Nietzsche e a função da arte 

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Nietzsche: os erros dos homens 

Os Quatro Erros

A educação do homem foi feita pelos seus erros: em primeiro lugar, ele nunca se viu senão imperfeitamente; em seguida, atribuiu-se qualidades imaginárias; em terceiro, sentiu-se em relações falsas diante da natureza e do reino animal; em quarto, nunca deixou de inventar tábuas do bem sempre novas e tomou cada uma delas durante um certo tempo como eterna e absoluta, de tal maneira que o primeiro lugar foi ocupado sucessivamente por este ou aquele instinto ou este ou aquele estado que enobrece esta apreciação. 

Ignorar o efeito destes quatro erros é suprimir a humanidade, o humanitarismo e a «dignidade humana». 

Friedrich Nietzsche, in ‘A Gaia Ciência’

Nietzsche e os mistérios  

“A verdadeira questão é: Quanta Verdade consigo Suportar?”

Em Ecce Homo.


“O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.”

 Em Assim Falou Zaratustra
” Os povos só são tão enganados porque procuram sempre um enganador, isto é,um vinho excitante para seus sentidos.”

Em Aurora
 “Nenhum vencedor acredita no acaso.”                                                    Friedrich Nietzsche           

Explicando os conceitos: amor fati em Nietzsche 

SOBRE O AMOR FATI

“Amor fati: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz sim!”

Nietzsche, Gaia Ciência, 276.

“Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo,(…) mas amá-lo..”

Nietzsche, Ecce Homo.

Explicando os conceitos:

O amor fati em Nietzsche é a sua fórmula para uma reconciliação com o Real.

E isso pode ter consequências positivas e negativas em igual monta, apesar das últimas passarem quase sempre despercebidas.

Devemos lembrar que o filósofo atacava visceralmenre os grandes sistemas de pensamentos que tentavam criar utopias, fossem elas religiosas ou laicas.

Nietzsche direcionava  suas críticas sobretudo contra o cristianismo, que via como o símbolo máximo da idéia tiranizadora que retirava o homem do mundo das sensações, do mundo real, colocando como pecado a vida vivida e buscando sempre uma idéia utópica, castradora dos sentidos e gozos mundanos – para ele, os únicos verdadeiros.

Assim, o  cristianismo era identificado por Nietzsche como o ápice do niilismo. Devemos nos lembrar que Nietzsche dava um significado particular  ao niilismo.   Aqui, niilismo é visto como a negação da vida real, de prazeres e sensações.

O amor fati seria então abraçar o mundo real com seus dados de dores e prazeres. Não negar coisa alguma. Nada do que seja humano deve ser pecaminoso. O próprio pecado não existe porque não há transcendência religiosa alguma para julgar nada.  O amor fati é o símbolo do homem que diz sim para as sensações do mundo e o abraça como ele é.

Mas o ataque ao niilismo de nietzsche também abarca os ideais laicos.

Nietzsche defendia que ideologias laicas que postulavam utopias também retiravam o homem de uma possibilidade de reconciliação com o real.

Assim, lemos trechos de ataque a ideais democráticos e igualitários que causam profundo estranhamento e desconforto para um leitor contemporâneo.

Devemos sempre ler Nietzsche colocando o pano de fundo de suas idéias como um todo: o filósofo não acreditava  na igualdade entre as pessoas; seus textos defendem uma postura altiva, que ultrapassa as crenças do homem médio e que cria castas entre as pessoas. Nietzsche postula uma visão aristocrática e desigual entre os homens.

Uma lógica de pensamento como essa ataca imediatamente as idéias de igualdade e democracia porque elas justamente querem modificar a estrutura desigual do mundo. Pelo mesmo motivo, Nietzsche desacreditava do socialismo e mesmo do feminismo.

Defender um mundo desigual como ele ja é – e abraçá-lo – leva a atacar todos que querem transformá-lo. Nada querer atrás de si ou para frente também pode acarretar um imenso imobilismo político e social. Quando a única negação é desviar o olhar, chega-se muito próximo da conivência com o opressor.

As possíveis  interpretações do amor fati continuam.

Há quem leia o amor fati de forma mais restritiva e como forma de reagir e agir na vida pessoal.

Para essa visão, o amor fati não engloba grandes paisagens sociais e lutas políticas, mas apenas uma postura individual de como encarar a vida.

Assim, o amor fati seria quase uma régua de medição dos fatos da vida e um compasso para direcionar as ações . Entender e aceitar as dores e frustrações.  Receber e amar os prazeres. Viver as experiências. Não fugir das sensações do mundo. Passar pela experiência humana tentando expressar toda a sua potência interior. Transformar-se naquilo que você pode e deve ser, sem aceitar limites impostos pela tradição ou por preconceitos.

Nesta leitura, o amor fati transforma-se quase em uma filosofia de vida. Uma mola propulsora para galvanizar todas as energias que cada um pode agenciar dentro de si. Ser ativo ao invés de reativo. Criativo ao invés de passivo. Receptivo ao invés de frio.

Particularmente, é com esse significado que eu tento aplicar o amor fati no meu dia a dia.

– Manuel Sanchez , editor do Blog Opinião Central