Nietzsche: andarilho no mundo

Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra — e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe.

Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem.

Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar.

Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão — e o dia será quase pior do que a noite.

Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos.

Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: — eles buscam a filosofia da manhã.

— Friedrich Nietzsche, em Humano, Demasiado humano – aforismo 638.

Abaixo: William Blake, 1805, O grande dragão vermelho e a fera do mar

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O Eterno Retorno — interpretação livre de Antônio Abujamra

A interpretação e leitura feitos por Abujamra da nota do eterno retorno de Nietzsche. 

A explicação do conceito pode ser encontrada no nosso post neste link.

Nietzsche: o homem histórico e as verdades absolutas 

O defeito hereditário dos filósofos é partir do homem atual e acreditar que, analisando-o, alcançam seu objetivo. 

Imaginam, involuntariamente, como uma verdade eterna, como uma medida segura das coisas. Mas tudo o que o filósofo declara sobre o homem, no fundo, não passa de testemunho sobre o homem de um espaço de tempo bem limitado. 

Falta de sentido histórico é o defeito hereditário de todos os filósofos. Não querem aprender que o homem veio a ser, e que mesmo a faculdade cognitiva veio a ser… mas tudo veio a ser, não existem fatos eternos: assim como não existem verdades absolutas. 

Portanto, o filosofar histórico é doravante necessário, e com ele a virtude da modéstia.”

NIETZSCHE

Abaixo: Goya, “Cronos devorando seus filhos “

Aforismos de nietzsche, parte 2

1. Quereis um nome para esse mundo? Uma solução para todos os seus enigmas? Uma luz também para vós, os mais escondidos, os mais fortes, os mais intrépidos, os mais da meia-noite? – Esse mundo é a vontade de potência – e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência – e nada além disso!

2. Não é verdade que o meu livro oferece bom aspecto? Mas não haverá poucos que o entendam? São, na realidade, tão obscuros e incompreensíveis os meus escritos? Eu pensava que, ao falar da dor, seria entendido pelos que sofrem. Isto é seguramente certo; mas onde estão os que sofrem?

3. Nenhum vencedor acredita no acaso.

4. Não peço demasiado à vida; não lhe peço abundância supérflua; mas, em troca, espero que nos próximos anos viveremos algo que nos será invejado pelo passado e pelo futuro.

5. Sobra-nos egoísmo. Um egoísmo produzido pelo nosso eterno pensar em nós próprios, e pelo nosso contínuo sofrer por nós próprios, coisas que acabam por dar-nos a sensação de ter cem feridas mal curadas, de tal modo cada movimento nos causa uma dor aguda

6. Procuro somente um pouco de liberdade, de verdadeira atmosfera vital, e defendo-me e revolto-me contra o muito, indizivelmente muito, que me aprisiona.

— Friedrich Nietzsche em Despojos de uma tragédia.

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