O encontro de Alexandre, o Grande com o filósofo Diógenes, o cão 

O encontro entre o conquistador Alexandre, o Grande e o filósofo cínico Diogenes, o cão , é contado nas páginas do historiador romano Diogenes laercio, na obra “Vida e Doutrina dos  filósofos ilustres “. O fato é recontado neste desenho animado  (que estranhamente tem um estilo a lá Cavaleiros do Zodíaco).

Alexandre, o Grande saiu da Macedônia em uma onda de conquista militar que o levaria a dominar a Grécia, o Egito, a Ásia Menor e chegar nas fronteiras da Índia.

Alexandre teve como preceptor , em sua adolescência , o filósofo  Aristóteles e ao longo de sua campanha mandou construir cidades e fazer obras de infraestrutura.

Foi dele os planos de mandar construir Alexandria e nela erigir um centro de estudos. Alexandre so permaneceu no local por 6 meses e nao viu a obra ser concluida, tendo seguido com sua campanha militar. Após a sua morte, seu general Ptolomeu assumiu o comando do Egito e manteve os planos de Alexandre. Surgiria a cidade de Alexandria e sua Biblioteca que , na verdade, foi o primeiro centro de pesquisas registrado na Antiguidade com alas dedicadas a pesquisa sobre astronomia, botânica, medicina e onde fazia-se inclusive estudos de anatomia com dissecação de cadáveres – ato proibido na Grécia de então. Muitos creditam os planos de construção da Biblioteca de Alexandria as idéias que o professor Aristóteles colocou na cabeça de seu aluno Alexandre.

Diogenes, o cão,  é considerado o pai da filosofia cínica. Na juventude foi exilado de sua cidade natal e viu o pai ser preso após este – tesoureiro do reino – envolver-se em um esquema de falsificação de moedas. Existem relatos contraditórios que colocam Diogenes como partícipe.

Diogenes passou a viver em Atenas e comportava-se como um mendigo, vivendo de esmolas e doações. Residia dentro de um grande tonel abandonado e ficou conhecido na cidade por ser um antagonista filosófico de Platão e também dos filósofos materialistas, expondo os problemas e incongruências com o corpo filosófico de todas as correntes. Era constantemente menosprezado pelos demais filósofos por sua escolha em viver na pobreza absoluta – real mendicancia – e lhe deram o apelido de cão, por viver de restos.

Diogenes laercio, o historiador, narra que Alexandre o Grande quis conhecer Diogenes, o filósofo cão, após sua conquista de Atenas.

Primeiro Alexandre mandou chamar Diogenes, que se recusou.  Depois Alexandre foi até o tonel onde Residia Diogenes e disse que dependendo da resposta filosófica que Diogenes lhe desse,  ele decidiria o destino de Atenas.

Diogenes não se moveu. Alexandre se colocou na frente do filósofo, na entrada de seu tonel tampando o sol.

Os soldados de Alexandre se assombraram com a falta de respeito e perguntaram se Diogenes sabia com quem ele estava falando.

– Se for um homem mau, nada posso fazer. Se for um homem bom, nada tenho a temer – respondeu Diogenes.

Alexandre disse que daria a Atenas o que ela merecia a partir  da resposta de Diogenes. E permaneceu  parado na entrada do tonel.

– Como senhor dessa terra posso realizar o que desejares. Diga-me Diogenes, qual  seu desejo? Peça qualquer coisa: riquezas , poder… qualquer coisa.

Diogenes olhou o novo conquistador e respondeu:

– Apenas saia da minha frente. Você está atrapalhando o sol.

Para espanto de todos , Alexandre o Grande se retirou e continuou com sua expansão militar.

Atenas foi conquistada. Mas Alexandre deu ordens expressas para que a cidade não fosse pilhada.

Antes de sair de Atenas, relata-se que Alexandre, o Grande teria dito: “Se Alexandre não fosse Alexandre, e não tivesse que viver como Alexandre, gostaria de viver como Diogenes”.

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(Manuel Sanchez, em resumo dos atos narrados por Diogenes laercio. Não sei o nome desse desenho. Alguém conhece e sabe onde encontrar?)

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Explicando os conceitos: o totalitarismo em Platão

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Platão não demanda grandes apresentações. Filósofo grego do século IV a.C, oriundo de família helênica nobre e rica, discípulo de Sócrates , fundador da renomada Academia, centro de estudos que permaneceu em atuação até os primeiros séculos da era Cristã e cujo nome se tornou sinônimo de local dedicado a estudos avançados.

Ao contrário de diversos outros estudiosos do período, de cuja obra só sabemos através de pequenos trechos sobreviventes e graças a menções feitas em obras de terceiros, o trabalho de Platão chegou razoavelmente completo até nossos tempos.

Seus títulos estruturam-se em diálogos escritos anos após a morte de Sócrates, sentenciado à morte em Atenas. Quase todos colocam seu antigo mestre como o personagem central dos debates.

Tendo em vista que Sócrates não deixou nenhum texto escrito, existe grande celeuma entre os estudiosos na separação de quais seriam as idéias do Sócrates histórico e quais seriam as extrapolações e pensamentos próprios de Platão, ditas através do personagem Sócrates.

Uma grande variedade de temas aparece nos textos platônicos como  ética, o mundo das ideias e seu reflexo no mundo material, a estruturação do Estado e da sociedade, lógica, o papel da educação etc…

Para nossa análise, interessam apenas as idéias de Platão sobre a estrutura do Estado e o papel de subjugação do cidadão, sobretudo expostas nas obras “A República” e “As Leis”. Juntas, essas obras delineiam um estado claramente totalitário.

Apesar de criado no berço do pensamento democrático, verificamos em Platão uma estrutura de pensamento que restringe o exercício do Poder a uns poucos, controla o livre fluxo de idéias, censura os pensamentos dissonantes e controla até mesmo o período fértil de homens e mulheres.

plataoO Estado surge devido à necessidade. Os homens têm suas necessidades e como não é possível que um homem domine todos os conhecimentos necessários à vida e à produção de bens, juntam-se pela conveniência da troca de produtos e serviços.

Para Platão, os cidadãos comuns, artífices e populares não estão preparados para discutir as altas decisões de Estado. Sua participação nas decisões sobre o Estado e a gestão da sociedade são nocivas, uma vez que movidos por paixões demagógicas ou interesses superficiais.

Sua visão é totalmente antidemocrática. Em Platão (pelas palavras colocadas na boca de Sócrates), defende-se a idéia que o povo não tem condições de se autogovernar e que, portanto,  é necessário que o poder seja exercido apenas pelos mais aptos, que irão guiar o restante pelo caminho correto.

Platão idealiza a sociedade dividida em castas. Na ponta da pirâmide social estariam os guardiões da cidade: uma classe de homens talhados para a liderança e para a tomada das decisões importantes da vida social. Para Platão, o filósofo/pensador deveria ser o guardião da cidade e comandar os outros homens. Somente um estudioso teria as condições, o discernimento e a sabedoria necessários para o julgamento justo e condução honesta do Estado. Percebe-se aqui o viés claramente aristocrático do estado platônico.

PlatãoA classe intermediária é a dos soldados\guerreiros. A classe inferior é a do cidadão comum do povo. Cada classe deve se destinar apenas a sua função e não se imiscuir nos assuntos da outra. A possibilidade de mobilidade social é diminuída, quase descartada.

Não por acaso, séculos depois, em plena Idade Média, as idéias platônicas sobre a divisão de poder e a organização da sociedade são retomadas e ressignificadas pela Igreja Cristã. A dogmática cristã medieval colocou a Igreja e seus clérigos no topo da liderança espiritual e da influência política (no papel do Rei Filósofo de Platão); seguidos do apoio da aristocracia como executores da vontade papal e o povo como a choldra restante.

O conceito é novamente ressignificado no marxismo de índole Lenilista e sua necessidade de existência de um grupo seleto de vanguarda que decidirão os rumos da Revolução Socialista e a conduta exigida pelos demais na busca do ideal da sociedade sem classes. Só os Reis Filósofos sabem os caminho, o povo não compreende coisa alguma e precisa ser guiado o tempo inteiro. O pensamento aristocrático encontra inúmeras roupagens na história.

Caberia a classe dos guardiões\filósofos também decidir o que deveria ser ensinado ao povo.

platao-004Lemos na República que Platão menciona Homero e os teatrólogos gregos relacionando trechos que deveriam ser apagados em uma versão editada. Em sua concepção, as obras artísticas poderiam  levar o povo a ter idéias más em relação ao estado e aos seus líderes.

Cabe ao governante decidir o que deve ser ensinado, optando por trechos e histórias edificantes e morais, eliminando assuntos de discórdia e que incentivem ou ilustrem as más paixões.

Assim, sugere que sejam apagados trechos da Iliada que mostrem lutas e discórdia entre os deuses e entre estes e os reis ou que mostrem os grandes reis mentindo ou enganando. Tais trechos não seriam edificantes ao povo. Platão chega a falar que os poetas deveriam ser aconselhados  ou mesmo forçados – se a primeira opção não surtir efeito – a seguir tais ditames.

Estamos falando de censura prévia e de castigos corporais para aqueles que não seguissem as normas estatais. Prenúncio das fogueiras de livros inapropriados, do Códex dos livros proibidos, da censura de material contrário aos interesses do Estado ou da perseguição e prisão de autores que divulguem ideologias dissonantes do poder central.

grecia_maior1Algo interessantíssimo sobre a educação: o ensino deve ser estendido a todos, independente do sexo.

Quando vemos notícias atuais sobre como meninas são atacadas por fundamentalistas porque desejam apenas estudar,  percebe-se que neste ponto Platão estava além de seu tempo. A situação da mulher é vista como algo mais que uma peça de reposição para gerar filhos. Não existe restrição para que as mulheres exerçam cargos de importância na cidade, desde que pertençam à classe dos guardiões dominantes. As crianças deveriam ser educadas de forma lúdica e nunca com violência.

A ideia de restrição aos bens privados e às fortunas individuais é também expressa com todas as letras. Para Platão, a propriedade deveria ser comunitária e nunca privada. O estado ideal  na “República” de Platão é socialista Ninguém deveria possuir mais do que seu semelhante e ataca-se o comércio como uma forma degenerada de contato com estrangeiros – classe também a ser evitada.

Décadas depois, no fim da vida, ao escrever “As Leis”, Platão modificou um pouco seu entendimento, havendo uma aceitação parcial da propriedade privada e da diferença de escalonamento das riquezas entre os homens. Chega ao ponto de defender como aceitável uma diferença entre as riquezas até o limite de05 vezes entre o mais pobre e o mais rico.

ZZ1E54E5D5Se é verdade que as mulheres poderiam ocupar cargos de administração, elas não eram inteiramente livres. Platão está longe de reconhecer a igualdade entre os sexos. As mulheres e as crianças devem ser vistas como um bem comum da cidade. A procriação entre os melhores homens e as melhores mulheres deveria ser estimulada como uma maneira de estimular o desenvolvimento de crianças mais fortes e inteligentes.

É o estímulo da eugenia com todas as letras. O Estado realizaria sorteios para escolher os pares a serem formados para terem as relações sexuais e gerar filhos. Platão defende que tais sorteios sejam discretamente direcionados, de forma que o maior número e as melhores parceiras sejam destinados para os guardiões\filósofos e para os soldados.

Os rebentos nascidos não seriam criados por seus pais, mas por um centro educacional da cidade, criadas por mulheres da cidade e amamentadas por amas de leite comunitárias. Ninguém saberia quem é seu filho e quem é seu pai; o que em sua opinião geraria um maior sentido de união entre todos os cidadãos da cidade.

O Estado controla a todos e determina, inclusive, a idade procriativa de homens e mulheres. As mulheres seriam utilizadas para gerar filhos dos 20 aos 40 anos; os homens até os 55 anos de idade. As pessoas que se unissem e gerassem filhos fora da idade determinada, ou mesmo na idade correta mas sem a autorização do Estado, teriam seus filhos considerados como indesejáveis. Liberdade de escolha de seu parceiro? Não. Liberdade de planejamento familiar? Muito menos. E a criança nascida pertence ao estado.

Enfrentando uma situação de guerra externa, é legitimo que a cidade governada por reis-filósofos se valha do auxilio de cidades que não sejam governadas pelos mesmos padrões de liderança. Neste ponto, Platão se rende ao que seria séculos depois chamado de real politik. Sugere  que se façam alianças com cidades menos sábias numa situação de guerra, entregando-lhes todo o ouro e riquezas do butim retirado da cidade adversária em troca de proteção ou auxílio na guerra.

7abd834cee28b73387d54ea109b965edA desconfiança do “outro”, o controle do “diferente” e rasgos de xenofobia também surgem no livro “As Leis”. O autor defende que o contato com povos estrangeiros e cidadãos de outras cidades deve ser cuidadoso e travado ao mínimo para que não se contamine os ideais da cidade governada pelos reis-filósofos. A entrada de estrangeiros, se possível deve ser proibida.

Os embaixadores da cidade que forem para o estrangeiro deverão passar por uma quarentena quando retornarem, de forma que não espalhem ideias estranhas e nocivas ao corpo social.

Como em quase todos os estados totalitários, o Estado ideal de Platão exerce censura para as idéias que venham de outros locais e que possam ser consideradas subversivas.

Igualmente, em “As Leis”, deve-se criar um grupo ou conselho que vele para que as idéias de justiça e as normas do estado estejam sendo devidamente cumpridas pelos cidadãos. Aqueles que desobedecerem seriam levados para centros de “readequação espiritual”.Se persistirem no erro de não seguir os ditames da sociedade, deveriam ser expulsos da cidade. Uma descrição perfeita de uma polícia de costumes e centros de punição para aqueles que estiverem fora da conduta moral da sociedade, conforme determinado pelo Estado.

Óbvio que Platão não inventou o totalitarismo ou mesmo sociedades fechadas e restritivas da liberdade. Exemplos históricos e no seu entorno geográfico não lhe faltavam. Mas é curioso que o filósofo ateniense tenha deixado para as futuras gerações o primeiro e mais completo manual de como exercer o controle das liberdades individuais e fortalecer o do Estado.    

Sócrates e a Autoconfiança

Por que temos um impulso de seguir passivamente os semelhantes, sem nos afastar do grupo? Por que muitas vezes agimos como um rebanho de ovelhas? Sócrates dedicou-se à reflexão sobre essas questões que relacionam a vida prática e a busca do conhecimento.

Baseava-se na máxima de que temos, como seres humanos, o dever de desenvolver ideias nas quais realmente acreditamos, ao invés de seguir opiniões alheias passivamente. Para ele “a vida sem reflexão não valia a pena ser vivida” e por isso sua história e sua filosofia são um convite ao não conformismo inteligente.

UWASocrates_gobeirneSócrates discordava da máxima de que a maioria tem sempre razão e provou, com sua vida, que somos todos capazes de realizar a transição de ovelhas para seres pensantes, ousando pensar por nós mesmos. 

Sua morte virou um tema mítico nas mãos de seu pupilo Platão. Historiadores colocam em dúvida as razões que levaram de fato à sua condenação à morte, conforme elaboramos no post sobre o julgamento e a morte de Sócrates. A versão relatada por Platão não retrataria exatamente o ocorrido, sendo expurgada das implicações políticas e centrando-se na criação de um mito perseguido.

A título de exercicio intelectivo e para fazer um contraponto à visão positiva e ideal de Sócrates retratada neste vídeo, indico que logo após a sua visualização, o leitor pegue o capítulo 2 de “O Crepúsculo dos Idolos”, do filósofo Nietzsche (O Problema Sócrates), que  por sua vez tinha uma visão extremamente hostil ao pensamento socrático com busca de autoconhecimento negando as pulsões da vida, vislumbrando um mundo racional que para Nietzsche é irreal.

Fato é que as idéias deste homem dividiram a história do pensamento ocidental e seus desdobramentos são discutidos até hoje.  

 

A vida e obra de  Sêneca (resumo com animação)

Um dos filósofos da antiguidade mais interessantes em minha opinião foi Sêneca. 

Através de seus livros e cartas sobre o pensamento da escola estóica, Sêneca nos advertia sobre os riscos da ira, da falta de autocontrole e dos excessos de uma vida levada sem reflexão. 

Sua filosofia fincava-se em atitudes práticas, analisando qual deveriam ser nossas reações e atitudes frente às adversidades e dificuldades da vida.

O paradoxo de Epicuro e o problema da existência do  mal 

O chamado paradoxo de Epicuro é um dilema sobre a existência do mal  atribuído ao filósofo grego Epicuro que argumenta contra a existência de um deus que seja ao mesmo tempo onisciente, onipotente e benevolente. 

O paradoxo ataca a crença das 3 qualidades de Deus nos seguintes termos:

  • 1) Enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é benevolente.
  • 2) Enquanto onipotente e benevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é onisciente.
  • 3) Enquanto onisciente e benevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é onipotente.


A tese nao defendia o ateísmo, mas rejeitava a ideia de uma divindade preocupada com os assuntos humanos.  
Para Epicuro , os deuses não teriam nenhuma afeição especial pelos seres humanos, sequer saberiam de sua existência, servindo apenas como ideais morais dos quais a humanidade poderia tentar aproximar-se.

Apesar de atribuído ao filósofo Epicuro, existem outras referência ao trilema encontradas no filósofo cético Sexto Empírico e no platônico Carnéades.

o tema volta a ser importante na filosofia cristã sendo as teses de Epicuro duramente atacadas por São Tomás de Aquino que as refutava como um erro de percepção do ponto de vista do homem, incapaz de atingir os mistérios divinos por meio da razão, mas unicamente pela fé. 

– Manuel Sanchez 

 

O Blog Opinião Central já tratou do Epicurismo em outros posts. Acesse também nosso post sobre o Epicurismo, veja esse interessante documentário sobre o filósofo apresentado por Allan de Botton,  leia a carta da Felicidade de Epicuro e seu recado sobre a época correta para a filosofia.