Sabedoria de Hamlet 

“Acima de tudo sê fiel a ti mesmo, Disso se segue, como a noite ao dia, Que não podes ser falso com ninguém”. (Cena III, ato I)

Nada em si é bom ou mau; tudo depende daquilo que pensamos.” (Cena II, Ato II)

Aquilo que prometemos no calor da paixão, acalmada a paixão, é por nós abandonado.”(Cena II, Ato II)

A todos, teu ouvido; a voz, a poucos; ouve opiniões, mas forma juízo próprio.” (Cena III, Ato I)

“O hábito, esse demônio que devora todos os sentimentos” (Ato III, Cena IV)

“Preciso ser cruel para ser bom” (Ato III, Cena IV)

“Se tem de ser já, não será depois; se não for depois, é que vai ser agora; se não for agora, é que poderá ser mais tarde. O principal é estarmos preparados, umas vez que ninguém sabe o que deixa”(Ato V, cena II)

“O resto é Silêncio” (Cena II, Ato V)

Shakespeare,  Hamlet

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Sócrates: meditação ao sol 

Uma vez que se pôs a meditar e ficou em pé, no mesmo lugar, desde a madrugada, como se não encontrasse solução para o que pensava, não desistiu, mas continuou imóvel, absorvido pela reflexão.

Veio o meio-dia, e os soldados o observavam. E diziam uns aos outros, pasmados, que Sócrates desde a alvorada se conservava naquela posição, pensando.

Enfim, uns jônios, já era pelo entardecer e todos haviam jantado, arrastaram para fora suas esteiras, para dormir ao relento, pois era verão, e também para observar se Sócrates passaria ali imóvel a noite inteira.

Pois ali permaneceu, naquela mesma posição, até a aurora e o nascer do Sol; e então fez sua prece a Hélio, e se foi.

— Platão, em O Banquete – elogio de Sócrates, proferido por Alcebíades

Grandes Frases, Grandes Livros: A Insustentável Leveza do Ser

 

‘A Insustentável Leveza do Ser”  é um livro de Milan Kundera que ainda me deixa pensando e pensando por horas em suas frases e pensamentos. Todas as frases selecionadas abaixo são retiradas deste livro profundamente influenciado pela filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre. A obra também já foi levada aos cinemas.

A história inicia-se em 1968, em Praga e atravessa décadas acompanhando os amores, angústias, traições e desamores de quatro personagens contextualizando-os em  um pano de fundo de forte ebulição política com perguntas filosóficas sobre o sentido da vida, a busca do amor, as carências afetivas,  as necessidades do sexo,  o papel do acaso e da força de nossas decisões na formação de compromissos e na estruturação de uma vida dedicada ao prazer pessoal ou às exigências do cuidado com o outro.

A cada leitura, em momentos diferentes da minha vida, encontro novas interpretações.

Recomendo sempre.

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Milan Kundera – A Insustentável Leveza do Ser

“Os amores são como impérios: desaparecendo a idéia sobre a qual foram construídos, morrem junto com ela.”

“O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (pois isso se aplica a todas as mulheres) e sim pelo desejo o sono compartilhado (isso se aplica a uma só mulher).”

“As metáforas são muito perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora.”

“O sono compartilhado é o corpo de delito do amor.”

“Nesse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente perdido.”

“Eu a desejava como se desejam todas as coisas perdidas para sempre.”

“O amor começa por uma metáfora. Ou melhor: o amor começa no instante em que uma mulher se inscreve com uma palavra poética em nossa memória poética.”

 “No começo do Gênese está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e outros animais. É claro Gênese foi escrito por um homem e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo. O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo unânime, mesmo durante as guerras mais sangrentas.”

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“São precisamente as perguntas para as quais não existem respostas que marcam os limites das possibilidades humanas e traçam as fronteiras da nossa existência”.

“Antes de sermos esquecidos,seremos transformados em kitsch.O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.”

“Se pode com razão, criticar o homem por ser cego a esses acasos, privando a vida da sua dimensão de beleza.”

“Aquilo que não é consequência de uma escolha não pode ser considerado nem mérito nem fracasso”

“Mesmo nossa própria dor não é tão pesada como a dor co-sentida com outro, pelo outro, no lugar do outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos”

“Sentiu um peso, mas não era o peso do fardo e sim da insustentável leveza do ser”

“O mito do eterno retorno nos diz por antecipação que nós só vivemos uma vez, e sem repetições, portanto, nunca poderemos comparar uma situação com outra.”

“Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida, já é a própria vida.”

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“Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada sobre um tronco, acariciando a cabeça Karenin, e pensando no desvio da humanidade. Ao mesmo tempo, surge para mim uma outra imagem: Nietzsche esta saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços. Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, e justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes. Sua loucura (portanto seu divorcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo. E este Nietzsche que amo, da mesma forma que amo Tereza, acariciando em seus joelhos a cabeça de um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho no qual a humanidade, “senhora e proprietária da natureza”, prossegue sua marcha para a frente.”

“Aquilo que o “eu ” tem de único se esconde exatamente naquilo que o ser humano tem de inimaginável. Só podemos imaginar aquilo que é identico em todos os seres humanos, aquilo que lhes é comum . O “eu” individual é aquilo que se distingue do geral, portanto aquilo que não se deixa adivinhar nem calcular antecipadamente, aquilo que precisa ser desvelado, descoberto e conquistado do outro.”

“A vida humana acontece só uma vez, e não poderemos jamais verificar qual seria a boa ou a má decisão, porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez. Não nos são dadas uma primeira, segunda, terceira ou quarta chance para que possamos comparar decisões diferentes”

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“A história é tão leve quanto a vida do indivíduo, insustentavelmente leve, leve como uma pluma, como uma poeira que voa como uma coisa que vai desaparecer amanhã”

“Nunca somos nós mesmos quando há platéia.”

“Mas era justamente o fraco que devia ser forte e partir quando o forte fosse fraco demais para poder ofender o fraco.”

“Tinha uma vontade terrível de lhe dizer como as mais comuns das mulheres: não me deixe, guarde-me perto de você, escravize-me, seja forte! Mas eram palavras que não podia e não sabia pronunciar.”

“Para ele, a música é libertadora: ela o liberta da solidão e da clausura, da poeira das bibliotecas, e lhe abre no corpo as portas por onde a alma pode sair para confraternizar.”

“A nossa vida não é como um rascunho, a gente não pode simplesmente amassar o papel e começar tudo novamente.”

“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo “esboço” não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.”

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“Torturava-se com recriminações, mas terminou por se convencer de que era no fundo normal que não soubesse o que queria: nunca se pode saber aquilo que se deve querer pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores.”

“Nunca se poderá determinar com certeza em que medida nosso relacionamento com o outro é o resultado de nossos sentimentos, de nosso amor, de nosso não-amor, de nossa complacência, ou de nosso ódio, e em que medida ele é determinado de saída pelas relações de força entre os indivíduos. A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade ( o mais radical, num nível tão profundo que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. É aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras.”

Sobre a filosofia de um leão 

Não se sente sob a macieira com ninguém além de mim
escolher sabiamente é meio caminho andado na estrada para a vitória;

a outra metade é conquistada pela indiferença.

por um lado você pode dizer qualquer coisa que quiser;

por outro lado você não tem que dizer.

de alguma forma consegui fazer as duas coisas.

então qualquer problema que você tiver comigo 

é seu.

– Bukowski, em À toa em San Pedro

Walden: sobre sonhos 

” A medida que simplificar a sua vida, as leis do universo hão de lhe parecer menos complexas, e a solidão não será mais solidão, nem a pobreza será pobreza, nem a fraqueza, fraqueza.

Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão vosso trabalho; eles estão onde deviam estar. Agora colocai os alicerces por baixo”.

Henry David Thoreau, “Walden”