O paradoxo de Epicuro e o problema da existência do  mal 

O chamado paradoxo de Epicuro é um dilema sobre a existência do mal  atribuído ao filósofo grego Epicuro que argumenta contra a existência de um deus que seja ao mesmo tempo onisciente, onipotente e benevolente. 

O paradoxo ataca a crença das 3 qualidades de Deus nos seguintes termos:

  • 1) Enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é benevolente.
  • 2) Enquanto onipotente e benevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é onisciente.
  • 3) Enquanto onisciente e benevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é onipotente.


A tese nao defendia o ateísmo, mas rejeitava a ideia de uma divindade preocupada com os assuntos humanos.  
Para Epicuro , os deuses não teriam nenhuma afeição especial pelos seres humanos, sequer saberiam de sua existência, servindo apenas como ideais morais dos quais a humanidade poderia tentar aproximar-se.

Apesar de atribuído ao filósofo Epicuro, existem outras referência ao trilema encontradas no filósofo cético Sexto Empírico e no platônico Carnéades.

o tema volta a ser importante na filosofia cristã sendo as teses de Epicuro duramente atacadas por São Tomás de Aquino que as refutava como um erro de percepção do ponto de vista do homem, incapaz de atingir os mistérios divinos por meio da razão, mas unicamente pela fé. 

– Manuel Sanchez 

 

O Blog Opinião Central já tratou do Epicurismo em outros posts. Acesse também nosso post sobre o Epicurismo, veja esse interessante documentário sobre o filósofo apresentado por Allan de Botton,  leia a carta da Felicidade de Epicuro e seu recado sobre a época correta para a filosofia.

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Sêneca e o tempo da vida 

Sêneca e o tempo da vida:
A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. 

Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido.

O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores. Tal como abundantes e régios recursos, quando caem nas mãos de um mau senhor, dissipam-se num momento, enquanto que, por pequenos que sejam, se são confiados a um bom guarda, crescem pelo uso, assim também nossa vida se estende por muito tempo, para aquele que sabe dela bem dispor. 
– Lúcio Sêneca, Filósofo Estoico, 4 a.C. – 65 d.C, Roma. 

Abaixo: “Nero e Seneca”, do escultor espanhol Eduardo Barrón (1858 – 1911)

O encontro de Alexandre, o Grande com o filósofo Diogenes, o cão 

O encontro entre o conquistador Alexandre, o Grande e o filósofo cínico Diogenes, o cão , é contado nas páginas do historiador romano Diogenes laercio, na obra “Vida e Doutrina dos  filósofos ilustres “. O fato é recontado neste desenho animado  (que estranhamente tem um estilo a lá Cavaleiros do Zodíaco).

Alexandre, o Grande saiu da Macedônia em uma onda de conquista militar que o levaria a dominar a Grécia, o Egito, a Ásia Menor e chegar nas fronteiras da Índia.

Alexandre teve como preceptor , em sua adolescência , o filósofo  Aristóteles e ao longo de sua campanha mandou construir cidades e fazer obras de infraestrutura.

Foi dele os planos de mandar construir Alexandria e nela erigir um centro de estudos. Alexandre so permaneceu no local por 6 meses e nao viu a obra ser concluida, tendo seguido com sua campanha militar. Após a sua morte, seu general Ptolomeu assumiu o comando do Egito e manteve os planos de Alexandre. Surgiria a cidade de Alexandria e sua Biblioteca que , na verdade, foi o primeiro centro de pesquisas registrado na Antiguidade com alas dedicadas a pesquisa sobre astronomia, botânica, medicina e onde fazia-se inclusive estudos de anatomia com dissecação de cadáveres – ato proibido na Grécia de então. Muitos creditam os planos de construção da Biblioteca de Alexandria as idéias que o professor Aristóteles colocou na cabeça de seu aluno Alexandre.

Diogenes, o cão,  é considerado o pai da filosofia cínica. Na juventude foi exilado de sua cidade natal e viu o pai ser preso após este – tesoureiro do reino – envolver-se em um esquema de falsificação de moedas. Existem relatos contraditórios que colocam Diogenes como partícipe.

Diogenes passou a viver em Atenas e comportava-se como um mendigo, vivendo de esmolas e doações. Residia dentro de um grande tonel abandonado e ficou conhecido na cidade por ser um antagonista filosófico de Platão e também dos filósofos materialistas, expondo os problemas e incongruências com o corpo filosófico de todas as correntes. Era constantemente menosprezado pelos demais filósofos por sua escolha em viver na pobreza absoluta – real mendicancia – e lhe deram o apelido de cão, por viver de restos.

Diogenes laercio, o historiador, narra que Alexandre o Grande quis conhecer Diogenes, o filósofo cão, após sua conquista de Atenas.

Primeiro Alexandre mandou chamar Diogenes, que se recusou.  Depois Alexandre foi até o tonel onde Residia Diogenes e disse que dependendo da resposta filosófica que Diogenes lhe desse,  ele decidiria o destino de Atenas.

Diogenes não se moveu. Alexandre se colocou na frente do filósofo, na entrada de seu tonel tampando o sol.

Os soldados de Alexandre se assombraram com a falta de respeito e perguntaram se Diogenes sabia com quem ele estava falando.

– Se for um homem mau, nada posso fazer. Se for um homem bom, nada tenho a temer – respondeu Diogenes.

Alexandre disse que daria a Atenas o que ela merecia a partir  da resposta de Diogenes. E permaneceu  parado na entrada do tonel.

– Como senhor dessa terra posso realizar o que desejares. Diga-me Diogenes, qual  seu desejo? Peça qualquer coisa: riquezas , poder… qualquer coisa.

Diogenes olhou o novo conquistador e respondeu:

– Apenas saia da minha frente. Você está atrapalhando o sol.

Para espanto de todos , Alexandre o Grande se retirou e continuou com sua expansão militar.

Atenas foi conquistada. Mas Alexandre deu ordens expressas para que a cidade não fosse pilhada.

Antes de sair de Atenas, relata-se que Alexandre, o Grande teria dito: “Se Alexandre não fosse Alexandre, e não tivesse que viver como Alexandre, gostaria de viver como Diogenes”.

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(Manuel Sanchez, em resumo dos atos narrados por Diogenes laercio. Não sei o nome desse desenho. Alguém conhece e sabe onde encontrar?)

Filósofos da Antiguidade: Anaximandro 


Trecho da obra “Vida e Doutrina dos Filósofos Ilustres” de Diogenes Laercio,  Sec.  III  dC,  sobre a biografia e doutrina dos filósofos da antiga Grécia.

Apesar do próprio Diogenes laercio descrever que se apoiou em obras congêneres para escrever seu livro, a maior parte delas não sobreviveu ao tempo. Assim, a obra de Diogenes é fundamental como registro e depositário de trechos e sistemas filosóficos que se perderam na história do pensamento.

Neste capítulo, o historiador trata de Anaximandro, filósofo que viveu no Sec VII aC. É de se observar que ele menciona que Anaximandro já defendia um sistema com terra esférica tendo inclusive construído um globo terrestre para representar as terras e o mar, além de deduzir que a lua não tinha luz própria apenas refletindo a luz do sol.   

Vamos repetir: Sec. VII aC. Anaximandro foi um dos filósofos ditos naturalistas, o que chamaríamos de uma gênese dos estudos de Física e da natureza e já nesta época descreveu um sistema que tratava da esfericidade do planeta. 

Explicando os Conceitos: O Homem como ser político e o Estado Aristotélico

Aristoteles

Aristóteles nasceu em Estagira (cidade colônia da Macedônia), no séc. IV a.C, tendo sido discípulo de Platão   por 20 anos e, posteriormente, professor na Academia ateniense, considerada a primeira instituição de ensino superior do mundo ocidental.

Após a morte de Platão, foi preterido para ser o novo diretor da Academia e saiu de Atenas.

Foi tutor de Alexandre Magno, que viria a ser um dos maiores conquistadores do mundo antigo e, posteriormente, voltou para a capital do mundo helênico, onde fundou sua própria escola, o Liceu.

É considerado um gênio que abrangeu todos os ramos do conhecimento da época, tendo inclusive fundado novos gêneros de estudo e pesquisa. Seus trabalhos abraçam o direito, política, economia,  ética, lógica, estética, filosofia, zoologia, botânica, astronomia, matemática, metafísica, retórica entre outros.

Sua influência foi tão ampla que, durante séculos, suas conclusões foram consideradas definitivas e incontestáveis, acabando por servir como uma muralha impedindo novas pesquisas.  Infelizmente, apesar de curioso, culto e sistemático, Aristóteles chegou a inúmeras conclusões cientificamente equivocadas; o que aliado a sua imensa autoridade e inexistencia do que a modernidade chamaria de “método científico” , criou uma barreira dificultando a pesquisa e o avanço do conhecimento.

Para este texto, pinçamos especificamente as ideias de Aristóteles relativas ao Estado e ao papel do cidadão, como expressas em suas obras “Política” e “Ética a Nicômaco”.

No livro I de “Politica”, o autor estabelece seu principio de que o homem é um ser político por natureza e assim busca instintivamente o convívio com os demais, juntando-se em comunidades. É uma visão positiva do ser humano, explicando o inicio da sociedade pela necessidade de convívio seja pelas trocas intelectuais, seja pela necessidade de proteção material.

Aristóteles aceita a servidão e a escravidão como naturais, eis que existem homens que naturalmente nasceram para mandar e outros para obedecer. Pode também ser imposta de forma artificial, como nas guerras e conquistas territoriais, sendo este um dado da realidade do mundo.

O autor trata da economia, explicando a origem do escambo entre diferentes sociedades através da produção excessiva de alguns bens e a carência de outros – o que ele chama de economia natural.

Do escambo de distintos bens, surge um sistema comum de trocas: a moeda. Cuida então de explicar as relações comerciais – economia artificial – criticando duramente a usura.

No livro II de “Politica”, Aristóteles faz um painel das formas de governo descritas por outros autores e suas sugestões de arrumação dos estados.

A maior parte do capitulo trata da critica de Aristóteles a  Platão e às ideias de Sócrates, conforme expostas na “República” e nas “Leis” (obras platônicas).

Aristóteles critica como inviáveis as ideias de seu antigo mestre Platão para o comunismo da propriedade e dos bens na cidade (Estado) e afasta completamente a propriedade comum de mulheres e crianças, apontando-a como antinatural e maléfica à cidade; eis que além de serem ideias de dificil aplicação, gerariam o fim do afeto familiar.

 EticaaNicomaco

Defende a propriedade privada, com a existência de uma parcela de bens públicos na cidade, criticando vários autores que defendiam as propriedades apenas coletivas.

Faz uma defesa do controle populacional, devendo-se estabelecer limite para o numero de filhos por casal. Essa ideia remete a Platão e ao controle do Estado sobre a vida intima e negando aos casais o próprio planejamento familiar. Aponta que a melhor maneira de controle seria estabelecer que os filhos supranumerários não teriam direito a qualquer parcela do patrimônio de seus pais. Com tal medida Aristóteles acreditava que os casais teriam menos filhos.

Em sua visão (bastante elitista, diga-se de passagem), o aumento populacional leva à diminuição de riquezas, esta levaria à pobreza generalizada, chegando ao aumento dos índices de cometimento de crimes e à consequente ruína moral e material do Estado. Essa ligação (in)direta entre pobreza e crime, infelizmente, ganharia corpo ao longo dos séculos em diversos outros pensadores.

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No livro III de Politica, Aristóteles começa discutindo o que é ser cidadão. Em sua conclusão, cidadão é uma qualidade do homem apto a participar do poder, havendo distintas regras em cada sociedade a ser analisada. Importante frisar que Aristóteles não cria reinos fictícios para seu estudo. O tempo inteiro o autor está citando exemplos históricos reais e elencando diferentes critérios existentes em cada sociedade da época. Desta forma, fica claro que a formação da sociedade é uma questão de escolha de cada comunidade.

O autor divide claramente a moral do homem em sua vida privada da moral exigida do governante, que deve visar ao bem público, ainda que a custas de interesses de certos setores.

Voltando a defender que o homem  é um animal político, o filósofo estabelece que as cidades surgiram pelo desejo inato dos homens de se associarem e que o fim último das cidades é atingir a felicidade e bem-estar geral.

Esse pensamento é depois aprofundado em “Etica a Nicomaco”. Não só a finalidade do Estado é atingir o bem-estar geral, mas a função das leis é desenvolver o comportamento correto no cidadão, estimulando a virtude.

Podemos apontar que aqui começa o estudo teórico da função das leis em moldar o comportamento dos cidadãos, não apenas no meio social, mas em suas vidas privadas. O Estado determina e impõe à coletividade o que considera o comportamento ideal a ser seguido, proibindo qualquer atitude contrária ao seu entendimento de moral. A virtude é imposta pelo estado pela obediência às leis. Proíbe-se qualquer comportamento do cidadão que seja contrário à virtude, mesmo que este não atinja a esfera de liberdade de outro indíviduo. A virtude deve ser estimulada em si mesma, sendo um valor absoluto por si.

Aristóteles continua com a descrição dos 3 tipos de governo: monarquia, aristocracia e constituição ( = governo das massas). A aplicação degenerada dessas formas de governo seriam a tirania, a oligarquia e a democracia.

O autor aponta críticas para todos os estilos de governo, mas em alguns trechos aparenta uma clara simpatia para os governos do tipo aristocrático.

Aceitando que cada povo e cada época adotará um regime que lhe for mais conveniente (democracia ou aristocracia), respeitando os costumes de cada povo, Aristóteles elenca várias dicas e ensinamentos para manter a ordem e o progresso em cada um dos regimes. Inclusive, sem defendê-la, o autor trata da Tirania e de como mantê-la nos estados que optem por implementá-la. Os estudiosos, em sua maioria, apontam que as explicações de cunho político isentas de perquirições morais iniciou-se com Maquiavel , mas Aristóteles não esteve longe do tema.

Em um trecho interessante, Aristóteles explica que a melhor solução para um regime oligárquico manter seu poder é o de disfarçar-se de regime democrático.

Os oligarcas no poder deveriam ceder parte do poder às massas. Apenas o suficiente, para que não existam pressões populares sobre os cargos realmente importantes do Estado; estes, a serem ocupados apenas pelos membros da elite oligárquica. Por exemplo, o povo em geral poderia ser autorizado a votar, mas os cargos seriam disputados apenas por cidadãos que demonstrassem determinada renda. Outros cargos políticos menos relevantes poderiam ser abertos à ocupação pelos homens do povo, mas sempre vedando o acesso aos postos mais importantes.

InferenciaA ilusão de democracia – de que o poder de decisão estaria em suas mãos – controlaria as pressões do povo que, achando-se responsável pelos rumos do governo, deixaria a verdadeira oligarquia livre para exercer os reais postos de poder no Estado (não necessariamente cargos públicos).

Aristóteles é contra a oligarquia extremada – que retira do povo toda a possibilidade de participação – pois levaria em algum momento às revoluções, guerras e ao fim da própria oligarquia.

A democracia seria possível como forma de governo válida para os rumos da sociedade apenas se houvesse um governo de maioria da classe média. Esta, sendo conservadora e menos radical que a camada mais pobre, não tentaria por fim aos ricos, mantendo a coexistência.

Ataca  as democracias extremadas, lideradas pelos pobres, pois estas levam a rebeliões, perseguições aos mais ricos e por fim a dificuldades na própria esfera de produção de riquezas do Estado. Além disso, uma perseguição exagerada aos ricos realizada por uma democracia radical levaria a contra rebeliões e golpes dos setores ricos perseguidos, colocando fim na própria democracia e levando a um regime tirânico –  o que é pior que a oligarquia.

O filósofo trata do planejamento familiar, negando o direito de livre determinação aos homens e mulheres. Defende que os casamentos deveriam ser realizados entre mulheres de 18 anos e homens de 37 anos, mantendo assim o melhor das capacidades de cada sexo.

Igualmente, afirma que as crianças nascidas defeituosas deveriam ser mortas e que o aborto deve ser permitido quando o feto ainda não apresentasse sinais inequívocos de percepção do mundo externo. Refletindo ideias encontradas em Platão, o discípulo Aristóteles nega às pessoas o direito livre de escolha nos assuntos de procriação, passando tais decisões para o Estado (que tudo sabe e que tudo vê…). Uma análise do pensamento de estruturação do Estado em Platão pode ser encontrado neste post.

Muitos dos pensamentos de Aristóteles ecoam até hoje na estruturação do Estado e nas análises do pensamento político.

  • texto de Manuel Sanchez