Explicando os conceitos: A existência precede a essência (Sartre)

Para o filósofo Jean Paul Sartre, apenas no ser humano a existência precede a essência, o que constitui toda a angústia e a liberdade do homem.

Imagine uma faca, ou uma roda ou um veículo ou uma empresa química. Esses objetos, máquinas e construções da técnica humana foram idealizados antes de serem efetivamente construídos. Digamos, sua essência pré existia a sua efetivação no mundo físico. A idéia veio antes do corpo físico. A função veio antes da sua construção.  Portanto, a Essência precede a existência.

No caso dos demais seres vivos, desde a samambaia até a onça pintada, todos eles nascem equipados com os instintos e reflexos necessários para a sobrevivência no seu meio. A evolução natural capacitou vegetais, insetos e animais existentes para todos os atos de crescimento, sociabilidade, reprodução, caça ou fuga. Já vem inscrito no instinto. Eles possuem isso no seu software que vem de fabrica insculpido no cérebro ao nascerem. Toda tartaruga marinha vai agir igual. Assim como todo pombo migratório. Nenhum animal desses vai decidir agir como um tatu bola ou sair de sua rota de migração planetária inscrita no seu DNA para de repente largar o grupo e ser ermitão no Himalaia. Podemos ensinar muitos truques a um cachorro mas há um limite possivel pela sua espécie. Um cachorro pode aprender a farejar drogas quando estimulado por petiscos em caso de sucesso, mas nem o cão mais inteligente conseguirá compor uma sinfonia ou calcular matematicamente a órbita de um foguete. 

Não é possível porque isso não está inscrito no seu instinto e eles não são equipados para agir fora de um estrito limite de possibilidades. Nesses seres, a essência também precede a existência.

Para Sartre,  isso não ocorre no ser humano. Não existe uma essência humana que nos coagiria pelo instinto e programação básica a sempre agir de determinada forma. 

Obviamente somos animais inseridos na ordem natural e temos instintos que nos indicam no software de nosso cérebro como lutar , fugir , acasalar e nos dão um instinto gregário. Mas o ser humano não é limitado por eles. Não há uma essência pré programada que nos defina e limite.

O ser humano sai de sua rota migratória e pode decidir ir viver como um ermitão no Himalaia se assim decidir. O ser humano pode decidir usar drogas por toda vida. Assim como pode aprender truques não apenas porque é chantageado com alimento, mas decidir por si próprio aprender a compor sinfonias ou calcular a matemática necessária para construir foguetes. 

Se temos instintos de acasalamento, há quem decida manter-se virgem por valores religiosos. E existem aqueles criados em estruturas gregárias e sociais estritamente asfixiantes e religiosas, mas que quebram o padrão familiar de gerações e decidem ser hippies ou cair na farra. Há quem tenha sido criado com valores simples mas decidiu romper com isso e ser executivo do setor de operações em bolsas de valores para ficar milionário. 

Não somos limitados por nossos instintos. Não existem valores pré ordenados eternos que condicionam nossa vida. 

Ou como diz o lema do existencialismo Sartreano “A existência precede a essência” .

Primeiro nascemos e depois vamos aprendendo a viver. Nosso software instalado no cérebro nos capacita para muita coisa mas não nos define. 

Nascemos em determinada cultura, somos preenchidos com certos valores desde a infância e orientados para agir da forma X,y ou z. Pode ser que ao longo da vida nós concordemos e reforcemos esses valores. Mas também podemos discordar e mudar de vida, valores e mesmo negar o corpo social no qual estamos inseridos. 

E isso ocorre porque não existe essência humana. Nem valores absolutos na espécie humana ou uma maneira única e certa de viver a vida. Não existe essência que antecede a existência humana.

Os valores são construídos por nós após a existência e ao longo da socialização. Decidimos no dia a dia com quais valores vamos aderir e de quais vamos nos afastar. E podemos refletir e alterar de opinião ao longo do caminho.

E fazemos isso individualmente e também como coletividade. O ser humano já aceitou na história recente  que negros eram inferiores e poderiam ser escravizados, que mulheres não tinham o direito de ocupar o espaço público, que homossexuais não tinham direito de ver reconhecidos direitos familiares e sucessórios básicos, que crianças poderiam ser objeto de violência com o objetivo de educação, que grupos raciais ou étnicos minoritários poderiam ser exterminados, que o embranquecimento da raça era desejável, que a eugenia era uma finalidade a ser perseguida, que a liberdade de opinião não cabe para todos os grupos, que certas religiões são mais benéficas do que outras e algumas podem ser caladas pela violência  etc etc etc…. 

E infelizmente nós sabemos que muitos dos exemplos citados acima ainda são defendidos por alguns grupos. E essa luta por valores e pela legitimidade do discurso que deságua na forma individual como levamos a nossa própria vida não terá fim. Ocorrerá com cada pessoa que andar sobre esse planeta. E isso ocorre porque no caso dos humanos o instinto não basta. Ele existe mas não dá conta do recado. Não existe essência humana que precede a existência.

E com isso vem a angústia de não termos caminhos pré decididos. Somos eternamente acompanhados pela liberdade de poder escolher e tomar um rumo que pode ser único. Albert Camus dizia que o entendimento dessa situação levava o homem ao que ele definiu como situação de absurdo.

Todos nascemos em determinada posição social e vivemos em um grupo com valores previamente sedimentados antes de nossa chegada. Sartre chama isso de “situação”. E a situação – tanto social quanto historicamente – traz para cada um de nós um rol de possibilidades e limites. Muitas vezes esses limites podem ser tão fortes e arraigados que romper com os mesmos pode levar a uma resposta violenta do grupo social dominante que acarrete o ostracismo, prisão ou morte daquele que tenta impor sua forma de viver. 

Mas a decisão de seguir adiante ou desistir por preguiça ou medo pela própria vida é nossa. E apenas nossa. Como nos alerta Sartre, mesmo na omissão existe decisão. E não vai nisso um julgamento moral mas uma simples constatação.

Valores são construídos historicamente. E individualmente aderimos ou os rechaçamos. Não existe forma correta prévia e absoluta de viver. Essa liberdade é nossa. E essa angústia também.

E assim resume Sartre nos lemas existencialistas : “a existência precede a essência” ou ” não existe essência antes da existência”.

– escrito por Manuel Sanchez 

Sartre e a desumanidade 

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Sartre tem uma postura radical sobre a liberdade humana. Não existindo valores pré determinados, não existindo qualquer essência humana anterior à existência do ser humano, somos aquilo que criamos no dia de um projeto pessoal e em um processo histórico com os demais. (como abordamos na primeira parte da análise).

Críticos do existencialismo sartreano o colocam ombro a ombro com o mais radical dos niilismos. Afinal, dizem, não havendo valores absolutos e anteriores, a postura de cada um de nós descambaria para um egoísmo e individualismo radicais. Se não existem valores corretos, tudo seria válido.

Sartre responde nos advertindo que o ser humano é um processo. Um devir. Que nossa vida é determinada pela liberdade  e que podemos e devemos estabelecer os valores de convivência. E que tais valores podem ser feitos e refeitos em busca da melhor convivência e dignidade. Nascemos em circunstâncias estabelecidas e não escolhidas – a situação – que trazem consigo um escopo diferente de possibilidades para cada um; mas em qualquer situação existe sempre a liberdade de escolher agir, conformar-se ou omitir-se.

Não existem valores humanos pré existentes. Não há desumanidade em estado essencial. O que há são nossas escolhas: pessoais e coletivas. A existência precede a essência. Seremos aquilo que construirmos de nós mesmos.

O existencialismo de Sartre é o humanismo radical. Enquanto o iluminismo projetou a razão como um guia interno e infalível nas rotas da vida, acessível por todos e que nos daria uma visão comum; o existencialismo nega essa primazia pré existente. O que existe são decisões pessoais e coletivas- nem sempre racionais, definitivamente sem o amparo de qualquer tabela de valores metafísicos e firmemente ancorados no processo histórico.

Assim, como não existe um conceito prévio e transcendente de humanidade, também não existe um mal absoluto definido por Deus, pela Alma ou por uma essência de maldade ainda que atingida unicamente pela razão.

Como disse o filósofo, em suas próprias palavras: “As mais atrozes situações de guerra, as piores torturas, não criam um estado de coisas inumano; não há situação inumana; é somente pelo medo, pela fuga e pelo recurso a condutas mágicas que irei determinar o inumano. Mas essa decisão é humana e tenho que assumir total responsabilidade por ela” (Sartre, “o ser e o nada”).

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O Existencialismo de Sartre e o Sentido da Vida

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As correntes tradicionais filosóficas colocam que há uma essência humana, podendo ser acessível através de uma conexão religiosa ou laica. As linhas religiosas entendem como Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino que temos uma essência transcendente acessível pela Alma. Linhas laicas entendem que a Razão nos diferencia do restante dos demais seres e que através dela – razão – também podemos isolar e apontar uma essência humana, algo que nos define e que determina o que é ser um “ser humano”. Ou seja, antes mesmo de existirmos, existe uma essência. Linha, aliás, seguida pela filosofia desde Sócrates e Platão, com o estabelecimento de sua teoria do mundo das Idéias, local acessível apenas pela razão e no qual estariam as verdades essenciais de tudo o que existe no mundo material.   

Em suma: a essência antecede a existência.

Desta forma, haveria uma Essência Humana antes mesmo da evolução histórica das civilizações e a  Humanidade estaria indo em direção a valores mais nobres e mais iluminados, na esperança de um dia igualarmos nosso dia a dia com os valores de tal Essência anteriormente prevista. Existiria um sentido para a Vida, mesmo que não o entendêssemos a principio e nossos dias deveriam perseguir o véu deste sentido para descortiná-lo de alguma forma. Viver seria buscar esse sentido anterior e maior da própria Vida.

Para outros pensadores,  como Jean Paul Sartre essa explicação não convence.

Não haveria nada a ser considerado como uma essência humana a priori, nenhum sentido prévio da Vida que seja passível de ser atingido pela experiência religiosa ou pela razão pura.

Para Sartre, a existência antecede a essência.

Como explicava Sartre em seu opúsculo “O Existencialismo é um Humanismo”  :  

  “(…)… se Deus não existe, há pelo menos um ser, no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significa então que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente é nada. Só depois será, e será tal como a si próprio se fizer.”

Ou seja, a essência humana é sempre a posteriori e criada pelo próprio indivíduo. Somos nós próprios, individualmente, o único elemento responsável por criar e dar significado à nossa própria vida.

sartre existencialismo humanismoOs valores a seguir, a interpretação dos laços afetivos, culturais e históricos que nos ligam e nos separam, todo o longo e amplo espectro de elementos do que chamamos de Vida ganham significado apenas dentro de nós e de acordo com o caminho que decidimos seguir de forma livre e autônoma, sem qualquer Essência anterior a servir de molde.

A Vida seria a rota, nunca o destino.

Mesmo que nos alinhemos a uma fileira de pensamento mais ampla e nascida gerações antes de nosso nascimento, deveríamos fazê-lo de forma livre e apenas após processar de forma crítica se tais formatações e paradigmas estão de acordo com o sentido que NÓS queremos incluir em nossa vida por escolha própria.

Vivemos em um contexto histórico e social preciso e pré-determinado que Sartre denomina “situação”. Assim, vivemos sempre em situação; ou seja, nascemos em um ambiente aleatório, não escolhido por nós e muitas vezes constrangidos por circunstâncias de difícil superação. Mas somos NÓS que decidimos – sempre – como digerir e processar esse ambiente e, por fim, as escolhas que darão sentindo às nossas próprias vidas.

Fazemos isso do ponto de vista individual e também como corpo social. Para o existencialismo Sartreano, o ser humano e a sociedade são processos históricos. Não existe essência anterior. As decisões são nossas e a responsabilidade pela manutenção ou modificação da sociedade como ela é hoje, também.

Os existencialistas colocam a liberdade nas escolhas da Vida como o elemento máximo e inalienável do individuo, algo que nunca poderia ser inteiramente tomado por parte do tecido social, apesar das determinações pré determinadas da situação. O indivíduo, mesmo constrangido por regras, normas e preconceitos sociais,  sempre poderá encontrar algum escopo de escolha e liberdade para inserir-se  ou romper com os valores históricos e culturais do tempo e da sociedade onde vive. A cada situação – de cada tempo e de cada sociedade – caberiam obviamente uma gama de escolhas possíveis.

Para Sartre, seríamos então condenados a escolher sempre: mesmo que fosse escolher a  omissão e aceitação do status quo.  

Mas até onde as forças sociais da cultura onde nascemos se constituem em verdadeiras algemas que nos limitam e retiram a possibilidade de escolha? Até onde podemos criar o sentido de nossa própria vida em contradição com os valores do tecido social sem receber uma carga de ataque que venha a destruir a própria essência do que se tenta viver? O poder de escolha  entendido por Sartre é de fato verdadeiro ou seria a própria escolha uma ilusão?

Esse temas são abordados na segunda parte do post. Uma análise da desumanidade como construção histórica também pode ser encontrada na parte três clicando neste post.