Atividades caseiras 

Nesse mundo cada vez mais chato onde o politicamente correto fica vigiando e censurando até os nossos pensamentos, eu gosto cada vez mais de ficar na minha casa com minhas loucuras, textos  e vícios.  E progressivamente me sinto mais feliz assim.

– Manuel Sanchez

Crônica e Afins: O que você gosta de ouvir

O que você gosta de ouvir

(Manuel Sanchez)

 

Estávamos todos no bar. O bar que junta. Que liberta das palavras do politicamente correto que enojam e castram o espírito. O bar que é muro de proteção dos que insistem em nos salvar para um mundo melhor, mais verde, mais clean e mais puro. O bar que proporciona encontros e conversas. O bar que é templo. Que junta os fiéis dispostos a se conhecerem melhor fora do trabalho. O bar onde casais arriscam. O bar onde amizades são forjadas como espadas samurais. Confessionário. Onde depois da terceira se falam coisas que oprimem a alma. Bar de rua: onde se fuma.

Acendi meu cigarro na bituca do anterior. Ela se aproximou sempre correta, pura e verde,  franzindo o nariz para o meu tabaco e me perguntou com seus olhos de gata charmosa:

– O que você gosta de ouvir?

– Tanta coisa! – eu respondi – Gosto de ouvir minha esposa falando que nesse final de semana não irá trabalhar e que vai ficar em casa comigo.  Gosto de ouvir o barulho das pedras de gelo batendo no meu copo de whiskey. Quando dizem que nosso salário entrou na conta! Gosto de ouvir minha cachorra latindo feliz quando entro em casa. Gosto de ouvir quando dizem que conhecem alguma história saudosa da minha mãe. Gosto de ouvir minha mulher me chamando para namorar. Gosto do som das folhas de um livro. De ouvir risadas. Adoro que me contem piadas. Gosto do silêncio. De ouvir uma oração. Gosto de ouvir uma roda de capoeira. Do som das batidas de um coração. Gosto de ouvir o espaço vazio entre duas batidas de um tambor. Gosto quando dizem que a próxima rodada é por conta. Gosto de ouvir um sim quando na madrugada eu quero.

Ela me olhou com uma cara estranha. Como quem escuta uma língua estrangeira de um povo afastado de uma era antiga de um canto perdido em um continente não mapeado. Não me pareceu mais tão bela.

– O que você gosta de ouvir de música? – ela insistiu, sem charme.

– Ah… sambas antigos.

Ela pediu licença e saiu para conversar com algum amigo.

Tão bela. Mas talvez não tivéssemos nada para ouvir um do outro.

Um dos dois errou de bar naquela noite.

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Crônica “O que você gosta de ouvir”, de Manuel Sanchez

Crônicas e Afins: o que existe em um nome?

O que existe em um nome?

(Manuel Sanchez)


Antes do palácio havia uma Alameda com grama no local. Um dia construíram um prédio alto na avenida. Muitos andares, muitas lâminas. O prédio era uma fortaleza com muros impenetráveis, patrulha militar, requintes de luxo e mármore, servos, aristocracia com salas especiais e tinha até seu próprio calabouço, como convém a todos os palácios.

Colocaram um nome bonito no portão de entrada. Portão com um fosso e vistoria, como convém a todos os palácios.

Colocaram um nome bonito no portão de entrada. Um nome. Um nome pode ser a antinomia do que você faz. Muitos tolos lêem a mensagem no portão e entram acreditando nas suas próprias esperanças. É uma forma de impedir que a realidade exploda. Também é uma ironia e uma maldade.

Existem algumas frestas e rachaduras no palácio de mármore. E enquanto não fecham as rachaduras vou passando pelo portão, pela vistoria do fosso e pelas salas especiais da aristocracia. E já que o nome bonito está estampado no portão eu o uso para tentar alargar as frestas. Às vezes, os donos do palácio se espantam. O que é isso? É um nome, eu respondo. O uso do nome. A aplicação do nome. A materialidade do nome. A encarnação do nome. Existem momentos em que eles riem. Outros em que constrangidos acenam para a imanência de um conceito. E como um feiticeiro conseguimos conjurar o nome.

Mas eu não sou tolo. Eu ando dentro de um Palácio. Seus donos fazem concessões para que a realidade da qual usufruem  não exploda. Seus donos acham que um nome é apenas um nome.

Ou talvez eu seja de fato um tolo. Tentando todo dia conjurar magias. Alargando rachaduras. Na esperança de materializar um nome: Justiça.

Crônicas e Afins: Catatau, o sábio

Crônica “Catatau, o sábio”

(de Manuel Sanchez)

 

Catatau tinha 1,20m e era o menor menino na sua sala. Menino quieto, tranquilo, aprumado com seus mangás e videogames, lia um livro por semana. Seu avô achava que ele era veado. Os livros eram um objeto mágico, Catatau pensava, com quem podia conversar com pessoas falecidas há tantos séculos: uma espécie de sessão espírita daquelas que sua mãe ia para falar com gente morta e pedir conselhos. Catatau tinha seus conselhos a cada página. No quesito gente morta, cada um escolhe o seu lote.

Um dia a professora chamou todos os alunos e mandou que fizessem uma apresentação: diga o que você pretende ser quando crescer. Exercicio clássico: como beber whiskey vendo meninas seminuas no pole dance ou comer queijo com goibada. Cada um escolhe seu lote.

A menina gorda queria ser modelo. O garoto magrelo queria ser jogador ou halterofilista. A garotinha bonita queria ser executiva de empresas internacionais. O menino com cara de tarado queria ser policial militar  e o melhor amigo dele queria ser black block. Uma menina queria ser freira. Outra, uma aeromoça. Um deles queria ser rico. Só rico. Outro desejava ser famoso. Só famoso. A menina de cabelo afro: cantora.  Tinha um menino efeminado que queria ser operador da bolsa. Cada um escolhe o seu lote.

Catatau foi na frente da sala e disse que queria ser sábio.

O risos explodiram. As ironias também. Os bullies marcaram o pequeno Catatau. Lembre-se disso, pois a chave da história está aqui. Os bullies marcaram o pequeno Catatau. Catatau, o sábio, falavam rindo do pequeno e raquítico.

Tudo bem querer ser famoso. O mundo estimula querer ser famoso. Ser rico é o alvo de todos. Dinheiro é bom e ser operador da bolsa é um charme yuppie. Ser religioso é legal nas palavras e todos respeitam. Quem não quer proteção divina? A transcendência nos tira tantas responsabilidades. Ser black block também parece legitimado porque violência dá ibope em um mundo que estupra a paz de espírito. Mas querer ser sábio é ridículo.

O sábio tenta apreender as relações em um mundo que quer o automatismo. Olha todos os segmentos e pondera em um mundo de memes em redes sociais e frases sem contexto. Não é veloz em um mundo que quer a obsolescência ligeira. O sábio escuta e deixa cada um seguir seu caminho em paz. O sábio não quer impor porque entende que cada um está em seu estado evolutivo. Nem todos que escutam,  entendem. Nem todos que veem, enxergam. É paciente. Está disposto a ouvir o contrário. Opta primeiro pelo diálogo. Não vê problema em mudar de opinião. Não é uma questão de ofensa pessoal.

Catatau queria ser sábio. Não tinha pressa. Era um objetivo. Ele sabia que não era sábio. Era burro feito uma porta. Não sabia nada. Mas sabia que nada sabia. Fazia perguntas. Estava no ponto mais distante da sabedoria. Mas seu objetivo era esse.

E por que não? Quanta gente preconceituosa, castradora e egoísta se diz religiosa… Talvez eles precisem da religião para sair de seu casulo de maldade, incompreensão  e estupidez. Perseguir um valor é um destino. Ter fé em algo que achamos importante não nos apruma para que já consigamos realizar todos os seus atos. É uma viagem. Não significa que já estejamos no final da jornada. É um objetivo. E temos uma vida inteira para seguir o caminho. Caminho que não tem mapa. Não tem regra. Não tem dez mandamentos. Fodam-se as transcendências.

No final da aula, no caminho para casa, Catatau apanhou feito boi ladrão.

Os bullies o jogaram em uma caçamba de lixo no primeiro dia.

Depois pegaram sua mochila e jogaram em um lixão perto da escola.

Na semana seguinte, Catatau correu toda a avenida mas quando cansou os bullies o pegaram. Ele apanhou. De novo.

A mãe de Catatau foi ao colégio reclamar.

No final da aula, Catatau apanhou.

O pai de Catatau foi reclamar. Pegaram Catatau no futebol e deram tanto carrinho que o menino foi ao médico.

Catatau queria ser sábio. Catatau era humilhado diariamente no colégio.

Mas o sábio não vive no mundo das idéias. Transcedências tolas e valores absolutos? Não para ele.

O sábio é Aristóteles. O homem virtuoso que sabe como agir no caso concreto, no dia a dia, adaptando-se.

O sábio é Zé Pilintra. O malandro que sobrevive sendo perseguido: terno completo branco, gravata grená e chapéu panamá.

O sábio é malandro.

O sábio vive na fresta e se adapta.  O sábio é grego e clássico. O sábio entende o catimbó do nordeste.  O sábio vive no seu tempo.

Catatau queria ser sábio.

Na semana seguinte, um dos bullies estava sozinho na rua. E gente covarde só anda em bando. Mas esse bullie estava sozinho. Fraqueza a ser explorada.

Catatau era Zun Tzu. Catatau era Maquiavel. Catatau queria ser sábio. Sabia o valor do diálogo mas não se iludia. Catatau era filho de Ogum. Criado na realidade da periferia sabia que a violência tinha o seu valor. Tem ebó que é branco. Tem ebó que tem sangue. Existe quem vê e existe quem enxerga. São Jorge era guerreiro e matou centenas. Cada um escolhe seu lote.

O bullie estava de costas quando Catatau explodiu a barra de ferro em suas costas.

Ele já ficou paraplégico ali, no primeiro golpe.

Mas Catatau bateu. E continuou batendo. Barra de ferro triturando vértebras. Barra de ferro que não tem moral. Barra de ferro que se vinga de covardes. Barra se ferro que violenta os abusos. Barra de ferro de Ogum. Barra de ferro de quem escuta.  Barra de ferro de quem não perdoa.

Paraplégico no primeiro golpe.

Catatau queria ser sábio.

O colégio caiu. Reunião. Pais reclamando. Processos. Um menino violento feito um bicho colocando todos em risco. Um garoto perigoso. Criatura sem Deus. O psicólogo do colégio fez sessões especiais.

Na semana seguinte o colégio preparou uma expiação. Bode de sacrifício. Ebó de sangue para quem entende. Catatau tinha que pedir perdão na frente de pais, alunos e professores.

Microfone instalado. Um metro e vinte acima do solo.

Bullies ouvindo.

Pais horrorizados.  O menino paraplégico. Meninos que queriam ser bombeiro, policiais militares, ricos, famosos, modelos.

Catatau queria ser sábio.

O menino pequeno se aproximou do microfone.

Silêncio.

Sun Tzu. Maquiavel. Aristóteles. Ogum.

O colégio queria um pedido de desculpas. Que ele implorasse o perdão. Que se humilhe o sábio.  Menino paraplégico.

Catatau olhou alunos, pais e professores. Pegou o microfone.

– Eu quero agradecer. Agradecer a todos o que me mostraram o ódio, a perseguição e a falta de diálogo. Quero agradecer a violência com que me receberam. A humilhação. Quero agradecer a manada e o senso comum. A vida sem contemplação que estranha aqueles que perguntam. Quero bendizer os que aceitam as respostas simples. Quero agradecer o colégio e a tradição.

Ninguém entendeu nada. Onde estava a expiação? Onde a aceitação dos comuns? Onde estava a ode pela paz  e simplicidade?

– Mas existem grupos diferentes. Existe a diferença. Existem os que aceitam apanhar e seguir as normas cândidas do dever imposto por quem manda. E existe o meu grupo.

Nietzsche batendo palmas. Freud e sua pulsão de violência e morte.

– Eu não vou aceitar calado. E aviso na frente de todos: pais, alunos e professores. Eu só quero viver quieto. Mas se eu apanho depois eu vou atrás. E eu pego. E eu arrebento. Eu caço cada um. Cada. Um. De. Vocês.

Catatau foi vaiado.

– Eu não me arrependo de nada.

A mãe de Catatau chorou em público.

O pai do menino de um metro e vinte pegou o filho no colo e o tirou dali entre xingamentos e ameaças. A mãe, arrassada. O pai submisso, viveu um momento de orgulho. A família do bullie paraplégico, revoltada.

Catatau foi expulso do colégio.

Catatau queria ser sábio.

E talvez ele já fosse. Não o sábio do dever puro. Não o sábio de branco incólume. De conto de fadas. Platônico e que vive em um mundo de idéias perfeitas afastado da realidade.

Ele era o sábio das sete liras. O sábio da brecha. O sábio criado pelos olhos do subúrbio, da periferia. Pobre criado para ser ebó mas que fala o não. O virtuoso que avalia a virtude no caso concreto.

Existe sabedoria na revolta.

E existe revolta na vida.

E vida nos dias.

E nós só  vivemos os dias.

Um depois do outro.

Cada um que escolha o seu lote.

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Crônica, “Catatau, o sábio” de Manuel Sanchez

Crônicas e Afins: Coda

Trilhando novas searas

Deixando o coração respirar 

passagens definitivamente

obstruídas. Mudança de rumo.  

 

o ciclo até o seu fim

e consigo finalmente ficar agradecido.

cada um de nós só consegue dar aquilo que tem.

E trocamos entre nós tudo o que foi possível. 

 

Amores desfeitos talvez sejam apenas um sussurro. 

um sopro que apaga a vela. Uma pessoa que vai se deitar

e não acorda. serena

Um copo de bebida que acaba. deixado no balcão

 

A agulha percorre todo o vinil

o livro é deixado na prateleira

Um filme bom onde os créditos sobem

Trocamos entre nós tudo o que foi possível.

 

O ciclo até o seu fim 

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Crônica e Afins: Coda, de Manuel Sanchez