Crônicas e Afins : Pecados e Charutos

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E eu aqui, divagando.

Virei para ela meio bêbado e levantando a voz, disse que continuava seguindo meu rumo, no eterno exercício. Não para descobrir quem eu sou (porque não somos uma substância pronta), mas sim na tarefa de construir quem eu quero ser.

E ela disparou sem pena: –  E precisa beber todo dia para isso?

– Não.  Também sinto falta dos meus charutos.

– Suicídio lento. – ela continuou sem se render.

– Mantenho a pistola por perto para o dia que tiver pressa.
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Trecho de “Pecados e charutos” Manuel Sanchez

 

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Crônicas e Afins: Perdido em suas Curvas

Perdido em suas curvas, eu ainda não sei

Se é o seu corpo que me tira o tino e destrói toda razão e todo juízo

Ou seu charme que me hipnotiza os sentidos e altera meu norte 

Perdido em suas curvas, eu ainda não sei

Se é a sua boca que acalma a minha mente

ou suas idéias que me agitam em perdições

Perdido em suas curvas, eu ainda não sei

Se este caminho nos levará ao gozo ou à mágoa

Mas também

 Já desisti de perguntar

— Sanchez

 

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Crônica: Hipócrita

HIPOCRITA

“Ela me olhou no fundo dos olhos e disparou:

– Andei lendo o que você escreve.

– E então, o que achou?

– Acho que você é um puta de um hipócrita. Não faz nada do que diz. Sua vida é uma bagunça! Você não fala sério.

Tomei outro gole do chopp e prendi o cigarro entre os lábios antes de responder.

– Olha, nós não abraçamos certos preceitos porque já os entendemos completamente ou os vivemos plenamente. Mas sim porque sentimos que eles são corretos. É como um religioso que duvida de Deus mas quer acreditar… Na essência, entendeu? Mesmo com todos os defeitos e com todas as nossas falhas. Eu acredito no que eu escrevo. Eu acredito! Mesmo que não consiga praticar tudo. Eu tento. E acho mais! Tentando atingir esse ideal, o dia a dia vale mais a pena de ser vivido. Não morri ainda! Estamos só na metade da batalha. A cada dia, estou mais perto.

Ela pegou o copo da minha mão e tomou um gole do meu chopp. Ela era difícil de ler. Tinha uns olhos puxados meio orientais e uma pele queimada de praia que mexia na reação mais sexual que eu tinha. 

– Continuo te achando um puta de um hipócrita.

– Talvez eu seja…. – respondi já me rendendo aqueles olhos –  Mas mesmo assim você vai passar a noite comigo hoje.

Ela sorriu.

O chopp acabou.

Arremessei o cigarro longe antes de darmos um beijo.

Os cabelos dela tinham um cheiro doce. “

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Crônica “Hipócrita” , Manuel Sanchez

 

Crônicas e Afins: Paralelas 

“Eu sinto falta dela.

Como sinto falta do sol nos dias frios e nublados. Como sinto falta da chuva no meio da seca. Como sinto falta da cama

Dos lençóis manchados

Se ela soubesse. Eu sinto falta dela.

orgulho. mágoa. Nossa história. dor. mensagens raivosas chamando socorro e atenção.

Depois o silêncio vil. 

O silêncio que nubla os dias e torna árido o solo. Que tranca o quarto.

O silêncio do samurai. E sua espada

Fria.

O silêncio do maestro que antecede o adágio.

Bach com sua perfeição.

Notas Frias ao piano.

Perfeição matemática de formas geométricas que nunca existirão. Que nunca se encontram.

Como paralelas.

Se ela soubesse.

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Manuel Sanchez, ” Paralelas ”

Crônicas e Afins: Sobre Paixões e Charutos

Chego em casa depois do trabalho e minha mulher ainda não está. Nossa cachorra se joga em minha direção da mesma forma escandalosa que faz todas as vezes, mas comigo é sempre menos intenso do que quando ela recebe minha esposa. Com ela é sempre uma festa. Não esconde a preferência. Cachorros são sinceros nos seus afetos.

Não é que tenha ciúmes, mas o elo entre as fêmeas parece ser muito mais intenso do que comigo. Nossa cachorra é um bichinho simples mas absurdamente temperamental. Se chego e não brinco com ela pelo tempo que ela mesma estipulou como necessário, começa a me seguir pela casa latindo alto e reclamando.

Vou andando e fazendo as minhas coisas e lá vem ela pulando e rosnando e latindo e brigando até ter minha atenção indivisa.

Tenho que parar tudo e rolar no chão com ela por alguns minutos. Os pêlos na roupa nunca são opcionais.

Depois que ela mata as saudades,  eu acho que tenho o direito de relaxar e  pego uma dose de whiskey. Vou acender meu charuto na varanda. O primeiro gole é sempre o mais saboroso. Assim como a primeira baforada. Vícios e prazeres são sempre melhores no ineditismo das sensações. O encontro original e nunca repetido dos afetos.

Existe alguma coisa no hábito que consome a gente. Como o o fogo lento que consome a bucha do charuto. Por melhor que seja o bouquet do tabaco, do melhor tabaco, a repetição gera um certo descomprometimento com a atenção. Rotina que amorna. Congela. E peças frias se quebram.

No que serve para charutos e bebidas há um paralelo com relacionamentos. Todos eles. Qualquer um deles.

Paixões explodem na ignorância do corpo. Na falta de referências. Nas estréias. Ineditismo de pele e do tom de voz. Esperança de orgasmos ainda não vividos. Pontos de vista expressos por uma boca que você pouco conhece. Paixões surgem equilibristas nas cordas do precário. Pertencem à imaginação. Artistas de um circo que se conhecem dando saltos sem redes. Adrenalina no ar. Adrenalina do corpo. Como a fumaça de um bom charuto baforado ao vento. Aquela fumaça dançarina que sobe pelas narinas e fica impregnada na barba e nos cabelos. Cheiro que cola no corpo igual uma tatuagem.

Minha cachorra detesta o cheiro do meu charuto. Quando fumo na varanda ela fica de longe e briga. Late e rosna até eu acabar e entrar em casa novamente. De nada adianta falar de ineditismos e das paixões do precário. Ela não quer fumaças dançarinas.

E eu também. Quero o carinho talhado no hábito. A brincadeira do dia a dia. Os cuidados que pertencem à realidade. O compromisso de todo dia chegar e rolar no chão. Rotinas do solo. O tom de voz que traz segurança e conforto. Amor com referência.  Amor que cuida. Que escuta. Apoia. Perdoa. Amor que não se desfaz como fumaça. Amores do corpo.

Paixões que pertencem à imaginação me deixam irritado.

Abandonei as precariedades. Me amarrei em cordas firmes.

Carinhos do dia a dia.

Mas eu tenho um vício em charutos. E em fumaças. Dançarinas.

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Crônica “Sobre Paixões e Charutos”, de Manuel Sanchez