Grandes frases grandes livros: notas de um velho safado

Eu sabia que tinha alguma coisa de errado comigo, mas eu não me considerava insano.

Era simplesmente que eu não conseguia compreender como é que outras pessoas tornavam-se tão facilmente irritadas, para em seguida com a mesma facilidade esquecer a sua ira e se tornarem alegres, e como é que eles podiam ser tão interessados por tudo, quando tudo era tão chato.

– Bukowski

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Bukowski: sobre os meus dias atuais 

“Ás vezes, a gente acha que atingiu o fundo do terror, desiste, e mesmo assim não morre.”

“Eu precisava urgentemente de uma bebida. Era sábado à noite, a cidade inteira estava bêbada.”

– Notas de um velho safado, Bukowski

Sócrates: meditação ao sol 

Uma vez que se pôs a meditar e ficou em pé, no mesmo lugar, desde a madrugada, como se não encontrasse solução para o que pensava, não desistiu, mas continuou imóvel, absorvido pela reflexão.

Veio o meio-dia, e os soldados o observavam. E diziam uns aos outros, pasmados, que Sócrates desde a alvorada se conservava naquela posição, pensando.

Enfim, uns jônios, já era pelo entardecer e todos haviam jantado, arrastaram para fora suas esteiras, para dormir ao relento, pois era verão, e também para observar se Sócrates passaria ali imóvel a noite inteira.

Pois ali permaneceu, naquela mesma posição, até a aurora e o nascer do Sol; e então fez sua prece a Hélio, e se foi.

— Platão, em O Banquete – elogio de Sócrates, proferido por Alcebíades

Dostoievski: na vida é preciso ter atitude 

Há momentos em que sinto tal tristeza, tal espanto… 

Nesses momentos chega a parecer-me e até começo a acredita-lo, que já não poderei iniciar nenhuma vida nova, pois já por mais de uma vez tive a impressão de que perdia todo o sentimento e toda a sensibilidade para tudo quanto é realidade e vida verdadeira; porque eu me amaldiçoei a mim mesmo; porque às minhas noites fantásticas se seguem momentos de prostração que são terríveis. E para além de tudo isto acabamos por sentir que as massas humanas se agitam à nossa volta em ruidoso tropel, ouvimos e vemos como vivem as criaturas: o que se chama viver, viver de verdade e acordado, e chegamos a verificar que a nossa vida não obedece à nossa vontade, que a nossa vida não se deixa moldar como um sonho, que eternamente se renova e fica eternamente jovem, e nela nenhuma hora é igual à que se segue, enquanto a horrível fantasia, essa nossa força de imaginação, acaba por ficar desconsolada e suscetível, e monótona ate à vulgaridade, escrava das primeiras nuvenzinhas que de repente cobrem o sol e oprimem numa dor amarga o nosso coração que tanto ama esse mesmo sol. E até na própria dor, que fantasia! 

Sentimos que, por fim, essa mesma fantasia que parece inesgotável, há de esgotar-se na sua eterna tensão, pois nos vamos tornando mais viris e amadurecidos, e superamos os nossos antigos ideais, que se desvanecem e se reduzem a palavras e a pó. E se depois não houver outra vida, temos de nos pôr a reunir os restos desse entulho para com eles voltarmos a refazê-la. E contudo a nossa alma reclama e anseia por alguma coisa completamente diferente. E em vão o sonhador remexe nos seus antigos sonhos, como se ainda procurasse no rescaldo uma centelha, uma só, por pequena que fosse, sobre a qual pudesse soprar, e com a nova chama assim ateada aquecer o coração enregelado e voltar a despertar nele o que dantes lhe era tão querido, o que comovia a nossa alma e nos arrebatava o sangue, aquilo que fazia subir as lágrimas aos nossos olhos e que era uma ilusão tão bela.

Fiódor Dostoiévski em: Noites Brancas.