Crônicas e Afins: continente de afetos

Meus olhos não enxergam bem. Desde pequeno uso óculos e nada me leva a lentes de contato. 

Bons olhos poderiam ter me colocado como um bom vigia que a tudo olha de longe. Observador externo. Lunetas de alma para o mundo. Existirá quem aplauda. Castradores dos demais  sentidos. Criadores de pecados. Há sempre um tirano olhando censor o prazer alheio.

Mas ao contrario do que me ensinaram, descobri que o mundo  exige o toque.

Olhos ruins me levaram a exercitar o toque e o cheiro. Contingências  da natureza. Animal que caça, que cheira e come. O toque pelo corpo. O cheiro no encontro. O gosto do sexo. De nada me adiantariam olhos bons quando quero a excitação do momento. O prazer da carne; farejando o corpo, manipulando as curvas, cheirando e comendo o prêmio.

Não confio nos olhos. Experiência da distancia. Por isso me aproximo. Cauteloso, sim. Sem recuar, tambem. Encontro de vidas na dinâmica dos afetos.

Às vezes, encontro uma presa pronta para o abate. De outras, descubro uma fera armada para o bote. Somos seres que se deliciam nos afetos. Criaturas que se afastam de vitrines frias de sentimentos.

Não confio nos olhos. Sou animal que fareja, abate e come. Um homem que devora a mulher amada  em banquete. Território de afetos.

Manuel Sanchez, “Continente de afetos”

 

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Crônica: “Um pedaço de mim”

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“Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, dos charutos mais robustos, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes…

Tenho um apetite voraz pelo seu corpo. Repetidas vezes. Pela noite inteira.

Não me dê a fórmula certa, por que eu não espero acertar sempre. Me permita experimentar.

Não me mostre o que espera de mim, porque vou seguir o meu coração. E ele iluminará o caminho.

Gosto das casas onde as roletas não param, onde o carteado é alto, para que o vinho seja servido em fartas copas e possamos conversar olho no olho. 

Não me faça ser quem não sou. Não me convide a ser igual, por que sinceramente sou diferente.

Não sei amar pela metade. Serei sempre fiel, sempre teu, mas em outros termos. Nosso acordo é um segredo que apenas a nós pertence. Não precisamos da autorização de ninguém.

Não sei voar de pés no chão.

Sou sempre eu mesmo, mas com certeza não serei o mesmo para sempre”.

– Manuel Sanchez

Crônicas e Afins : Pecados e Charutos

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E eu aqui, divagando.

Virei para ela meio bêbado e levantando a voz, disse que continuava seguindo meu rumo, no eterno exercício. Não para descobrir quem eu sou (porque não somos uma substância pronta), mas sim na tarefa de construir quem eu quero ser.

E ela disparou sem pena: –  E precisa beber todo dia para isso?

– Não.  Também sinto falta dos meus charutos.

– Suicídio lento. – ela continuou sem se render.

– Mantenho a pistola por perto para o dia que tiver pressa.
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Trecho de “Pecados e charutos” Manuel Sanchez

 

Crônicas e Afins: Perdido em suas Curvas

Perdido em suas curvas, eu ainda não sei

Se é o seu corpo que me tira o tino e destrói toda razão e todo juízo

Ou seu charme que me hipnotiza os sentidos e altera meu norte 

Perdido em suas curvas, eu ainda não sei

Se é a sua boca que acalma a minha mente

ou suas idéias que me agitam em perdições

Perdido em suas curvas, eu ainda não sei

Se este caminho nos levará ao gozo ou à mágoa

Mas também

 Já desisti de perguntar

— Sanchez

 

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Crônica: Hipócrita

HIPOCRITA

“Ela me olhou no fundo dos olhos e disparou:

– Andei lendo o que você escreve.

– E então, o que achou?

– Acho que você é um puta de um hipócrita. Não faz nada do que diz. Sua vida é uma bagunça! Você não fala sério.

Tomei outro gole do chopp e prendi o cigarro entre os lábios antes de responder.

– Olha, nós não abraçamos certos preceitos porque já os entendemos completamente ou os vivemos plenamente. Mas sim porque sentimos que eles são corretos. É como um religioso que duvida de Deus mas quer acreditar… Na essência, entendeu? Mesmo com todos os defeitos e com todas as nossas falhas. Eu acredito no que eu escrevo. Eu acredito! Mesmo que não consiga praticar tudo. Eu tento. E acho mais! Tentando atingir esse ideal, o dia a dia vale mais a pena de ser vivido. Não morri ainda! Estamos só na metade da batalha. A cada dia, estou mais perto.

Ela pegou o copo da minha mão e tomou um gole do meu chopp. Ela era difícil de ler. Tinha uns olhos puxados meio orientais e uma pele queimada de praia que mexia na reação mais sexual que eu tinha. 

– Continuo te achando um puta de um hipócrita.

– Talvez eu seja…. – respondi já me rendendo aqueles olhos –  Mas mesmo assim você vai passar a noite comigo hoje.

Ela sorriu.

O chopp acabou.

Arremessei o cigarro longe antes de darmos um beijo.

Os cabelos dela tinham um cheiro doce. “

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Crônica “Hipócrita” , Manuel Sanchez