Sinais dos tempos líquidos

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Crônicas Pessoais e Afins: impaciências 

Impaciências

(Manuel Sanchez)

 

Frequentemente somos impacientes.

Queremos velocidade para atingir o sucesso profissional ou a fortuna. Muitos decidem-se por atalhos que, às claras,  sentem vergonha de nomear. Outros se gabam das facilidades torpes que usaram como caminho mais rápido. Relativismos morais empesteiam nossa época.

Algumas pessoas acreditam que relacionamentos afetivos são construídos na batida mais acelerada do coração e pronto, tudo resolvido. A idéia de liberdade tornou-se descolada de qualquer responsabilidade.

Queremos um fast-food de sentimentos, o resumo do livro, a notícia pelo meme de Internet. 

E o modo como desejamos cria o mundo em que vivemos. Estranho é que quando os pilares frágeis se esfacelam, reclamamos da brevidade das obras.

Poderíamos ter antevisto o fim do roteiro se tivéssemos tido um pouco mais de atenção ao contemplar o caminho.

Mas somos todos impacientes. Sem perceber que muitas vezes chamamos de destino apenas o resultado de nossas precipitações.

Filosofia nos Quadrinhos: Lúcifer, Estrela da Manhã

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 Lúcifer, estrela da manhã é um personagem de quadrinhos do selo Vertigo e para mim a melhor versão já retratada em qualquer mídia. Inicialmente, ele surge idealizado por Neil Gaiman como um personagem secundário nas páginas da aclamada série de quadrinhos Sandman; e depois é detalhado e expandido por Mike Carey em título próprio, utilizando-se de todos os mitos judaicos e cristãos sobre os anjos e suas batalhas, não deixando de mencionar as histórias de cunho místico que não se vinculam a nenhuma das religiões principais.

Sim, Lúcifer é a história atual do personagem mencionado no Gênesis bíblico.

Mas pouco tem a ver com a imagem de uma criatura suja, feia, maldosa, mentirosa, envolvida com a perversidade e desejosa de criar pequenas maldades ao ser humano.

O personagem dos quadrinhos tem mais semelhanças com o Lúcifer do clássico inglês  “Paraíso Perdido” de John Milton: uma figura bela, que exala liderança, apaixonada, soberba, ciente de sua força e de sua inteligência. Uma alma nobre, atormentada, de natureza aristocrática e dotado de um código de honra que segue à risca. O Lúcifer de John Milton e dos quadrinhos do selo Vertigo tem esse ar de desprezo pela fraqueza, de pouco caso com os que aceitam a obediência. Desprezo pela moral dos fracos, dos que ficam à espera de um mundo melhor no por vir.

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Preferido do Criador, o Portador da Luz é um ser amargurado por se sentir traído por Deus ao descobrir que uma eternidade de serviços prestados será ignorada em prol de uma nova raça criada pelo Senhor: os homens. Claramente inferiores aos Anjos, sem sua beleza, inteligência e força, mas que receberão o maior presente de Deus – negado aos Anjos – o livre arbítrio.

Em sua fúria ao ter todo seu amor e serviço não valorizados e em ter negado o direito ao livre arbítrio, Lúcifer articula uma rebelião nos Céus, sendo por fim derrotado por Miguel Arcanjo.

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Derrotado, jogado ao Inferno com sua hoste de seguidores, Lúcifer por fim transforma a derrota em conquista, declarando aos seus seguidores o direito de tomar suas próprias decisões, seguirem seus desejos, reinando a seu modo.

“É melhor reinar no Inferno do que servir no Paraíso”; ou seja, é melhor criar a sua própria identidade e traçar o próprio destino – mesmo que difícil e espinhoso – do que seguir ordens, aceitar um papel estabelecido pela sociedade (mesmo que divina) e negar a própria individualidade.

Esta frase de Lúcifer ao ser remetido ao Inferno é a afirmação da individualidade; a confirmação da modernidade. A assunção do “Eu posso”.

É deste personagem Miltoniano – e não do bíblico – que Neil Gaiman bebe para contar a história de Lúcifer, quando o mesmo percebe que NÃO, ele ainda não tem seu livre arbítrio. Que seu reinado individual no Inferno é falso.

lucifer16Afinal, as almas humanas condenadas são todas destinadas ao Inferno por ordem de Deus, sem qualquer interferência de Lúcifer que continua sem poder decidir quem fica ou não em seus domínios.

Finalmente percebe que o Inferno é apenas mais um dos reinos de Deus, sendo ele – Lúcifer – apenas um gerente em nome do Criador para cuidar de um canto destinado aos sofrimentos impostos pela Ordem Divina.

É Deus quem decide as regras de salvação ou condenação da alma e quem envia ao Inferno ou perdoa os atos. O julgamento das ações humanas é sempre de Deus, nunca de Lúcifer. Este apenas recebe as almas mandadas por uma Ordem Superior.

A identidade que Lúcifer orgulhosamente acreditava ter criado para si mesmo era falsa, imposta de fora, determinada por Deus, uma vez que seu reino continuava submetido às decisões tomadas nos Céus.

Lúcifer percebeu que estava sendo enganado. Ele não reinava. Obedecia. Ele não era livre, mas mantinha seus vínculos de vassalagem com o Todo Poderoso.

Finalmente lhe ocorre que toda sua vida, seus serviços, a Rebelião, a administração do Inferno – TUDO – já havia sido predestinado por Deus em seu Reino, retratado sempre como uma sociedade hierarquizada, de papéis definidos, onde não é permitida a decisão livre e espontânea.

lucifer01Na obra de Neil Gaiman “Sandman, Estação das Brumas”, parte da vasta coleção do personagem Sandman, temos o primeiro contato com o  personagem Lucifer.  Nesse livro, o autor  leva a busca pelo livre arbítrio de Lúcifer ao extremo, quando ele abandona as chaves do Inferno, corta suas asas e ruma para a Terra, abrindo um piano bar e vivendo entre os humanos.

Simplesmente uma mudança de paradigma total que inicia uma saga contando as histórias de Lucifer vivendo entre os humanos e as criaturas sobrenaturais que andam pela Terra.

É esse personagem livre e sem vínculos, aristocrático, gentil e vaidoso, vivendo entre os humanos e dono de um piano bar chamado “Lux” – em Los Angeles (óbvio!) – frequentado por místicos, bruxos e demônios que o escritor Mike Carey conduzirá em uma série própria que durou 75 números.

A série de quadrinhos é filosófica. Discute a questão do livre-arbítrio e da predestinação, a criação da identidade, a ansiedade da responsabilidade pelas próprias decisões e pela criação do próprio destino em um mundo que está sempre em mudança; onde a noção de hierarquia está deteriorada e não existem mais papéis fixos.

De certa forma, o personagem Lúcifer está até o pescoço envolvido com todos os assuntos que sociólogos como Zygmunt Bauman retratam na atual modernidade líquida.

Ao contrário da noção bíblica, Lúcifer nunca mente. Ele deseja, articula, persegue… mas nunca mente. Esta é a base da moralidade do personagem, que persegue o mote de nunca mentir como um verdadeiro imperativo categórico Kantiano.

Lucifer_Liege_Luc_ViatourAr aristocrático, mente nobre, gosto refinado, ele expõe claramente o que deseja deixando aos terceiros que o encontram a decisão de se unirem ou não a ele – e enfrentarem as consequências de suas PRÓPRIAS decisões, falsidades e mentiras.

Lúcifer se vê como uma criatura que refuta as noções de bem e mal pré-estabelecidas seja por Deus, pelos demais anjos ou pelos homens. A idéia de que sua identidade foi forjada na polifonia dos simbolos e signos do mundo exterior destrói sua alma. Ele quer forjar seu caminho.

Compaixão não está em seu vocabulário. O personagem é praticamente um seguidor não declarado da filosofia de Friedrich Nietzsche. Existem seres destinados para a grandeza e outros destinados a servir; sempre existirão ovelhas que preferem seguir um pastor a tomar suas próprias decisões. E usar de suas mentes fracas para alcançar objetivos superiores não é um problema.

Ou seja, além do deleite dos quadrinhos, o argumento e diálogos são perfeitos para discussões filosóficas e comparações entre autores variados.

As aventuras de Lúcifer o colocam rumo ao seu grande desejo: a criação de um Universo próprio, em paralelo e mesmo em oposição ao universo de Yahweh, o Deus judaico cristão, seu pai. A concepção psicanalitica freudiana da oposição entre pai e filho permeia toda a obra. 

Tais manobras o colocam em rumo de colisão com diversas entidades místicas, deuses mortos de sociedades antigas e claro, com as hostes de anjos que enfrentou no passado da Rebelião original. Ao longo de 75 números, Lúcifer visita seus antigos domínios, passa pelas representações dos Infernos da mitologia oriental, até chegar à sua antiga moradia na Cidade dos Anjos e ter sua conversa definitiva com Deus.

Uma obra de fôlego impressionante que vai sendo contada em um crescendo. Mike Carey domina a arte do clímax literário.

Sandman - Estação das brumasNão é um quadrinho para ler fora de ordem.É uma novela mesmo. E das boas.

A quem interessar, tem que começar com a obra do Sandman “Estação das Brumas” (que se situa ali pelo meio da série de Sandman) e depois partir para o título solo de “Lúcifer”, com os 75 números na ordem. Tudo tem ligação na saga e referências entre diálogos dos primeiro números com acontecimentos da parte final são abundantes.

Um personagem atormentado de dúvidas, mas que não permite que elas o travem. Ao contrário, estas o impelem sempre a agir, atuar e criar. Nietzsche em estado bruto. Não tenho como esconder minha preferência. É a melhor série de quadrinhos já produzida.

A série foi posteriormente adaptada para a televisão em um seriado fraco, sem substância e que em nada lembra os quadrinhos.

Zygmunt Bauman: mundo de incertezas 

A incerteza foi sempre o chão familiar da escolha.

A incerteza é o habitat natural da vida humana – ainda que a esperança de escapar da incerteza seja o motor de atividade de atividades humanas. Escapar da incerteza é um ingrediente fundamental presumido, de todas e quaisquer imagens compósitas da felicidade genuína, adequada e total sempre parece residir em algum lugar à frente: tal como o horizonte, que recua quando se tenta chegar mais perto dele.

Zygmunt Bauman