Iniciação em Filosofia – bons livros para começar

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Você já se interessou em ler algum livro de filosofia? Mergulhar nas perguntas existenciais e nos pensamentos dos homens que moldaram para o bem e para o mal as ideologias humanas? Conseguiu passar das primeiras páginas enfrentando o jargão obscuro e as ideias fora do senso comum?

Se você respondeu que sim e começou da mesma forma atrapalhada que eu – um leigo curioso que adora livros –  partiu direto para ler o texto puro dos autores clássicos.

Obviamente, sem nenhuma base, preparação, noção de enquadramento histórico ou a menor suspeita de qual foi a base familiar, religiosa e social que cercou tais pensadores, o resultado provavelmente foi de desânimo com o resultado alcançado. Excelentes livros acabaram sendo encostados em algum canto, esquecidos por anos.

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Sem uma base anterior, é insuportável ler qualquer distinção kantiana entre mundo numênico e mundo fenomênico, aguentar os arroubos de racismo de Nietzsche, a misoginia de Schopenhauer ou mesmo admirar-se com o pragmatismo de Maquiavel.

É necessário um enquadramento histórico para passar pelo  pensamento antidemocrático de Platão (que muitos apontam como as origens do totalitarismo ideológico)  ou a defesa oligárquica feita por Aristóteles. Caso contrário, a  vontade será a de arremessar o livro pela janela.

Mas tem muita coisa interessante quando aprendemos a separar o pensamento central das obras de todas as arestas históricas e contingências do individuo.

Ler os textos puros, sem intermediários é ótimo.

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Mas o primeiro passo é procurar um bom guia nos momentos iniciais. Não existe vergonha alguma em começar com ajuda.

Longe de esgotarem o assunto, servem como professores para os passos iniciais.

Após as leituras dos manuais, indico a leitura dos autores per si.

Claro que nada substitui a leitura do texto original e a análise pessoal dos pensamentos filosóficos expostos e resumidos a seguir. Minha lista de indicações para começar a leitura das obras per si pode ser acessada nos links da série  “Depois dos manuais: obras filosóficas, psicológicas e sociológicas para curiosos” (parte 1, parte 2,  parte 3 e parte 4 por enquanto…). 

Nosso blog está repleto de posts e documentários sobre os grandes nomes da filosofia.

Boas leituras e comente sempre que possível!

 

81tYVDo7ugLI) História da Filosofia Ocidental

e História do Pensamento Ocidental

– ambos de Bertrand Russel

O autor é um dos guias espirituais desse blog e já foi abordado em detalhes em um post anterior.

Indico os dois livros de Bertrand Russel que confundem pelos títulos parecidos. 

Em “História da Filosofia Ocidental”, Russel trata das origens da filosofia e de sua evolução histórica narrando a biografia, o contexto social  em que viveram os filósofos estudados e dissecando as principais obras que moldaram  o pensamento ocidental.

O livro é apresentado em ordem cronológica para facilitar o entendimento. Cada capítulo pode ser lido pelo leitor iniciante e também pelo mais especializado, já que o texto segue em uma ordem crescente de aprofundamento.

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O segundo livro, “História do Pensamento Ocidental”, começa contando sobre o background histórico e cultural da Grécia pré-socrática para seguir divagando sobre os inúmeros conceitos filosóficos de Sócrates, Platão e Aristóteles.

Os capítulos seguintes  desaguam na filosofia medieval, com explicações sobre os conceitos definidores da Escolástica, passa ao período do Ilumismo e alcança a filosofia contemporânea do inicio do séc. XX.

O livro é focado mais nas escolas e vigas de sustentação do pensamento filosófico e não se preocupa com um estudo individual de cada pensador.

Juntas, as duas obras de Bertrand Russel se complementam e tem material de estudo para iniciantes e iniciados.

 

II) Uma Breve História da Filosofia –  autor: Nigel Warburton

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É o livro que eu queria ler há muitos anos e não sabia. Básico e direto.

São as aulas de filosofia que deveriam ser ensinadas no colégio.

O livro é estruturado em 40 capitulos que trazem, em ordem cronológica, as ideias centrais dos principais filósofos ocidentais desde Sócrates, Platão e Aristóteles até os dias atuais.

A cada capitulo somos apresentados ao autor e a um resumo de sua época e circunstâncias históricas.

Escrito em linguagem clara, sem enrolação, fazendo uma ponte com as ideias que se repetem ou são desenvolvidas séculos depois da semente inicial; o livro traz o entendimento do desenvolvimento e das rusgas e batalhas do campo do pensamento.

 

III) Justiça – autor: Michael Sandel

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O autor é professor de Harvard e seu livro é na verdade um curso disputado que ministra na universidade.

O livro tem um formato diferente e se preocupa em analisar não os filósofos per si, mas sim as grandes linhas de pensamento filosófico com suas questões básicas e sempre trazendo exemplos e questões morais dos nossos dias demonstrando que o embate diário é repleto de questões éticas e morais: aborto, suicidio, capitaismo e livre mercado, eleições livres…. o autor consegue mostrar todos os ângulos filosóficos existentes por trás desses temas tormentosos.

A obra mostra que as divisões, lutas e rusgas da filosofia estão por trás da maneira de ver o mundo e que estas influenciam a política e por fim as normas jurídicas que nos regem.

Divide-se em três grandes linhas de análise: o pensamento libertário, a filosofia utilitarista e o pensamento kantiano.

A partir dessas linhas mestras o professor começa a explicar não só as origens, mas as consequências e desdobramentos de cada uma dessas vertentes filosóficas em assuntos atuais como aborto, casamento gay, suicídio assistido, livre mercado, exploração sexual, legalização da prostituição, combate ao crime, descriminalização de drogas, privatização de serviços médicos, bônus para professores, cotas raciais etc…

Uma leitura ótima e que traz a filosofia para o noticiário do dia a dia.

Mais do que isso, um livro inteligente que faz pensar e nos coloca em contato com perguntas que muitos preferem ignorar.

 

IV) As consolações da Filosofia – autor: Alain de Botton

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Este não é exatamente um manual, já que o livro não trata da evolução do pensamento filosófico e nem deseja estruturar o corpo de conhecimento em escolas. Mas acredito que é válido constar nessa lista porque traz a filosofia para perto dos problemas do nosso dia a dia, propondo formas de encararmos a vida e atingirmos o autoconhecimento. E para mim, esse é objetivo máximo socrático: conhecer a si mesmo, fazer as escolhas adequadas e viver com essa responsabilidade. 

Nesta obra, o escritor traz grandes inadequações que qualquer ser humano já teve na vida e nos brinda com a biografia e com os pensamentos de seis grandes filósofos e de como eles abordaram ou encararam os problemas: Sócrates, Epicuro, Sêneca, Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche.

De certa forma, o livro abrange em saltos históricos vários dos principais pontos da filosofia aplicados à nossa vida cotidiana, tratando da impopularidade, dificuldades financeiras, o controle da ira, a inadequação intelectual, a dor de um coração partido e a luta nas adversidades.

 

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V) A Vida que Vale a Pena ser Vivida – Clóvis de Barros Filho

Neste livro, o autor discorre sobre a busca do ser humano sobre os elementos que dão valor e sentido à nossa vida.

Nessa missão, a cada capítulo,  percorremos as idéias platônicas, o pensamento de Aristóteles sobre as virtudes, a escola estóica, os utilitaristas ingleses, a filosofia de Espinoza, Kant entre outros.

Como resultado, acabamos por perceber que a humanidade busca sentido e valoriza conceitos e estilos muito diferentes, às vezes antagônicas e que no fim não existem fórmulas prontas em nenhum manual.

Cabe apenas a nós próprios fazer as escolhas e viver com elas, com seus bônus e ônus; dores e delicias. Gostei muito desse livro.

 

 

VI) A Filosofia explica as grandes questões da Humanidade – Clóvis de Barros Filho

Nesta obra bem curta e didática, o autor apresenta os rudimentos das indagações filosóficas, sendo um excelente livro para quem deseja começar a entrar no mundo da filosofia. Cada capítulo é dedicado a uma das grandes questões que rondam a cabeça do homem: de onde vem o pensamento, se existe uma razão para nossa existência, se existe algo como uma essência humana, como criamos nossa identidade, a busca da felicidade, as exigências do dever etc…

Ao longo do livro são salpicados conceitos e muitos exemplos, de forma bem leve e desconstraida, sendo sugerido uma lista de livros e autores para aqueles que desejarem mergulhar nos estudos.

 

VII) Aprender a Viver – Luc Ferry

Delicioso manual de filosofia com linguagem simples e direta que se propõe a explicar os paradigmas filosóficos que moldaram o mundo clássico, a Idade Média, a Modernidade e o mundo contemporâneo.

Em cada capítulo o autor nos esclarece os pontos cruciais do pensamento de cada época e como eles proporcionaram a visão filosófica com a qual identificamos os diferentes momentos históricos.

Acredito que é um manual tão bom que deveria ser lido na base de qualquer estudo sobre filosofia. Um dos melhores manuais para iniciantes que tem no mercado, na minha opinião. 

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Depois dos manuais: Filosofia, Psicologia e Sociologia para curiosos – parte III

 

 

Sem maiores delongas, continuamos em nossa viagem pelos textos dos autores que fizeram minha cabeça e que indico para os amigos leitores (e leigos) que tenham a curiosidade que eu tive após a leitura dos manuais básicos sobre filosofia.

As partes anteriores da lista podem ser acessadas a seguir: parte I (Nietzsche, Freud e Maquiavel) e parte II (Marco Aurélio, Sêneca e Platão). 

 

 

 

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Zygmunt Bauman:

obras: Modernidade Liquida, Vida para Consumo, Identidade, O mal estar da pós-modernidade

Bauman é sinônimo da sociologia do fim do sec XX e inicio do sec XXI, com uma imensa quantidade de livros publicados que abordam quase todos os matizes das ansiedades e esperanças da vida moderna em sociedade.

Ele possui dezenas de livros publicados e os indicados acima são um recorte pessoal.  Seus livros tratam desde a busca por identidade em meio a conflitos étnicos até o consumismo desenfreado, a sociedade de espetáculo que se estupidifica cada vez mais aceleradamente e o individualismo crônico que nos domina.

O autor também foi abordado em outras postagens do blog com entrevistas e resumo de suas obras.  

 

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obra: O Homem e seus Símbolos

Discípulo de Freud, Jung rompeu com o mestre e criou a primeira escola independente dos pensamentos freudianos.

Tornando-se o maior crítico da linha de análise freudiana, Jung  possuía um entendimento completamente distinto de Freud em relação ao inconsciente e sua força sobre a psiquê, o papel dos sonhos, dos traumas e dos desejos.

O livro indicado é um verdadeiro resumo escrito por Jung e seus discípulos sobre sua linha de interpretação.

A originalidade do pensamento Junguiano e sua oposição à linha Freudiana já foram tratados em passagens anteriores do Blog aos quais remetemos o leitor. 

 

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obras: Pensamentos, Carta sobre a felicidade

Epicuro de Samos foi um filósofo do período helenístico que defendia os prazeres da vida.

Ao contrário do hedonismo irrefletido que hoje associamos ao vocábulo “prazer”, para Epicuro os prazeres a serem perseguidos eram os valores da amizade verdadeira, da vida simples e sem excessos de consumo, aversão à ostentação, necessidade de possuir uma vida consciente e refletida, realizando uma análise pessoal dos nossos atos e defeitos, visando sempre  o comedimento e o controle das paixões.  

Prazer, portanto, era a ausência de dor e a impertubabilidade da alma. Dessa forma, foram bastante injustos os ataques de hedonismo que a escola estóica fazia ao pensamento epicurista. 

Epicuro escreveu muito, mas poucos textos sobreviveram ao tempo existindo algumas coleções com seus adágios e trechos de cartas. São normas de conduta para a vida prática e para a paz de espírito.

Um documentário sobre seus pensamentos pode ser visto aqui.

 

Segue para a parte IV com dicas de Kant, Marx e Sartre

Depois dos manuais: Filosofia, Psicologia e Sociologia para curiosos – parte II

Continuamos com a lista de livros indicados para os leigos e curiosos que se interessem em ler as obras dos autores, sem intermediários.

A primeira parte do rol pode ser encontrada aqui: Depois dos Manuais – Parte I com dicas de livros de Nitzsche, Freud e Maquiavel.  

A lista dos manuais para iniciantes pode ser encontrada neste link.

 

 

 

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Marco Aurélio:

obra: Meditações

O Imperador romano Marco Aurélio também era um homem de livros e escreveu um tratado com aforismos e pensamentos que compilam um resumo sobre as principais idéias e pensamentos da escola estóica.

Seus pensamentos retratam um panorama de reflexões sobre a  moral, o senso de dever, a busca pelo autoconhecimento e a necessidade de retidão de caráter, tão caro aos membros da escola estóica de filosofia. 

São máximas e aforismos para a aplicação prática, no dia a dia dos indivíduos.

 

 

senecaSêneca:

obras: Da tranquilidade da alma, Sobre a brevidade da vida, A Vida retirada

Suas epístolas são reflexões sobre a vida, o papel do homem na construção de sua própria felicidade ou de suas amarguras, a necessidade de autocontrole e da criação de resiliência para ultrapassar as dificuldades que a vida nos impõe de inopino.

Sêneca foi um representante da escola estóica e sua preocupação era com o viver do homem digno, reto e cumpridor dos seus deveres com a familia e com a sociedade. Tratava da busca individual da felicidade mas inserida em uma vida pautada pela honra. São cartas e exortações sobre sabedoria prática.

O pensamento e a vida de Sêneca já foi tratado pelo blog neste documentário e as linhas do pensamento estóico elaboradas neste post.

 

 

 

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Sócrates e Platão

obras: A República, Apologia de Sócrates, Fredo, Fédon, O Banquete

Sócrates foi condenado pelo Tribunal de Atenas e não deixou nada escrito. Todos os seus ensinamentos e reflexões nos chegaram pela pena de Platão, seu mais famoso discípulo.

Assim, quando lemos as obras platônicas temos contato com o pensamento socrático após o filtro da análise de Platão, feito ao longo de décadas de aulas e reflexões.

É um tanto tormentoso saber o que é o pensamento original socrático e o que já vem das reflexões de Platão, que escreveu até a velhice.

Platão escreveu suas obras basicamente no formato de longos diálogos. São obras seminais sobre a estruturação do estado, da discussão sobre justiça, sobre ética e moral e mesmo sobre os destinos da alma, uma vez que a escola platônica seguia os ensinamentos reencarnacionistas da escola Pitagórica. 

Normalmente os diálogos apresentam o filósofo Sócrates em debate discutindo conceitos e desconstruindo as idéias preconcebidas de seus interlocutores. Em sua maioria, os diálogos terminam sem uma conclusão sobre o tema. O estilo pouco usual para os dias modernos exige paciência e treino para avançar pelos diálogos e aceitar que o final da conversa é normalmente  chegar-se à conclusão de que a dúvida é efetivamente a única postura válida e que todos os conceitos anteriores são falsos ou incompletos. 

SOCRATES FRASE

É de leitura mandatória, independentemente de como o leitor se posiciona sobre as reflexões socráticas/platônicas  que direcionam o estado para o controle da cultura, da censura e do totalitarismo; ou sobre o método socrático de destruição de certezas sem estruturar qualquer novo raciocínio em seu lugar ou ainda sobre suas divagações entre a oposição entre o mundo das idéias e o mundo dos fatos. 

Todas as discussões filosóficas, morais ou sobre a estruturação do estado, começam a se estruturar em sua forma moderna nas palavras de Sócrates.

Não à toa, sua vida divide a história da filosofia em pré e pós-socrática, sendo que milhares e milhares e milhares de páginas foram escritas após sua vida para difundir, ampliar, rebater, estigmatizar, refutar ou glorificar suas idéias. O filósofo Alfred North Whitehead, com um pouco de exagero e uma pitada de verdade, disse uma vez que “toda a história da filosofia ocidental, resume-se a uma série de notas de rodapé à obra de Platão”

Acompanhe também no Blog  explicações sobre o mito da caverna e um documentário sobre o princípio da autoconfiança socrática.

 

Siga para a parte III

Depois dos manuais: Filosofia, Psicologia e Sociologia para curiosos – parte I

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Desde que o Blog Opinião Central postou a matéria  “Iniciação em Filosofia” com dicas de manuais para o leitor curioso e iniciante,  venho recebendo emails e comentários requerendo sugestões de outros livros para seguir com a leitura, após o esgotamento da fase dos manuais e resumos indicados.

De fato, por melhor que seja o autor do manual de iniciação em sua explicação pedagógica, nada substitui a leitura per si das obras estudadas.

Às vezes, essa leitura torna-se de difícil compreensão. Mas nesta primeira parte das indicações de livros, coloquei obras de leitura fácil ou média, passando longe daqueles calhamaços de vocábulos nebulosos. Não sou profissional da área e nem tenho paciência para divagações técnicas.  Deixemos isso para quem é do ramo. Aqui, vale o aprofundamento do pensamento mas dentro das nossas limitações de leigo curioso.

Toda lista revela muito dos gostos particulares de quem a produz, expondo mais em suas omissões do que em suas escolhas. Essa não é diferente. Coloco aqui os MEUS autores e livros preferidos.  Tenho certeza que o amigo leitor que tenha chegado até aqui com sua lista pessoal na cabeça encontrará pontos para criticar ou acrescentar.

Acredito que as obras de filosofia, psicologia e sociologia devem ter um significado para a compreensão dos nossos dilemas e aspirações mundanas, do dia a dia. Sabedoria prática. Um mergulho na busca da melhor forma de levar a vida. Não sou fã de perplexidades metafísicas e de pouco apelo prático nas divagações de lógica pura.  Então saiba que essa lista traz esse viés impregnado em suas escolhas. 

Boas leituras!

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Friedrich Nietzsche

obras indicadas: Crepúsculo dos Idolos, Gaia Ciência, Humano Demasiado Humano, Para Além do Bem e do Mal, O Anticristo, Assim Falava Zaratustra, Aurora e Vontade de Potência.

Essas são as minhas preferências nos livros de Nietzsche que, por sua vez, é o filósofo que trovejou inaugurando o mundo contemporâneo.

Em suas obras, ele aborda sempre de forma muito crítica e sem rodeios a decadência da moral vigente, os costumes carcomidos, a postura servil da humanidade e imagina o potencial que um homem verdadeiramente dono de si poderia atingir não estivesse preso por seus próprios medos e pelos grilhões do peso da cultura e dos hábitos da sociedade.

Profundamente radical em suas opiniões, sem fazer nenhuma questão de composição com os pensamentos contrários, Nietzsche não apresenta qualquer respeito pelos mais fracos, pobres, simples ou tímidos. Sua linha é anticlerical, oligárquica, pairando acima dos gostos populares e das massas. Há que se ter cuidado com certos radicalismos, mas sem dúvida abrem a mente.  

Seu conceito da morte de Deus é a antesala do pensamento contemporâneo que estruturou o mundo baseado  no desenvolvimento tecnológico esmagador, nas guerras de alcance planetário, no sistema de produção e consumo em massa onde a reflexão perdeu a primazia e os valores do passado não nos servem mais. 

O filósofo já foi abordado no site em documentários e diversos posts explicando seus conceitos básicos do eterno retorno, amor fati e super-homem. 

 

 

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Sigmund Freud:

obras: O futuro de uma ilusão, O mal estar da civilização, Psicologia das massas e análise do eu, Compêndio da Psicanálise e Totem e Tabu.

A linha de pensamento freudiana pode ter sido superada por outras formas de compreensão e abordagem psicoanalítica (junguiana, lacaniana etc) e muitos de seus postulados foram colocados em xeque ou de fato abandonados (ex: a inveja feminina do pênis, a repressão sexual como fonte das neuroses etc), mas ler a obra de Freud continua fundamental como ponto de partida para muitos conceitos.

freud_by_kab3on-d38elrmFreud era um homem que não tinha receio de defender idéias novas e nem um pouco convencionais e seus insights foram a semente para a criação de uma ciência completamente nova na análise do inconsciente.

O “Futuro de uma Ilusão” continua sendo o melhor livro sobre a necessidade religiosa do ser humano, remontando sua origem no medo do vazio, na sobreposição e imitação da sociedade patriarcal.

“O Mal Estar da Civilização” trata das forças da morte, da vida e do sexo pulsando no ser humano e levando-nos aos atos mais sublimes das Artes e aos mais abjetos da violência.

Em “Psicologia das massas e análise do eu”, Freud aborda a identidade individual sendo moldada pela sociedade, o poder da propaganda no inconsciente das massas  e o poder da multidão no comportamento do indivíduo. Por fim, Compendio da Psicanálise, obra incompleta de Freud, traz um resumo de todo o seu pensamento e conceitos chaves.

O blog aborda Freud repetidamente e muitos posts podem ser encontrados aqui sobre sua vida e suas idéias.

 

 

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Nicolau Maquiavel:

obra: O Principe

Considerado o primeiro livro do ocidente escrito sobre a política real e seus artífices, sem sublimações de um mundo utópico ou de um dever-ser tão em voga na República de Platão ou na Utopia de Thomas Morus. Maquiavel trata do mundo real e não do ideal. 

O livro aborda o mundo politico e o poder sem qualquer sentimento de moral religiosa. Sua preocupação única é explicar os jogos da força política e como atingir e manter o poder. Trata-se do livro inaugural da ciência política moderna. Também é uma fonte de estudo da moral consequencialista pragmática.

Já abordamos Maquiavel e sua real politik neste documentário  e também neste post com seus aforismos.

 

 

Continue na parte 2

Iniciação em Filosofia – bons livros para começar

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Você já se interessou em ler algum livro de filosofia? Mergulhar nas perguntas existenciais e nos pensamentos dos homens que moldaram para o bem e para o mal as ideologias humanas? Conseguiu passar das primeiras páginas enfrentando o jargão obscuro e as ideias fora do senso comum?

Se você respondeu que sim e começou da mesma forma atrapalhada que eu – um leigo curioso que adora livros –  partiu direto para ler o texto puro dos autores clássicos.

Obviamente, sem nenhuma base, preparação, noção de enquadramento histórico ou a menor suspeita de qual foi a base familiar, religiosa e social que cercou tais pensadores, o resultado provavelmente foi de desânimo com o resultado alcançado. Excelentes livros acabaram sendo encostados em algum canto, esquecidos por anos.

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Sem uma base anterior, é insuportável ler qualquer distinção kantiana entre mundo numênico e mundo fenomênico, aguentar os arroubos de racismo de Nietzsche, a misoginia de Schopenhauer ou mesmo admirar-se com o pragmatismo de Maquiavel.

É necessário um enquadramento histórico para passar pelo  pensamento antidemocrático de Platão (que muitos apontam como as origens do totalitarismo ideológico)  ou a defesa oligárquica feita por Aristóteles. Caso contrário, a  vontade será a de arremessar o livro pela janela.

Mas tem muita coisa interessante quando aprendemos a separar o pensamento central das obras de todas as arestas históricas e contingências do individuo.

Ler os textos puros, sem intermediários é ótimo.

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Mas o primeiro passo é procurar um bom guia nos momentos iniciais. Não existe vergonha alguma em começar com ajuda.

Longe de esgotarem o assunto, servem como professores para os passos iniciais.

Após as leituras dos manuais, indico a leitura dos autores per si.

Claro que nada substitui a leitura do texto original e a análise pessoal dos pensamentos filosóficos expostos e resumidos a seguir. Minha lista de indicações para começar a leitura das obras per si pode ser acessada nos links da série  “Depois dos manuais: obras filosóficas, psicológicas e sociológicas para curiosos” (parte 1, parte 2,  parte 3 e parte 4 por enquanto…). 

Nosso blog está repleto de posts e documentários sobre os grandes nomes da filosofia.

Boas leituras e comente sempre que possível!

 

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e História do Pensamento Ocidental

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O autor é um dos guias espirituais desse blog e já foi abordado em detalhes em um post anterior.

Indico os dois livros de Bertrand Russel que confundem pelos títulos parecidos. 

Em “História da Filosofia Ocidental”, Russel trata das origens da filosofia e de sua evolução histórica narrando a biografia, o contexto social  em que viveram os filósofos estudados e dissecando as principais obras que moldaram  o pensamento ocidental.

O livro é apresentado em ordem cronológica para facilitar o entendimento. Cada capítulo pode ser lido pelo leitor iniciante e também pelo mais especializado, já que o texto segue em uma ordem crescente de aprofundamento.

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O segundo livro, “História do Pensamento Ocidental”, começa contando sobre o background histórico e cultural da Grécia pré-socrática para seguir divagando sobre os inúmeros conceitos filosóficos de Sócrates, Platão e Aristóteles.

Os capítulos seguintes  desaguam na filosofia medieval, com explicações sobre os conceitos definidores da Escolástica, passa ao período do Ilumismo e alcança a filosofia contemporânea do inicio do séc. XX.

O livro é focado mais nas escolas e vigas de sustentação do pensamento filosófico e não se preocupa com um estudo individual de cada pensador.

Juntas, as duas obras de Bertrand Russel se complementam e tem material de estudo para iniciantes e iniciados.

 

 

Uma Breve História da Filosofia –  autor: Nigel Warburton

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É o livro que eu queria ler há muitos anos e não sabia. Básico e direto.

São as aulas de filosofia que deveriam ser ensinadas no colégio.

O livro é estruturado em 40 capitulos que trazem, em ordem cronológica, as ideias centrais dos principais filósofos ocidentais desde Sócrates, Platão e Aristóteles até os dias atuais.

A cada capitulo somos apresentados ao autor e a um resumo de sua época e circunstâncias históricas.

Escrito em linguagem clara, sem enrolação, fazendo uma ponte com as ideias que se repetem ou são desenvolvidas séculos depois da semente inicial; o livro traz o entendimento do desenvolvimento e das rusgas e batalhas do campo do pensamento.

 

 

Justiça – autor: Michael Sandel

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O autor é professor de Harvard e seu livro é na verdade um curso disputado que ministra na universidade.

O livro tem um formato diferente e se preocupa em analisar não os filósofos per si, mas sim as grandes linhas de pensamento filosófico com suas questões básicas e sempre trazendo exemplos e questões morais dos nossos dias demonstrando que o embate diário é repleto de questões éticas e morais: aborto, suicidio, capitaismo e livre mercado, eleições livres…. o autor consegue mostrar todos os ângulos filosóficos existentes por trás desses temas tormentosos.

A obra mostra que as divisões, lutas e rusgas da filosofia estão por trás da maneira de ver o mundo e que estas influenciam a política e por fim as normas jurídicas que nos regem.

Divide-se em três grandes linhas de análise: o pensamento libertário, a filosofia utilitarista e o pensamento kantiano.

A partir dessas linhas mestras o professor começa a explicar não só as origens, mas as consequências e desdobramentos de cada uma dessas vertentes filosóficas em assuntos atuais como aborto, casamento gay, suicídio assistido, livre mercado, exploração sexual, legalização da prostituição, combate ao crime, descriminalização de drogas, privatização de serviços médicos, bônus para professores, cotas raciais etc…

Uma leitura ótima e que traz a filosofia para o noticiário do dia a dia.

Mais do que isso, um livro inteligente que faz pensar e nos coloca em contato com perguntas que muitos preferem ignorar.

 

As consolações da Filosofia – autor: Alain de Botton

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Este não é exatamente um manual, já que o livro não trata da evolução do pensamento filosófico e nem deseja estruturar o corpo de conhecimento em escolas. Mas acredito que é válido constar nessa lista porque traz a filosofia para perto dos problemas do nosso dia a dia, propondo formas de encararmos a vida e atingirmos o autoconhecimento. E para mim, esse é objetivo máximo socrático: conhecer a si mesmo, fazer as escolhas adequadas e viver com essa responsabilidade. 

Nesta obra, o escritor traz grandes inadequações que qualquer ser humano já teve na vida e nos brinda com a biografia e com os pensamentos de seis grandes filósofos e de como eles abordaram ou encararam os problemas: Sócrates, Epicuro, Sêneca, Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche.

De certa forma, o livro abrange em saltos históricos vários dos principais pontos da filosofia aplicados à nossa vida cotidiana, tratando da impopularidade, dificuldades financeiras, o controle da ira, a inadequação intelectual, a dor de um coração partido e a luta nas adversidades.

 

 

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A Vida que Vale a Pena ser Vivida – Clóvis de Barros Filho

Neste livro, o autor discorre sobre a busca do ser humano sobre os elementos que dão valor e sentido à nossa vida.

Nessa missão, a cada capítulo,  percorremos as idéias platônicas, o pensamento de Aristóteles sobre as virtudes, a escola estóica, os utilitaristas ingleses, a filosofia de Espinoza, Kant entre outros.

Como resultado, acabamos por perceber que a humanidade busca sentido e valoriza conceitos e estilos muito diferentes, às vezes antagônicas e que no fim não existem fórmulas prontas em nenhum manual.

Cabe apenas a nós próprios fazer as escolhas e viver com elas, com seus bônus e ônus; dores e delicias. Gostei muito desse livro.

 

 

A Filosofia explica as grandes questões da Humanidade – Clóvis de Barros Filho

Nesta obra bem curta e didática, o autor apresenta os rudimentos das indagações filosóficas, sendo um excelente livro para quem deseja começar a entrar no mundo da filosofia. Cada capítulo é dedicado a uma das grandes questões que rondam a cabeça do homem: de onde vem o pensamento, se existe uma razão para nossa existência, se existe algo como uma essência humana, como criamos nossa identidade, a busca da felicidade, as exigências do dever etc…

Ao longo do livro são salpicados conceitos e muitos exemplos, de forma bem leve e desconstraida, sendo sugerido uma lista de livros e autores para aqueles que desejarem mergulhar nos estudos.

 

 

Aprender a Viver – Luc Ferry

Delicioso manual de filosofia com linguagem simples e direta que se propõe a explicar os paradigmas filosóficos que moldaram o mundo clássico, a Idade Média, a Modernidade e o mundo contemporâneo.

Em cada capítulo o autor nos esclarece os pontos cruciais do pensamento de cada época e como eles proporcionaram a visão filosófica com a qual identificamos os diferentes momentos históricos.

Acredito que é um manual tão bom que deveria ser lido na base de qualquer estudo sobre filosofia. Um dos melhores manuais para iniciantes que tem no mercado, na minha opinião.