Explicando os Conceitos: O Eterno Retorno em Nietzsche

ouroboros-1760-granger

O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terá de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.

– Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”.

Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela”

– Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência, 341

 

índice

Para inaugurar a seção “Explicando os Conceitos”, proponho a chave do eterno retorno exposta em diversas passagens da obra do filósofo Friedrich Nietzsche.

O conceito do eterno retorno é central na obra de Nietzsche. Trata-se de um um rigoroso critério de avaliação da própria vida.

Através do eterno retorno, o filósofo pergunta se  vida que você tem hoje é a vida que você quer viver. O conceito passa longe de qualquer interpretação metafísica e também não tem qualquer relação com a repetição da rotina ou a  passagem do tempo de forma cíclica e outras interpretações enviesadas que encontra-se em alguns textos.

O eterno retorno é uma régua de avaliação individual para a vida que você leva neste momento: agora. 

Nietzsche é um filósofo vitalista preocupado com a vida que se leva na completa imanência – neste mundo, o único possível –  sem qualquer tipo de muleta metafísica ou transcendental. Assim, seu critério de avaliação da vida só pode ser feito aqui, neste momento.  O emprego que você tem, o relacionamento em que você está, o tipo de vida que você leva…. se eles voltassem e voltassem e voltassem, você seria feliz? E se a resposta for negativa, o que te impede de mudar? A felicidade deve ser buscada e batalhada na criação de uma vida que se deseje que retorne, a cada dia, a cada momento, que pode ser repetir  sempre.

A régua de avaliação do eterno retorno é individual. Não se trata aqui de um conceito de autoajuda; não se fala de regras de condutas a serem copiadas e imitadas por todos. Cada um, por si e na mais desolada solidão, deve enxergar em seus gostos e inclinações aquilo que o deixa feliz e satisfeito. E colocá-los de maneira integral em sua vida.  E assim entendemos a pergunta do demônio de Nietzsche:  se essa vida que você tem agora tivesse que repetir de novo e de novo e de novo, você ajoelharia e rangeria os dentes ou responderia que nunca ouviu coisa mais linda?

– Manuel Sanchez

Anúncios

Filosofia nos Quadrinhos: Lúcifer, Estrela da Manhã

lucife11zr4

 Lúcifer, estrela da manhã é um personagem de quadrinhos do selo Vertigo e para mim a melhor versão já retratada em qualquer mídia. Inicialmente, ele surge idealizado por Neil Gaiman como um personagem secundário nas páginas da aclamada série de quadrinhos Sandman; e depois é detalhado e expandido por Mike Carey em título próprio, utilizando-se de todos os mitos judaicos e cristãos sobre os anjos e suas batalhas, não deixando de mencionar as histórias de cunho místico que não se vinculam a nenhuma das religiões principais.

Sim, Lúcifer é a história atual do personagem mencionado no Gênesis bíblico.

Mas pouco tem a ver com a imagem de uma criatura suja, feia, maldosa, mentirosa, envolvida com a perversidade e desejosa de criar pequenas maldades ao ser humano.

O personagem dos quadrinhos tem mais semelhanças com o Lúcifer de “Paraíso Perdido” de John Milton: uma figura bela, que exala liderança, apaixonada, soberba, ciente de sua força e de sua inteligência. Uma alma nobre, atormentada, de natureza aristocrática e dotado de um código de honra que segue à risca. O Lúcifer de John Milton e dos quadrinhos do selo Vertigo tem esse ar de desprezo pela fraqueza, de pouco caso com os que aceitam a obediência. Desprezo pela moral dos fracos, dos que ficam à espera de um mundo melhor no por vir.

475px-Paradise_Lost_1 478px-Paradise_Lost_2

475px-Paradise_Lost_4476px-Paradise_Lost_3

Preferido do Criador, o Portador da Luz é um ser amargurado por se sentir traído por Deus ao descobrir que uma eternidade de serviços prestados será ignorada em prol de uma nova raça criada pelo Senhor: os homens. Claramente inferiores aos Anjos, sem sua beleza, inteligência e força, mas que receberão o maior presente de Deus – negado aos Anjos – o livre arbítrio.

Em sua fúria ao ter todo seu amor e serviço não valorizados e em ter negado o direito ao livre arbítrio, Lúcifer articula uma rebelião nos Céus, sendo por fim derrotado por Miguel Arcanjo.

Paradise_Lost_12 482px-Paradise_Lost_11

483px-Paradise_Lost_6 483px-Paradise_Lost_8

483px-Paradise_Lost_6Derrotado, jogado ao Inferno com sua hoste de seguidores, Lúcifer por fim transforma a derrota em conquista, declarando aos seus seguidores o direito de tomar suas próprias decisões, seguirem seus desejos, reinando a seu modo.

“É melhor reinar no Inferno do que servir no Paraíso”; ou seja, é melhor criar a sua própria identidade e traçar o próprio destino – mesmo que difícil e espinhoso – do que seguir ordens, aceitar um papel estabelecido pela sociedade (mesmo que divina) e negar a própria individualidade.

Esta frase de Lúcifer ao ser remetido ao Inferno é a afirmação da individualidade; a confirmação da modernidade. A assunção do “Eu posso”.

É deste personagem Miltoniano – e não do bíblico – que Neil Gaiman bebe para contar a história de Lúcifer, quando o mesmo percebe que NÃO, ele ainda não tem seu livre arbítrio. Que seu reinado individual no Inferno é falso.

lucifer16Afinal, as almas humanas condenadas são todas destinadas ao Inferno por ordem de Deus, sem qualquer interferência de Lúcifer que continua sem poder decidir quem fica ou não em seus domínios.

Finalmente percebe que o Inferno é apenas mais um dos reinos de Deus, sendo ele – Lúcifer – apenas um gerente em nome do Criador para cuidar de um canto destinado aos sofrimentos impostos pela Ordem Divina.

É Deus quem decide as regras de salvação ou condenação da alma e quem envia ao Inferno ou perdoa os atos. O julgamento das ações humanas é sempre de Deus, nunca de Lúcifer. Este apenas recebe as almas mandadas por uma Ordem Superior.

A identidade que Lúcifer orgulhosamente acreditava ter criado para si mesmo era falsa, imposta de fora, determinada por Deus, uma vez que seu reino continuava submetido às decisões tomadas nos Céus.

Lúcifer percebeu que estava sendo enganado. Ele não reinava. Obedecia. Ele não era livre, mas mantinha seus vínculos de vassalagem com o Todo Poderoso.

Finalmente lhe ocorre que toda sua vida, seus serviços, a Rebelião, a administração do Inferno – TUDO – já havia sido predestinado por Deus em seu Reino, retratado sempre como uma sociedade hierarquizada, de papéis definidos, onde não é permitida a decisão livre e espontânea.

lucifer01Na obra de Neil Gaiman “Sandman, Estação das Brumas”, parte da vasta coleção do personagem Sandman, temos o primeiro contato com o  personagem Lucifer.  Nesse livro, o autor  leva a busca pelo livre arbítrio de Lúcifer ao extremo, quando ele abandona as chaves do Inferno, corta suas asas e ruma para a Terra, abrindo um piano bar e vivendo entre os humanos.

Simplesmente uma mudança de paradigma total que inicia uma saga contando as histórias de Lucifer vivendo entre os humanos e as criaturas sobrenaturais que andam pela Terra.

É esse personagem livre e sem vínculos, aristocrático, gentil e vaidoso, vivendo entre os humanos e dono de um piano bar chamado “Lux” – em Los Angeles (óbvio!) – frequentado por místicos, bruxos e demônios que o escritor Mike Carey conduzirá em uma série própria que durou 75 números.

A série de quadrinhos é filosófica. Discute a questão do livre-arbítrio e da predestinação, a criação da identidade, a ansiedade da responsabilidade pelas próprias decisões e pela criação do próprio destino em um mundo que está sempre em mudança; onde a noção de hierarquia está deteriorada e não existem mais papéis fixos.

De certa forma, o personagem Lúcifer está até o pescoço envolvido com todos os assuntos que sociólogos como Zygmunt Bauman retratam na atual modernidade líquida.

Ao contrário da noção bíblica, Lúcifer nunca mente. Ele deseja, articula, persegue… mas nunca mente. Esta é a base da moralidade do personagem, que persegue o mote de nunca mentir como um verdadeiro imperativo categórico Kantiano.

Lucifer_Liege_Luc_ViatourAr aristocrático, mente nobre, gosto refinado, ele expõe claramente o que deseja deixando aos terceiros que o encontram a decisão de se unirem ou não a ele – e enfrentarem as consequências de suas PRÓPRIAS decisões, falsidades e mentiras.

Lúcifer se vê como uma criatura que refuta as noções de bem e mal pré-estabelecidas seja por Deus, pelos demais anjos ou pelos homens. A idéia de que sua identidade foi forjada na polifonia dos simbolos e signos do mundo exterior destrói sua alma. Ele quer forjar seu caminho.

Compaixão não está em seu vocabulário. O personagem é praticamente um seguidor não declarado da filosofia de Friedrich Nietzsche. Existem seres destinados para a grandeza e outros destinados a servir; sempre existirão ovelhas que preferem seguir um pastor a tomar suas próprias decisões. E usar de suas mentes fracas para alcançar objetivos superiores não é um problema.

Ou seja, além do deleite dos quadrinhos, o argumento e diálogos são perfeitos para discussões filosóficas e comparações entre autores variados.

As aventuras de Lúcifer o colocam rumo ao seu grande desejo: a criação de um Universo próprio, em paralelo e mesmo em oposição ao universo de Yahweh, o Deus judaico cristão, seu pai. A concepção psicanalitica freudiana da oposição entre pai e filho permeia toda a obra

Tais manobras o colocam em rumo de colisão com diversas entidades místicas, deuses mortos de sociedades antigas e claro, com as hostes de anjos que enfrentou no passado da Rebelião original. Ao longo de 75 números, Lúcifer visita seus antigos domínios, passa pelas representações dos Infernos da mitologia oriental, até chegar à sua antiga moradia na Cidade dos Anjos e ter sua conversa definitiva com Deus.

Uma obra de fôlego impressionante que vai sendo contada em um crescendo. Mike Carey domina a arte do clímax literário.

Sandman - Estação das brumasNão é um quadrinho para ler fora de ordem.É uma novela mesmo. E das boas.

A quem interessar, tem que começar com a obra do Sandman “Estação das Brumas” (que se situa ali pelo meio da série de Sandman) e depois partir para o título solo de “Lúcifer”, com os 75 números na ordem. Tudo tem ligação na saga e referências entre diálogos dos primeiro números com acontecimentos da parte final são abundantes.

Um personagem atormentado de dúvidas, mas que não permite que elas o travem. Ao contrário, estas o impelem sempre a agir, atuar e criar. Nietzsche em estado bruto. Não tenho como esconder minha preferência. É a melhor série de quadrinhos já produzida.

A loucura do Trono, Nietzsche

12027809_541613742683764_5325343799446351474_n

“Ao trono, querem todos, subir: é essa a sua loucura.

Como se no trono estivesse sentada a felicidade!

Muitas vezes, é o lodo que está no trono e, muitas vezes, também o trono no lodo.”

Nietzsche (Assim Falou Zaratustra)

Grandes Frases, Grandes Livros: Nietzsche (Gaia Ciência, Para Além do Bem e do Mal)

nietzsche

“É verdade que Deus está em toda parte?”, perguntou uma garotinha à sua mãe; “não acho isso descente” — um sinal para os filósofos! deveríamos respeitar mais o “pudor” com que a natureza se escondeu por trás de enigmas e de coloridas incertezas. Talvez a verdade seja uma mulher que tem razões para não deixar ver suas razões? Talvez o seu nome, para falar grego, seja Baubo? Oh, esses gregos! Eles entendiam do “viver”! Para isso é necessário permanecer valentemente na superfície, na dobra, na pele, adorar a aparência, acreditar em formas, em tons, em palavras, em todo o Olimpo da aparência! Esses gregos eram superficiais — por profundidade!

Friedrich Wilhelm Nietzsche ,

A Gaia Ciência

11891253_515586125286526_4156165992304454131_n

Um filósofo é um homem que constantemente experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha coisas extraordinárias, um homem em que se chocam suas próprias ideias como se viessem de fora, do alto ou de baixo, como acontecimentos a ele somente reservados e que lhe ferem com a força do raio; talvez ele mesmo seja uma tempestade cheia de raios, um homem fatal, ao redor do qual estrondam, zumbem, rasgam-se e acontecem coisas tenebrosas.

Friedrich Wilhelm Nietzsche ,

Para Além do Bem e do Mal.