma história de origem sem ser bobo ou ingênuo. Mas ele é inferior à segunda parte e já temos mais filmes do Batman nesta lista, então deixo aqui apenas como menção honrosa.

 

 

Logan

Neste momento, considero o melhor filme do gênero de super-heróis já produzido. O último filme com participação de Wolverine é uma reflexão sobre o envelhecimento, sobre paternidade indesejada e mesmo sobre cuidados com pais doentes. E misturado com isso vem um roteiro repleto de ação mostrando o carcajú em sua fúria total.

Não é o típico filme adolescente de heróis e mostra um lado mais realista e sofrido do personagem: desiludido, amargurado, com o peso de ser cuidador de um idoso doente e ele também sofrendo de uma doença progressiva que o faz questionar a possibilidade de suicídio; apesar de tudo, sonhando ainda com uma válvula de escape da realidade na figura de um veleiro. São situações com quem muitas pessoas na platéia podem se relacionar, além de assistir a típica história do mocinho vs. vilão.

 

 

Homem de Ferro I

Enquanto todos os heróis possuem uma obsessão em manter sua identidade secreta e longe do público, Tony Stark surge com o seu ” I´am Iron Man”, assumindo sua identidade para o mundo e vivendo sua egotrip no processo.

O roteiro é bom, mas de fato é o ator principal que transforma esse filme em uma pérola sobre a origem de um herói. Ademais, ele coloca de forma sutil a questão sobre o egocentrismo e a busca por uma superexposição midiática em um mundo onde o anonimato parece cada vez mais um sofrimento.   

Os demais filmes da franquia são bons mas não possuem um roteiro tão perfeito. O personagem do Homem de Ferro, contudo, tornou-se elemento central na construção do universo cinematográfico da Marvel. 

 

 

Homem Aranha 2

Ainda é o melhor filme da franquia do homem-aranha. O aracnídeo volta em uma história amarrada, respeitosa com os personagens ícones dos quadrinhos e cheia de ação e aventura. Nenhuma grande discussão filosófica, apenas um bom filme de ação de quadrinhos. É um bom exemplo dos filmes despretensiosos e de boa diversão.  

 

 

Superman 1

Um clássico. Esse filme nasceu perfeito nos anos 70 e assim permanecerá.

Seu tom é bastante ingênuo perto dos filmes modernos, mas permanece um exemplo de como contar uma história de esperança. Simples e eficaz.

Esse é o superman da minha infância: ingênuo, cheio de valores, otimista, sempre fazendo o que é o certo. Eu gosto muito do estilo moderno dos estúdios da DC mas falta um superman de valores e de inspiração. 

 

 

X-Men – Primeira Classe

Grande filme. Conta as histórias do inicio do grupo, a interação de amizade e disputa entre Xavier e Magneto, tudo ambientado nos anos 60 e em plenas crise dos mísseis cubana. Genial.

Claro que não respeitou absolutamente NADA dos quadrinhos iniciais dos X-Men, mas é um ótimo filme.

Nos diálogos entre Xavier e Magneto encontramos as disputas morais na escolha das estratégias  de defesa do direito das minorias: diálogo, aceitação e convivência VS violência e um ativismo agressivo.

Devemos nos fazer respeitar usando a força se necessário ou esperar pela consciência e moralidade do grupo que nos oprime? 

Essa série atingiu seu ápice no maravilhoso “X-Men – Dias de Um Futuro Passado”  que eu considero um filme melhor, mas é na primeira parte que as questões centrais sobre o agir ético são colocadas com mais proeminência e me cativaram.


 

 

WatchMen

Um dos melhores quadrinhos de todos os tempos  gerou um ótimo filme. Poderia ter mais ritmo. O filme peca por tratar os quadrinhos em que se baseou como algo sagrado que não podia ser alterado, mas nem tudo o que funciona perfeitamente bem nas hqs funciona bem em película.

Mas poucos pecados à parte, é um filme incrível discutindo os limites do controle e a degeneração do poder.

É permeado de discussões filosóficas uma vez que seus personagens estão sempre mergulhados nas escolhas utilitaristas do uso da mentira para buscar o bem da maioria VS o dever deontológico de agir sempre com verdade; o niilismo que degenera em violência sem sentido vs.  o compromisso com o grupo.  O filme não se esconde as discussões dos quadrinhos sobre os limites do estado, uso da violência para o controle social, violência de gênero, uso das mulheres como objeto de prazer sexual sem consequências… está tudo ali.

 

 

Os Vingadores

O filme arrasa-quarteirão que servirá de parâmetro para todos os filmes de ação de heróis de agora em diante. Durante anos, todos acharam que esse filme era impossível de ser realizado. Não se poderia juntar tantos personagens em um único filme e dar espaço suficiente para que funcionasse. Bem… funcionou! E a Marvel criou uma rocha de magnitude gigantesca que desde então só ganha ritmo e velocidade.

O filme juntou franquias e criou outras independentes sendo bem escrito, ótimo ritmo, engraçado e com muita ação.  

Contudo, desde então, os filmes do gênero passaram a ser cada vez MAIORES, MAIS BARULHENTOS, MAIS EXPLOSIVOS, COM MAIS E MAIS CENAS DE IMPACTO …. e o roteiro nem sempre acompanha….viciados em efeitos e explosões cada vez mais eficientes, os filmes passaram a deixar a inteligência de lado. As sementes que os Vingadores plantaram ficaram um pouco amargas com o tempo.  


 
 

 

Capitão América – O Soldado Invernal

O gênero mostrou que pode criar eficientes filmes de espionagem e ação com uma equipe ao estilo missão impossível.

Sem dúvida é a melhor participação do personagem Capitão América – normalmente insosso e sem graça  – na série cinematográfica da Marvel.

Gosto dos capítulos da série Marvel em que os roteiristas tem coragem de alterar o status quo e cujas reverberações se espalham pelos demais filmes ao longos dos anos. Sem dúvida Capitão América 2 é um exemplo disso com suas interações definitivas entre a SHIELD e a HIDRA.

 

 

Guerra Civil 

Se os Vingadores realizou o sonhos dos fãs em ver uma mega equipe de primeira linha junta na tela, o filme da Guerra Civil realizou a tara de ver os combates épicos dos heróis entre si que tanto movimentam os quadrinhos.

Um grande roteiro que juntou os cacos e fios soltos nos filmes anteriores da franquia Marvel e preparou o terreno para um grande acerto de contas.

Principalmente, o filme traz a velha discussão filosófica entre utilitarismo e deontologia: devemos agir certo independente das consequências ou levamos as consequências em conta e assumimos comportamentos nem sempre bons em prol de um bem maior? Esse tema – discutindo esse filme – já foi tratado por mim nesse artigo sobre a guerra civil marvel

 

 

Doutor Estranho

O filme diferentão da Marvel. Muitas pessoas duvidaram que esse filme fosse agradar o grande público trazendo um herói nem tão famoso (para ser simpático) aos não quadrinistas, discutindo temas como a modificação da vida pessoal através dos estudos, o poder da força de vontade e os benefícios pessoais vs as mazelas sociais do egocentrismo.

O personagem fleumático, centrado nas próprias necessidades e reticente em sacrificar-se pelos demais trouxe um novo elemento para os filmes do gênero.   

 

 

Batman Vs Superman

Eu já escrevi uma resenha inteira sobre esse filme, clique aqui.

O filme desagradou críticos, fãs, colocou o universo cinematográfico da DC em dúvida a respeito da sua viabilidade, virou motivo de chacota por parte do fãs ardorosos do universo Marvel, é cheio de pontas soltas, traz arcos de história que só faz sentido para os iniciados, descaraterizou o Batman em um assassino, traz um Superman sempre triste ou raivoso, o pior e mais ridiculo dos Lex Luthor em qualquer mídia,  enfim… é cheio de defeitos.

Mas eu adoro. E a lista é minha.

O filme traz o melhor ator que interpretou o Batman até o momento (quem diria Ben “Demolidor horrivel destruidor de franquias” Affleck…), tem a raiva psicótica do Batman de Frank Miller, tem o passado sofrido nas entrelinhas não verbalizadas com um Robin que já foi assassinado pelo Coringa e com uma Mansão Wayne em escombros.

Pelo lado do Superman tem uma discussão ótima sobre a necessidade humana de ter salvadores e buscar messias ao invés de aceitar as próprias responsabilidades. O filme  discute como somos impotentes frente a forças naturais ou sobrenaturais/sobrehumanas  e nos refugiamos em crenças e nos afastamos da razão em busca de um Guia.

E tem o  combate entre Batman e Superman, o combate mais épico que perpassou as páginas dos quadrinhos. Ridiculamente curto, parece até propaganda enganosa dentro do filme. Mas ficou muito bom…. seria sensacional não fosse o polêmico e ridículo final “Marthaaaaa!”

      

 

 

Anúncios

Crítica de Cinema: Mulher-Maravilha

Aqui no Opinião Central eu gosto de falar de livros profundos e filmes block-busters!

E se for um filme de super-heróis, então o gosto aumenta.  Os estúdios da DC continuam na disputa com Marvel na criação de seu universo cinematográfico compartilhado. Depois dos filmes do Superman, Batman v. Superman (fiz uma crítica neste post) e Esquadrão Suicida, chegou na telas o filme solo da Mulher-Maravilha.

O filme é ótimo. Mas claramente mostra uma mudança de foco no estilo dos filmes anteriores do universo DC. Este é um típico filme de origem de personagem. Acompanhamos a princesa Diana desde sua infância na mítica Ilha Paraíso até se tornar uma Amazona completa e sair em missão no mundo dos homens em busca de Ares, o Deus da Guerra.

Ao contrário do filme Batman v. Superman, o filme da Mulher-Maravilha é linear: não possui qualquer cena apontando para futuros arcos narrativos, sem cenas de sonho, com uma ínfima menção a eventos passados em filmes anteriores e sem a participação de qualquer outro personagem do mundo dos quadrinhos (por exemplo, em Batman v. Superman temos participações ligeiras da própria Mulher-Maravilha e de Flash, Cyborg e Aquaman).

Ao contrário de Esquadrão Suicida, a personagem da Mulher-Maravilha mostra coerência do início ao fim do filme. Enquanto no Esquadrão Suicida os personagens começam vilões que se juntam a contragosto e não se gostam, mas terminam após 1hora sendo pessoas do bem e superamigos sem qualquer explicação razoável; a Mulher-Maravilha mantém sua coerência de ser ao mesmo tempo uma mulher decidida e guerreira, mas um pouco ingênua e esperançosa.

O filme é claro, iluminado, sem o abuso de escuridão e sombras que imperaram nos filmes anteriores do universo DC. A história é fechada com inicio, meio e fim bem definidos e finalmente tem uma mensagem de esperança.

Mulher-Maravilha é um típico filme de herói, com uma história bem contada, bem amarrada, com uma personagem feminina de força e que fica excelente na tela do cinema.

Que venha a Liga da Justiça!

Filosofia e Cultura Pop: uma análise dos filmes de Batman

A filosofia normalmente é considerada por alguns como algo antigo, afastado das discussões atuais e eminentemente acadêmico. Contudo, nada pode estar mais longe da realidade.

Leitores de quadrinhos ou amantes de filmes sabem que inúmeras obras são recheadas de discussões filosóficas ou possuem as mesmas como premissas em seus roteiros. Por trás dos efeitos de personagens da cultura pop e vilões megalomaníacos, podemos iniciar vários debates e nos aprofundar em análises a respeito do conceito de poder, necessidade de controle, visão niilista do mundo, ética do dever, o valor absoluto da verdade etc..

Vou dar exemplos. O filme Matrix discute a noção de impossibilidade de garantia da realidade percebida por nossos sentidos que vem da filosofia do cogito de Descartes, além de abordar temas mais recentes como a idéia de que nossa realidade seja uma simulação de computador. O filme Inception (A Origem) tem como base a  filosofia de Berkeley de que tudo o que existe de real são nossos sentidos, não existindo distinção entre o imaginado, o vivido e o sonho. Os quadrinhos de Watchmen vão tratar desde da noção de controle e do risco das decisões de nossas vidas serem entregues nas mãos de uma minoria detentora do Poder na sociedade até o valor intrínseco da verdade quando a mentira é mais útil para salvar mais vidas humanas, caindo em cheio na discussão sobre deontologia kantiana e o utilitarismo de Stuart Mill (clique nos links para uma discussão dos temas aqui no blog).

Na última década, os filmes retratando meu personagem favorito – Batman – mergulharam também em vários conceitos da filosofia e da psicanálise para construção de seus roteiros.

Selecionei 04 vídeos do canal Wisecrack (youtube) que abordam tudo o que discutimos acima dentro da perspectiva dos filmes Batman Begins, O cavaleiro das Trevas, O Cavaleiro das Trevas Ressurge (chamados de Trilogia Nolan) e Batman vs Superman (que já analisamos aqui).

Fica a dica de rever os filmes com olhos mais filosóficos.

 

Crítica de cinema: Logan

Cinema e super-heróis: combo que não deixo passar. Aliás, já escrevi sobre os melhores filmes do gênero neste post.

Neste momento, ainda estou impressionado positivamente com o filme Logan, o último solo de Wolverine.  Sai da sala com a sensação de ter assistido o melhor filme já produzido do gênero de super-heróis.  

Ao contrário das produções juvenis típicas desse tipo de franquia, Logan é uma reflexão sobre o envelhecimento, sobre paternidade indesejada e mesmo sobre cuidados com pais doentes. 

O filme mostra um lado mais realista e sofrido do personagem: desiludido, amargurado, com o peso de ser cuidador de um idoso doente e ele também sofrendo de uma doença progressiva que o faz questionar a possibilidade de suicídio. Como muitos de nós, Wolverine tenta encontrar sua válvula de escape seja no abuso de bebidas alcoólicas ou no sonho do veleiro.

É uma obra de ação de super-héroi, misturado com referências de antigos westerns do ex-pistoleiro aposentado que é obrigado a encarar uma última rodada de violência, um road-movie de aproximação após desavenças paternas e drama. E adicionado com isso vem um roteiro repleto de ação mostrando o carcajú em sua fúria total como nunca mostrado nos outros filmes da série X-Men.

Poderiam ter feito isso nos filmes anteriores de Wolverine… mas finalmente acertaram o alvo em cheio na parte final.