Nietzsche: o homem histórico e as verdades absolutas 

O defeito hereditário dos filósofos é partir do homem atual e acreditar que, analisando-o, alcançam seu objetivo. 

Imaginam, involuntariamente, como uma verdade eterna, como uma medida segura das coisas. Mas tudo o que o filósofo declara sobre o homem, no fundo, não passa de testemunho sobre o homem de um espaço de tempo bem limitado. 

Falta de sentido histórico é o defeito hereditário de todos os filósofos. Não querem aprender que o homem veio a ser, e que mesmo a faculdade cognitiva veio a ser… mas tudo veio a ser, não existem fatos eternos: assim como não existem verdades absolutas. 

Portanto, o filosofar histórico é doravante necessário, e com ele a virtude da modéstia.”

NIETZSCHE

Abaixo: Goya, “Cronos devorando seus filhos “

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Aforismos de nietzsche, parte 2

1. Quereis um nome para esse mundo? Uma solução para todos os seus enigmas? Uma luz também para vós, os mais escondidos, os mais fortes, os mais intrépidos, os mais da meia-noite? – Esse mundo é a vontade de potência – e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência – e nada além disso!

2. Não é verdade que o meu livro oferece bom aspecto? Mas não haverá poucos que o entendam? São, na realidade, tão obscuros e incompreensíveis os meus escritos? Eu pensava que, ao falar da dor, seria entendido pelos que sofrem. Isto é seguramente certo; mas onde estão os que sofrem?

3. Nenhum vencedor acredita no acaso.

4. Não peço demasiado à vida; não lhe peço abundância supérflua; mas, em troca, espero que nos próximos anos viveremos algo que nos será invejado pelo passado e pelo futuro.

5. Sobra-nos egoísmo. Um egoísmo produzido pelo nosso eterno pensar em nós próprios, e pelo nosso contínuo sofrer por nós próprios, coisas que acabam por dar-nos a sensação de ter cem feridas mal curadas, de tal modo cada movimento nos causa uma dor aguda

6. Procuro somente um pouco de liberdade, de verdadeira atmosfera vital, e defendo-me e revolto-me contra o muito, indizivelmente muito, que me aprisiona.

— Friedrich Nietzsche em Despojos de uma tragédia.

Mais aforismos do filósofo do Martelo clicando aqui!

 

Resenha: Assim falou Zaratustra – Nietzsche

E após alguns anos, voltei a reler o “Assim falou Zaratustra” de Nietzsche.

Sem dúvida alguma é o livro mais famoso do filósofo, verdadeiro bestseller no gênero da filosofia. E após essa releitura posso afirmar com convicção que não deveria ser a leitura inicial de ninguém no pensamento de Nietzsche. Cometi esse erro no passado e não aproveitei a obra como deveria na ocasião (o que me afastou do autor por um bom tempo).

A obra é escrita em uma linguagem cheia de simbolismos, lirismo e poesia, às vezes emulando um estilo bíblico e acompanha a jornada de Zaratustra, saindo do habitat isolado de sua caverna na montanha e desejoso de dividir seus pensamentos com os homens da planície. Ao longo da história, o pregador encontra-se com inúmeras pessoas, resistências múltiplas, aprendizes e escárnio público.

O Zaratustra, obviamente, é o próprio Nietzsche e suas parábolas e aforismos trazem em síntese o pensamento do filósofo sobre a necessidade de solidão, a pobreza de pensamento encontrada no povo, a estupidificação dos costumes, a necessidade da criação individual de força interior, apregoando o desprezo pelos fracos e a desigualdade que ele considera justa para aqueles que se distinguem por suas características diferenciadas e especiais.

Zaratustra explicará sua noção de super-homem (a superação do homem atual e seus valores morais, abraçando a autonomia), a morte de Deus (e a necessidade de superar o pensamento religioso e de mentalidade servil ou de proteção dos fracos contra os fortes) e a vivência do eterno retorno (encontrando sua verdadeira natureza e vivendo de forma a ter esse prazer e felicidade constante por ser e fazer aquilo que de fato é a sua identidade, querendo assim que essa sensação e experiência nunca terminem).

Todos esses valores são encontrados de forma mais direta e objetiva em outros livros e, por vezes, a falta de contato anterior com o pensamento do autor pode dificultar a compreensão do Zaratustra que é escrito em uma linguagem mais rebuscada. Daí explica-se não ser este o livro indicado para o leitor iniciante na obra do filósofo.

Nietzsche é um filósofo que nada profundamente contra a idéia de igualdade. Seu pensamento é elitista, desprezando a solidariedade com os mais fracos. Combate os paradigmas e criações salvacionistas seja pela religião, pela política ou pelo racionalismo. Para ele, são estes pensamentos ideológicos os verdadeiros pensamentos niilistas, que negam a vida presente e jogam o ser humano em falsidades e o afastam da vida real. Vitalista, apregoa a necessidade de vivermos ancorados no presente, assumindo os prazeres e as dificuldade da vida neste plano, sem esperanças de transcendências metafísicas ou políticas. Encontramos em Zaratustra o ataque ao pensamento de manada, abraçando a subjetividade mas entendendo que não existe verdadeiramente um livre arbítrio, uma vez que não temos plena consciência e nem mesmo controle dos inúmeros fluxos que passam em nossa mente.

Sem dúvida, Nietzsche é um autor absurdamente interessante para se conhecer e ler. A viagem pelo seu Zaratustra foi uma verdadeira odisséia repleta de meditações. Seus insights são profundos e quebram paradigmas estabelecidos, que consideramos default e consequentemente nos levam a uma autocritica constante.

Se a frieza com que trata os mais fracos e necessitados choca o leitor, também encontramos na obra a mola propulsora para o desenvolvimento da própria força e capacidade individual.

O Zaratustra é uma obra-prima seja pelo estilo poético, seja pelo resumos aforístico que faz dos grandes eixos do pensamento de Nietzsche. Não é de fácil leitura e é aconselhável que esteja-se familiarizado com suas idéias para o seu proveito integral.

Mas é indiscutível que deve estar na sua lista de leituras.

– Manuel Sanchez

 

Explicando os conceitos – Nietzsche : a morte de Deus 

Explicando os conceitos: Deus está morto

Uma passagem famosa e mal compreendida do filósofo Nietzsche refere-se à morte de Deus. O trecho reproduzido a seguir traz esse trecho de imensa beleza literária e profundo impacto filosófico e existencial. 

Para Nietzsche, Deus é a maior muleta inventada pelo homem. O homem que teme a vida que ocorre agora – neste instante – estando sempre jogando seus sonhos, anseios e esperanças para um futuro longínquo ou mesmo para outra vida, além do túmulo. Nietzsche desconfia de toda e qualquer ideologia, religião ou guru que traga respostas prontas, verdades absolutas, revelações transcendentes. Pouco importa se estamos de fato falando de religiões  ou de ideologias laicas para o filósofo, ele chama de “Deus” a idéia de que alguma outra coisa, energia, grupo ou entidade virá resolver nossos problemas – nesta ou em outra vida.

O verdadeiro homem – o super-homem nietzschiano – é alguém que abandona as muletas. Nega a transcendência. Afasta-se dos gurus. Dá as costas para as verdades absolutas. Não se filia a ideologias que lhe tragam as explicações do mundo empacotadas e com respostas prontas. Esse homem que não precisa mais de muletas e desconfia de tudo aquilo que nega a vida – a vida aqui, agora, completamente plena neste instante que vivemos hoje – não precisa mais de um deus. Nietzsche defendia que deveríamos nos transformar em super-homens. Para então, podermos afirmar que não precisamos mais de muletas. Deus está morto.       

(Manuel Sanchez)

 

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A Morte de Deus (Nietzsche)

O homem Louco. 

– Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? 

– E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós os matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!”

 Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. 

Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram! – 

Conta-se também no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas , e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternaum deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”.

Aforismo 125 – Friederich Nietzsche – Gaia Ciência

Sugestão de ordem de leitura para Nietzsche

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Comecei a ler Nietzsche pela ordem errada. Equívoco comum de iniciar pelo livro mais famoso e também o mais embaçado. Recentemente escrevi uma resenha de “Assim falou Zaratustra” onde contei sobre isso e minhas impressões sobre o livro e o autor (clique aqui para ler ).

Várias pessoas perguntam sobre uma ordem razoável para iniciar suas leituras e esse post tem como objetivo auxiliá-las. Ele já havia sido publicado antes, mas eu achei melhor revisitá-lo e alterar um pouco a ordem anterior indicada.

Fica sempre o aviso de que Nietzsche não é um autor que escreve de forma direta. Às vezes um raciocínio é largado no meio para ser retomado páginas depois. Outras ocasiões existem poesias e aforismos no meio de um texto mais longo. Dependendo da obra ele escreve por parábolas. Não existe um compromisso com a didática e o filósofo não está preocupado em pegar ninguém pela mão para ser entendido.

Espera-se que seu leitor esteja disposto a entrar em contato com eixos de pensamento por vezes insensíveis aos padrões de moral costumeiros. Deve-se entender o homem e sua época, com seus insights profundos e seus preconceitos. É uma leitura que coloca o leitor em conflito com suas zonas de conforto estabelecidas pela tradição, mas que também exige filtragem e parcimônia com passagens muitas vezes insensíveis e que desprezam a solidariedade e os avanços democráticos. 

Nietzsche é um elitista: despreza a idéia democrática e afasta-se da multidão. Defende os fortes, é frio com os fracos e humildes, apregoa que o ser humano deve desenvolver-se e ser autosuficiente, despreza transcendências religiosas e grandes ideologias políticas, ensina a viver o presente e a não se conformar com nada menos que uma vida plena (clique nos links para ir aos textos do blog que tratam desses assuntos).  Para ele o ser humano é algo em construção, destinado a se fortalecer, abandonar tradições velhas e criar novos valores abraçando a vida sem muletas metafísicas ou supersticiosas.    

Apesar de seus aforismos serem material farto para memes e fotos coloridas na Internet (e esse blog usa muitas delas também), Nietzsche não é um autor para se conhecer por frases soltas e sem contexto

Vamos começar pelas obras menos viajantes e mais didáticas e seguir para o mais complicado e enigmático.

1. Crepúsculo dos Ídolos (principalmente o capítulo “O problema Sócrates” que deveria ser a primeira leitura na obra do autor e já deixa claro aquilo que Nietzsche vai combater em todos os seus livros) 

2. Para além do bem e do mal

3. Vontade de Potência

4. A Gaia Ciência  

5. Humano demasiadamente Humano (parte I e II) 

6. Genealogia da Moral 

7. O anticristo

8. Aurora

9.  Ecce hommo  

10. Assim falou Zaratustra (a obra-prima de Nietzsche mas escrito em parábolas, simbolismos e que exige do leitor um conhecimento prévio de seu raciocínio)

Boas leituras
Manuel Sanchez