Crônica:O Beijo

Klimt
Klimt

Trocaria a memória de todos os beijos que já te dei por um beijo teu agora.

E mesmo esse último beijo, pela certeza de que sentes minha falta.

E afastaria essa falta te aninhando em meu peito.

Desta vez para sempre. Desta vez sem erros.

Trocaria todos os meus sonhos futuros pelo primeiro sim que nunca demos.

Rodin
Rodin

E este sim, meu amor,  guardaria no cofre mais forte

Porque é o sonho mais belo que tenho.

Mas desta vez não quero sonhos que se esvanecem.

Eu te quero. Para sempre.

Trocaria todas as minhas certezas pela insegurança de estar ao teu lado.

E de teus abraços faria cordas com as quais nunca me soltaria.

Esse frêmito, esse medo, um salto em um vale que não se vê.

Boca. Desejo. Paixão

A perdição que só encontro em você.

— Sanchez

 

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Crônica: “Cachorro Louco em Noite Escura”

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Naquela noite, ele mergulhou em uma parte venenosa que havia dentro de si. Seu pior lado. Negava possuí-lo. Mas tinha. E forte. E usou dele com toda intensidade. Não existe nada de edificante nos próximos parágrafos. Não existe mensagem. Não há redenção. É sem moral. Melhor parar sua leitura por aqui. Esteja avisado, então.

Tudo o que ele respirava naquela noite era uma nuvem de violência. Não havia nobreza em seus pensamentos. Aproveitaria cada vantagem que tivesse. Paridade de armas era algo que nem cogitava. Não estava ali para ser honrado. Aquela noite não seria contada nas conversas com os amigos. Não era uma história para lembrar com a família. Ela era vingativa. Ela era suja e feia. Não teria orgulho dos próximos minutos. Mas também não se importava. Não sentia remorso. O ataque seria rápido e bruto. E planejado.

No futuro, talvez ele sentisse vergonha do que iria fazer. Um dia, talvez sentisse a necessidade de se desculpar e buscasse alguém para ouvir sua confissão.  Mas não seria naquela noite.

Você tem a chance de parar por aqui. 

(…)

Cortou o charuto e pegou o pequeno isqueiro de maçarico. Apertou uma, duas vezes. O fogo falhou. Estava acabando o gás. Depois que conseguiu, acendeu morosamente. Sorveu a fumaça. Era bom.

Ainda tinha alguns minutos de espera. Aproveitou o charuto. Era um vício. Sim.

Evite um júri. Evite a cabeça. Evite a coluna. Planejamento.

Sempre teve como primeira opção o diálogo. Dificilmente perdia a paciência. E gostava de ponderar muito antes de tomar uma decisão. Alguns achavam que ele era devagar. Outros diziam que era tímido. Sonolento. Era um homem de livros. E estavam todos certos.   

Mas estava naquele estacionamento decidido a não conversar.

Continuava paciente. E calmo.  

Dentro do carro, olhou para o banco do carona e para a barra de ferro que repousava tranquila. Fria.  

O charuto queimava preso em sua boca. A fumaça escapava. Deliciosamente.

Na porta da faculdade, lá vinha o sujeito.

Ele era absurdamente alto, parecia um armário de tão forte e o insulto final: também era bonito. O infeliz era justamente o que o homem do charuto não era. Ela havia escolhido alguém para ferí-lo com todas as características que ele não tinha. Não passou despercebido. Dolorosamente.

Saiu do carro e bateu as cinzas do charuto no chão.  A fumaça inundou sua boca. Pegou o pé de cabra. Evite um Júri. Evite a cabeça. Evite a coluna.

Foi caminhando pelo estacionamento com a barra em punho. O sujeito alto seguia para seu carro. Evite um júri. Evite a cabeça. Evite a coluna. 

Adultos jogam jogos estranhos. Ele e sua mulher tinham um jogo no sexo com regras próprias. A principal delas: jogue quieto. Quando ele descumpriu as regras; ela se vingou. Regras do jogo. Humilhação recíproca. Ele engoliria a sua. Tudo poderia ter terminado ali e todos receberiam novas cartas e começado uma nova partida.

Por um segundo pensou se realmente iria até o fim com aquilo. Apertou a barra de ferro. Evite um Júri. Evite a cabeça. Evite a coluna.  

Mas o idiota alto não se contentou em ganhar uma rodada com suas cartas. Não. Achou que seria uma boa idéia tripudiar ao longo de toda a partida, acreditando ser o jogador principal e alterando todas as regras de um jogo em que só entrou como peão.

Cobiçoso pela mulher, o tolo partiu para ataques diários. Ligações constantes. Ligações indecorosas. Ligações com o único intuito de destruir todo o respeito de um homem. Ele contava detalhes. E ria, falando como se divertia descrevendo minúcias na rodinha de amigos. Queria humilhá-lo no limite do possível. E fez isso, um dia após outro.

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Quando lembrou das risadas, tomou para si uma última baforada e jogou o charuto fora. Não havia dúvida alguma. Ele estava calmo. E frio. Não se lembraria no futuro de ter ficado assim novamente.

Evite um júri. Evite a cabeça. Evite a coluna.

Pergunta: como se atinge um sujeito com três vezes o seu tamanho?

Resposta: muito rapidamente.

Decidiu que não atacaria pelas costas. Pelo menos disso não se envergonharia.

Quando ouviu seu nome sendo chamado, o gigante olhou surpreso. Não falaram mais nada um para o outro. Existiu uma janela de incredulidade aberta entre o giro do pé de cabra e o estalo agudo, que durou dois segundos. No terceiro, a barra de ferro explodiu em um de seus joelhos, transformando qualquer coisa em pó.

Caído no chão, o gigante protegeu a cabeça.

Mas ele não queria a cabeça. Evite a cabeça. Evite a coluna. Evite um júri. Planejamento.

Destruiu o outro joelho. O grito de dor rasgou seus ouvidos e as mãos de seu alvo buscavam juntar os cacos de dois joelhos quebrados.

Poderia ter parado. Mas ele lembrou dos telefonemas. Das risadas. De detalhes expostos em mesa de bar. Regras do jogo. Até mesmo na humilhação deve haver respeito com um homem.

Evite o júri. Evite a cabeça. Evite a coluna.

Mirou em braços esticados. Bateu uma vez. Bateu duas. Bateu três. Só parou quando ouviu o barulho surdo de ossos quebrados. Gostou do som.

Poderia ter acabado. Mas não deixaria o rosto bonito escapar ileso. Neste ponto, agiu por torpeza. Ele tinha isso dentro de si também: a noite estava repleta de descobertas. Largou a barra de ferro. Evite a cabeça. Evite a coluna. Sentiu prazer quando dentes se arrebentaram a cada soco. O sangue dele era quente.  

Quando sua mão começou a doer, parou. O tolo gemia no chão. As pessoas olhavam de longe com receio de se aproximar: fizeram bem. Não se importou com as fotos que batiam em aparelhos de telefone celular.

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Pegou a barra de ferro e deixou como lembrança no capô do carro do gigante.

Descobriu que não tinha pudores de usar a vantagem que tinha em mãos. Regras do jogo. Cada um usa as armas que tem.  

Agachou-se e sussurrou umas poucas palavras no ouvido do homem que tremia em choque no chão. Trincando os dentes, ele parou de gemer. Melhor assim.

Os telefonemas nunca mais se repetiram.

Adultos jogam jogos estranhos. Se não está disposto a ir até o final, melhor não entrar em uma mesa de alto carteado. Fique na mesa dos iniciantes. Dói menos. 

No futuro, talvez ele sentisse vergonha do que fez. Talvez sentisse a necessidade de se desculpar e buscasse alguém para ouvir sua confissão. No futuro talvez chegasse o arrependimento. No futuro. Não naquela noite.

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Manuel Sanchez, “Cachorro Louco em Noite Escura”

Crônica: A Leitora

629. Yuri Krotov (1964, Russian) leitora

Ela acabou com tudo antes que a mágoa acabasse com ela.

Mas uma dor fria e fina ainda calava triste no peito. Muitas questões permaneciam sem respostas. E o mesmo silêncio que desprezava suas perguntas, corroía seu coração como uma ferrugem. Mas até o silêncio enferrujado era uma opção melhor que os grilhões dourados que a prenderam a ele.

Seguiu em frente. Fechou portas e janelas para seu antigo amor. Trocou as fechaduras de seu desejo. Vendeu a casa.

E disse que seguiu feliz, com a autoestima forte. Agora, sentia-se amada, apesar de não amar. Mas repetia que o sentimento viria com o tempo. Sentia-se digna, mesmo que não apaixonada. Mas podia mostrar seu novo companheiro livremente. E isso compensava tudo. Calava a todos. Calava a ele. Finalmente.  

Em sua última conversa, todas as questões permaneceram suspensas. Rotina. Ele insistiu inutilmente nos laços que os unia e no amor que poderiam viver. Rotina.

Mas ela respondeu que preferia o escarro de seu novo amor aos beijos do antigo. Isso era novidade.

E como um último golpe, ela disse que conversariam depois.

Então veio o nada. E no nada, passaram uma eternidade.

(…)

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Um dia, abrindo o jornal, ele estava ali. Em uma seção semanal.

E conversava com ela. Ela leu novamente para ter certeza. Sim, era para ela. Era dele. E ele conversava com ela.

Ela deveria ter fechado o diário. Deveria tê-lo jogado fora e cancelado a assinatura. A melhor decisão seria não regressar naquelas páginas. Ela não deveria ler aquilo. Não. Deveria. Ler. Nada. Daquilo.  

Mas ele estava ali. E conversava com ela. A curiosidade era maior.

Parecia mágoa. Misturava-se com rancor. Exalava saudade. Não conseguia esconder o carinho.

E finalmente ele abriu o coração que nunca entregou. Finalmente ele abordava os sentimentos dos quais nunca quis conversar.

Ela leu. E continuou lendo. E leu de novo.

Buscou respostas nas entrelinhas. Fez conexões em sua mente no meio de parágrafos.

Descobriu coisas que não deveria.

Eles nunca mais conversaram. Ela quis assim. Fez tudo a seu alcance para criar a mais fria, alta, intransponível e escarpada das barreiras para que ele nunca chegasse perto novamente.  

E agora ele chegava pelas páginas do jornal. Ele chegava sem voz. Mas ela podia ouvir a voz dele nas palavras escritas, mesmo assim.

Ela não deveria estar ali. Seria melhor abandonar aquelas páginas.  

Mas ela continuava lendo. Semana após a semana.

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Era um monólogo. Porque só ele conversava com ela. A cada palavra, de cada parágrafo, em todos os textos.

Mas ela nunca, jamais, em nenhuma hipótese respondia. E nem queria. E mesmo se quisesse, não deveria.E se devesse, não o faria.

Se havia uma coisa em que ela forte, era em manter-se calada.

Aquilo era sua terapia. Era o desabafo dele. A sua tentativa de compreensão.

Na leitura dela, virava uma terapia de casal. Póstuma. Irrespondível. Calada. Em branco e preto. Muda. Mas ela continuava lendo, semana após semana.

E se respondesse, ela pensou em uma madrugada, diria a ele que preferia os escarros de seu novo amor aos beijos do antigo. E em uma tentativa de acabar com aquele inútil diálogo diria, por fim, que conversariam depois.

Mas o depois é um vocábulo de hiatos.

Porque o depois é sempre nunca.      

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Manuel Sanchez, “A Leitora”

Crônica: Confissão da Madrugada

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Eu não passei nenhuma procuração para o tempo. Não é ele que me representa na vida. Não fiz dele senhor para decidir coisa alguma por mim.

O que decidi, fiz sozinho. Do que cansei de pensar, fugi também sob minha inteira responsabilidade.

O tempo jamais irá curar minhas dores. O tempo não me fará esquecer. O tempo não irá cicatrizar nada. Ele não gera perdão.

O tempo é uma desculpa confortável que usamos para entregar nas mãos de coisa alguma, aquilo que estamos cansados demais para carregar. Um veículo para transportar para longe o peso de nossas decisões. Uma fuga para não assumir as consequências das bifurcações da estrada. Entregamos ao tempo, ou seja, ao nada. 

Achamos que se não as enfrentarmos, o tempo irá resolver as coisas. Mas ele nunca o fará.

Quando deixamos para o tempo, as coisas terminam sem resolução. Permanecem abertas, mesmo que nunca mais as enfrentemos. Isso não é resposta. É a própria ausência do questionamento.

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O tempo quer adornar seus dedos com as lágrimas de amores desfeitos. Não os meus. Senti tudo que podia até o final. Nunca me envergonhei de ser ridículo por amor. Não foi o tempo que me serviu de proteção. Ele não foi escudo.  Lutei até que encontrasse as respostas dentro de mim. O tempo não me traduziu nenhuma das palavras arcanas do desejo. E foi o fogo  que habita em mim que me conduziu por todos os caminhos. 

O tempo é um vocábulo vazio de sentido quando o coração não perdoa. E o meu sente demais. E não esquece nada.

Estendi a mão pedindo desculpas depois de reconhecer meus erros. Não foi por decurso de prazo. Quem pediu perdão, fui eu. Quem negou perdão, também. Reconheço que a carne foi fraca muitas vezes. E que o coração foi duro, tantas vezes mais.

As injustiças que cometi são minhas. O tempo pode cobrir os rastros, mas nunca apagará as manchas. As traições que sofri, doem em mim. Não são os anos que as farão doer menos. Mesmo que não sangrem mais, também não cicatrizam.

O tempo é uma ilusão. Uma história bonita que contamos entre tapinhas nas costas e votos de recuperação. Eu não acredito no tempo. Eu acredito em mim e em tudo que posso acertar e errar pelas minhas próprias decisões.

Eu nunca fui coerente. E nem finjo que sou justo. Minhas contrariedades habitam em mim. Eu tenho um desejo profundo que me impulsiona e aquece, mas também corta aqueles que me rodeiam.

E tempo algum pode mudar isso.

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Sanchez, “Confissão da Madrugada”

Crônica: A Porta Bandeira

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Saímos de mais uma consulta. O corpo dela estava tão magro que nenhuma roupa ficava bem. Mas ela insistia em se maquiar e usar uma bandana colorida na cabeça. Mesmo nos últimos momentos, a vaidade esteve sempre presente.

Sempre foi vaidosa. E muito alegre. Tinha um gênio difícil, porém. E Deus sabe quantas discussões nós tivemos porque tínhamos exatamente a mesma capa exterior. O sangue não nega suas origens. Mas esta era só a primeira camada da personalidade que ela usava como defesa. Passando deste portão, ela era só afetos e carinhos que transbordavam sem fim. Um coração gigante de compreensão e perdão mesmo após tantas mágoas.

A alegria contudo se esvaziava dia a dia.

A cada consulta, cada exame, cada quimio… toda semana eu a acompanhava naquele circuito. Calvário. Ela me dava as mãos. Sempre esperando uma notícia redentora, uma frase de fortalecimento.

Mas ultimamente as frases não chegavam. Continuávamos de mãos dadas.

Os sorrisos rareavam. O humor não mais tolerava bem as brincadeiras. O choro vinha com imensa facilidade. O medo ao ver a vida se esvaindo de forma tão injusta. Naqueles dias, ela se encontrou de forma irreconciliável com suas frustrações.

E quando conversávamos, ela me dizia baixinho coisas que por uma vida inteira ficaram apenas subentendidas. Conversávamos muito. Eu sabia que ela tentava passar o máximo dela para mim (como se eu já não fosse ela por inteiro).  Algumas coisas, acho que até hoje não compreendi.

Existiam ainda muitos sonhos para realizar, tantas viagens para fazer, tantos Carnavais para dançar!  Finalmente tinha visto os filhos crescidos e encaminhados, as relações tóxicas deixadas para trás. Era o momento de ter dias só para si.

Sonhava sempre com o Carnaval. E com a multidão que lhe saudava nas ruas. Porta bandeira da agremiação rodopiando com seu mestre sala por sobre os paralelepípedos. A doença havia lhe tirado muitos sabores e alegrias. Mas ao menos o samba ela mantinha guardado no peito. Nessas lembranças  ela tirava um motivo para sorrir.

Rodopiando. Rodopiando. Rodopiando.

Saímos de mais uma sessão.

Da clinica até o carro, tínhamos que atravessar um longo estacionamento.

Fui empurrando a cadeira de rodas. Ela não ria. Nem tão pouco falava. Ficava apenas ali, triste. E cansada. Sanidade demais, às vezes enlouquece.

– Segura firme na cadeira.

–  Não… não…

– Segura firme nessa cadeira.

Ela segurou-se nos apoios com força gritando para eu parar. Não parei.

Zarpamos pelo estacionamento correndo! Ela gritou e riu ainda mais alto. Eu mandava ela segurar e ela gargalhava aos gritos enquanto corríamos juntos. Eu empurrava a cadeira de rodas. Ela se segurava, tensa e alegre.

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Quando fecho os olhos, lembro das gargalhadas que enchiam meus ouvidos.

– Segura firme!

Corremos em linha reta. Corremos em curvas. Corremos em círculos.

Rodopiando. Rodopiando. Rodopiando.

A bandana saiu de sua cabeça e ela segurou com uma das mãos para que não voasse. Enquanto rodava, ela segurava aquele pano como se fosse uma de suas bandeiras. Rodopiando mais e mais, rindo e gritando. O povo que cruzava o estacionamento nada entendia. Apenas nos via rindo e girando em uma cadeira de rodas sem entender que aquela era a última evolução da porta bandeira. E eu, fazendo o papel de seu mestre sala.

Correndo  e rodopiando chegamos ao carro. Felizes. 

Ela ria com alegria. Ria com força. Havia um brilho encantador em seus olhos. Voltamos para casa conversando muito naquela tarde. Ela me contou muitas histórias alegres de sua infância. Lembro de todas. Cada detalhe.

Era uma tarde de sol quente e sem nuvens. O céu estava azul. Era um forte azul celeste. Sempre gostei desse tom do azul.