Crônica: “Dia dos Mortos”

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Entrei na casa nova. Não era um lar. Talvez nunca fosse.

Estava mais para um esconderijo.

Liguei o som depositado no chão por falta de estante e um ritmo suave fez eco pelos quartos sem móveis. Alguma coisa de suave tinha que entrar naqueles aposentos. De bruto, bastavam meus pensamentos.

Sentia falta do beijo de boa noite. Sentia falta do abraço ao chegar de viagem e da pizza pedida à francesa para matar nossa fome. Mesmo as conversas sem fim, à distância,  durante a semana…

Aquele poderia ter sido nosso lar.

Estranho como uma pessoa te impulsiona durante anos a sair de uma situação congelada e quando a decisão é tomada, ela diz que não poderá aguentar a pressão de lidar contigo no momento de transição. Diabos… era aqui! Era aqui que começava! Disse tantas vezes que eu era covarde. E depois: fugiu.

Fico bebendo para colocar ordem nos pensamentos.

Minha amiga diz que estou vivendo dias de luto. Não tenho sido eu mesmo.

Luto.

Lembro da ex e de como ela está na cama com outro. Vivendo dias de carnaval. Uma troca que levou pouquíssimos dias. Tanto amor ela dizia…. nada. Lixo. Trocado sem nem olhar para trás. Em poucas horas.

Vivendo dias de carnaval.

Meu tudo não significava nada. Abri a porta de um lar e ela preferiu outro endereço para encontrar seus gozos. Fiquei com uma casa que não é um lar. E com passagens para uma viagem que nunca vai acontecer. Guardei as passagens como souvenir. 

Isso explica muito, afinal.

Luto. Carnaval.

Minha vida virou um maldito dia dos mortos mexicano.

 

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Crônica: “Sentimental”

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Eu sou um sentimental.

Detesto quando confundem e acham que sou carente. Não tenho nada de carente. Eu sou uma rocha. Eu sou um muro. Eu tenho um fosso sem fundo antes de deixar alguém bater no portão do castelo. E no fosso tem crocodilos. 

Por mim, explodiria essa porra inteira cheia de gente louca, estúpida e chata mergulhada em um mar de mediocridade até o pescoço. Eu não busco os outros. Não preciso de companhia de quem nada significa para mim para me manter são. Eu não quero ser simpático. Eu não preciso de aplausos. Não finjo nada em busca de afinidades vazias.

Mas eu sou sentimental. Adoro dar carinho. Gosto de cachorros. E do pôr-do-sol. Gosto de ler na varanda. De dividir uma tarde de charutos com amigos. Preciso do corpo dela encostado no meu à noite. Gosto do brilho do sol na água salgada. E dos olhos dela quando faíscam de desejo de manhã.

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Não tenho nada de carente. Eu sou uma porta fechada. De ferro. 

Eu não sou rude. Apenas ignoro quem não me acrescenta.

Acredito que sonhar faz a alma ficar mais leve. Mas depois tem que concretizar.  Não gosto de enrolação. Agita logo esse barco que a maré está subindo.

Eu sou sentimental. Gosto de fotos antigas de família. Me emociono quando recebo cartas. Acompanho de longe amigos com quem briguei no passado. Só convido à minha mesa as almas com quem me identifico.  

Não tenho nada de carente. Eu sou um soco inglês com ponta afiada.

Mas eu sou sentimental. Gosto dos beijos dela no meio do dia. Gosto dos olhos, seios e cintura no fim da noite. Corro com meus cachorros no fim da tarde. Ensino o moleque a nadar no fim de semana. Gosto de risadas. Das piadas.  Existem músicas que me dão um nó na garganta. Se a lágrima chegar, não finjo. Eu tenho saudades. Eu não escondo. 

Sou apenas um homem com carinho no peito.

E eu sou uma rocha. Uma muralha. Um castelo.   

— Sanchez

As opções do Caminho

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“Sempre que houver alternativas, tenha cuidado. Não opte pelo conveniente, pelo confortável, pelo respeitável, pelo socialmente aceitável, pelo honroso. Opte pelo que faz seu coração vibrar.   Opte pelo que gostaria de fazer, apesar de todas as consequências. ”    – Osho

Crônica: ” A Conquista Suave”

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Ela misturou o whiskey com o refrigerante exatamente na proporção que eu ensinei. E gelo. Muito gelo. 

Mas disse que achava um desperdício fazer aquilo com a bebida… Tudo bem, nada é perfeito.

O importante é que eu gostava assim. E assim ela fazia.

Ela se deixava conduzir e sussurrava nos meus ouvidos enquanto nos amávamos. Ela era obediente na cama.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

Depois de algumas vezes –  saciado –   peguei um charuto da caixa e acendi sorvendo as baforadas. Ela insistiu que queria experimentar também.

– Você não vai gostar.

Mas ela pedia igual uma criança. Passei o robusto.

Ela tinha curiosidade. E coragem. Tudo de novo que eu queria, ela queria também ou aceitava experimentar.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

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Os olhinhos dela se encheram de lágrimas quando a fumaça invadiu a sua boca. Começou a tossir e a engasgar e por fim me perguntou como eu podia gostar de me matar dessa forma.

– Existem formas piores de morte. Eu gosto das de tipo lento.

Ficamos ali naquela madrugada, enroscados no meio da cama, conversando. Por horas. Há muito tempo não conversava tanto com alguém. Existe um prazer na conversa que une um casal tanto quanto o sexo. Talvez até mais.

Ela dizia que gostava de me ouvir falar sobre os assuntos mais loucos. Ela achava meus interesses meio inusitados. Eu adorava o timbre da sua voz. E o som das risadas. A maneira como tudo se iluminava.   

Rindo, ela disse que meu estilo era curioso:  um retrô-psicodélico, meio cavalheiresco antiquado misturado com um bruto dispensável, totalmente perdido no tempo.

Lembrei que haviam me chamado de coisas muito piores recentemente: falso, cretino, covarde, duas caras… uma coleção de impropérios justamente quando havia me decidido pela mudança.

Larguei tudo para trás: casa, conforto, hábitos, rotina…na verdade, a primeira me largou, a segunda eu deixei. A terceira me colheu. Acho que para bom entendedor, isto basta.

Sua voz calma preencheu o quarto naquela madrugada que já virava uma  manhã rubra. Ela me convidou ao seu corpo novamente.

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Ela veio sobre mim obediente e receptiva, me amando a galopes e sem pudores, fazendo com que eu me sentisse sempre o mais vigoroso e potente.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

Fazia parte das suas Artes Mágicas criar a fantasia onde eu acreditava que estava no comando: que era ela a seduzida e eu o suposto conquistador.  

Nós dois sabíamos que eu nunca estive no comando de coisa alguma. Perdido e à deriva. Eu precisava de um farol e de um porto. 

Ela sabia que de forma suave, me conquistava. Ela sentia que se deixando conduzir, na verdade determinava meus passos. Se fingia obedecer, ela era quem mandava. Perguntando para onde eu queria ir, ela me guiou os passos.

Conseguiu de mim coisas que neguei por anos. Eu nem percebi quando aconteceu.

Calma e silenciosamente, com o Poder que só o comando exala,  ela mantinha a Ilusão de que o responsável pela conquista sempre havia sido eu.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

( Sanchez – ” A Conquista Suave”)

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Outras crônicas dessa série podem ser lidas em “A mulher que vestia o Fogo” ,  “A Dedicatória“, “Ao Teu Lado” e “Um pedaço de mim” 

Crônica: “A Dedicatória”

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Mais uma mala. Meu carro parecia um armário ambulante com roupas, livros e um velho videogame.

Mas pelo menos agora havia menos uma mala. Ainda tinha dúvidas se deveria deixar aquela mala ali. Minhas coisas já estavam todas espalhadas entre a casa do meu pai, a casa de amigos e o porta-malas do meu carro.

Subi as escadas do prédio dela imaginando que se esse tempo juntos  desse certo, teríamos que nos mudar para um apartamento maior. E com elevador.

Vários andares depois, meus braços doíam.

Ela abriu a porta vestindo um sorriso nos lábios.

E mais nada.

Como meu coração disparava…

Esqueci da mala. Esqueci da escada. E também do elevador.

Só via pele, boca, seios e os olhos de um gato que nos miravam desconfiados enquanto ela me amava a galope.

Depois, satisfeita, ela vestiu minha camisa. Arrumava os cabelos e sorria, capturando o ar.    

Como meu coração disparava…

Sim, eu tinha dúvidas. Tudo estava indo rápido demais. Confesso que nas últimas semanas eu não agia normalmente. Havia me jogado no risco sem rede de segurança e totalmente contra os meus instintos. A mudança me apavorava.

Cheia de alegria ela disse que havia limpado o armário para acomodar minhas coisas na “nossa casa”. Havia um prazer em cada sílaba daquela frase. E ela brincava com as palavras: nossa casa.

Eu me sentia bem, feliz de tê-la comigo nesse momento tão tumultuado. Rompimentos são difíceis. Ter ela ao meu lado me deixava mais forte. Mas era menos que um morador ali. Mais do que um hóspede, com certeza. Mas não era nossa.

Ela não se importava. Disse que tinha paciência. Havia esperado o momento certo até esse dia. Sim, ela tinha paciência. E confirmava: nossa.

Eu falava “sua televisão”, “seu chuveiro”, “suas chaves”, “suas toalhas”. Ela respondia sempre colocando “nossa tv”, “nosso chuveiro”, “nossa chave”, “nossas toalhas”… assim, como não quer nada e nem percebe o poder das palavras.

Ela sabia que eu dava valor a cada palavra.

Eu temi que a cada correção, ela duvidasse um pouquinho.

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No fundo, eu sabia que ela tinha medo que eu desistisse. Não seria a primeira. Ela foi minha confidente no passado. Ela sabia que eu havia desistido antes.

Eu a abracei. E a beijei como se antes dela nunca houvesse existido ninguém.

Ela aceitou meu beijo e meu corpo novamente. Mas eu sabia que no fundo, ela duvidava um pouquinho.  

De noite, eu tirei da mala um presente.

Era o primeiro presente que eu dava para ela. Bem, o primeiro nessa nova fase.

Um livro. Ela sabia que eu escolheria um título que significasse o nosso momento. Ela sabia que um livro mostraria meus sentimentos. 

Ela rasgou o embrulho sorrindo, deu um grito de felicidade quando viu o livro aberto em suas mãos, pensou e repensou sobre o título e depois disse um abafado “mas…”

– Não gostou? – eu disse confuso.

Ela fez um biquinho. Cara de choro. Voz manhosa.

– Você esqueceu a dedicatória… só é um presente de verdade se tiver uma dedicatória. Como vou saber que o presente veio de você?

Peguei uma caneta.

Olhei para ela. Lençol cobrindo os seios, cabelo solto, olhos brilhantes. Ansiosa.

Já havia dado tantos livros antes… mas ninguém me pedira uma dedicatória. Me pegou de surpresa.

No fundo, eu sabia que ela tinha medo que eu desistisse.

Como meu coração disparava…

Escrevi. Devolvi para ela.

Ela leu. Mordeu os lábios. Fez cara de choro e me abraçou tão apertado que não conseguíamos respirar.

Era uma dedicatória muito simples.

“Não é um presente.

Tome conta do primeiro livro da nossa biblioteca.

Vamos precisar de uma casa maior.”

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(Crônica “A Dedicatória” — Sanchez)