Crônica: Destrancando Ruas

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Saí  para a rua sozinho hoje.                                                             

Alguma coisa me chamava mas eu não identificava o quê. O pedido veio no vento. De início resisti. Mas por fim, eu fui.

Existem ocasiões em que encontro com o dono da encruzilhada. Há que saber respeitá-lo e prestar a devida homenagem.

Estranhas são as maneiras como ele se aproxima. E nem sempre são claras. Definitivamente, nunca são iguais. Ele tem múltiplos trajes e fala por muitas vozes.

Sempre avisa para que eu não atente nas palavras, mas que observe nas entrelinhas.

As palavras enganam. A força está na ação.

Eu o respeito. Sempre abriu meus caminhos quando mais precisei e me protegeu das emboscadas na vida. Sutil e astuto,  ele é conhecedor  das trilhas e picadas pelas matas do mundo.

Quando pergunto, ele responde. Mas não preste atenção nas palavras, ele diz,  olhe as entrelinhas.

Acendemos um charuto. A lua hoje está crescente.

Falamos sobre os movimentos e os ciclos. E ele anima esse mesmo sentimento em mim. Reconheço a centelha. No meio do ruído, ele me dá mais uma vez a sua benção.

Ele me ensina as rotas de fugas e os caminhos sem saída. E as trilhas. As servidões. As passagens. Preste atenção. Não se afaste.

Conversamos sobre a  desordem do mundo. E em diferentes vozes ele me explica que o controle e a posse são as últimas ilusões. Estagnar é perder. Se não puder correr, arraste-se. Mas siga em frente. Vestindo o preto da noite e o vermelho do fogo. As cores me caem bem.

Não se atente nas palavras. Leia as entrelinhas.

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Era culto a ponto de ser vaidoso. E belo a ponto de ser mau.

Falamos dos caminhos irrequietos do coração. Tome para si aquilo que te seduz. Não seja tímido. O mundo pertence aos que se abrem para ele.  

Ele me diz para abraçar com ardor as paixões. O Fogo abrirá os caminhos que são invisíveis para a mente. E serão nos gozos do corpo que irão serpentear as múltiplas searas da alma.

No início, eu achava que ele era o Mensageiro.

Hoje eu sei que ele é a própria Mensagem.

Quando dei por mim havíamos caminhado juntos por muitas ruas nesta noite. Abrimos trilhas. Fechamos passagens.

E todos os meus Caminhos estavam abertos.

Laroyê.

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Sanchez, “Destrancando Ruas”

Então vire semente

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“Então quando tudo morre é melhor pegar esses restos e plantar novamente.

De uma muda não sai uma planta nova?

Da semente não aparece uma árvore?

Vou plantar um novo jardim.

E cuidarei para que neste existam flores.

Sim.

Cuidarei”.

(“Virar Semente” – Sanchez)

Crônica: “Dia dos Mortos”

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Entrei na casa nova. Não era um lar. Talvez nunca fosse.

Estava mais para um esconderijo.

Liguei o som depositado no chão por falta de estante e um ritmo suave fez eco pelos quartos sem móveis. Alguma coisa de suave tinha que entrar naqueles aposentos. De bruto, bastavam meus pensamentos.

Sentia falta do beijo de boa noite. Sentia falta do abraço ao chegar de viagem e da pizza pedida à francesa para matar nossa fome. Mesmo as conversas sem fim, à distância,  durante a semana…

Aquele poderia ter sido nosso lar.

Estranho como uma pessoa te impulsiona durante anos a sair de uma situação congelada e quando a decisão é tomada, ela diz que não poderá aguentar a pressão de lidar contigo no momento de transição. Diabos… era aqui! Era aqui que começava! Disse tantas vezes que eu era covarde. E depois: fugiu.

Fico bebendo para colocar ordem nos pensamentos.

Minha amiga diz que estou vivendo dias de luto. Não tenho sido eu mesmo.

Luto.

Lembro da ex e de como ela está na cama com outro. Vivendo dias de carnaval. Uma troca que levou pouquíssimos dias. Tanto amor ela dizia…. nada. Lixo. Trocado sem nem olhar para trás. Em poucas horas.

Vivendo dias de carnaval.

Meu tudo não significava nada. Abri a porta de um lar e ela preferiu outro endereço para encontrar seus gozos. Fiquei com uma casa que não é um lar. E com passagens para uma viagem que nunca vai acontecer. Guardei as passagens como souvenir. 

Isso explica muito, afinal.

Luto. Carnaval.

Minha vida virou um maldito dia dos mortos mexicano.

 

Crônica: Hipócrita

HIPOCRITA

“Ela me olhou no fundo dos olhos e disparou:

– Andei lendo o que você escreve.

– E então, o que achou?

– Acho que você é um puta de um hipócrita. Não faz nada do que diz. Sua vida é uma bagunça! Você não fala sério.

Tomei outro gole do chopp e prendi o cigarro entre os lábios antes de responder.

– Olha, nós não abraçamos certos preceitos porque já os entendemos completamente ou os vivemos plenamente. Mas sim porque sentimos que eles são corretos. Na essência, entendeu? Mesmo com todos os defeitos e com todas as nossas falhas. Eu acredito no que eu escrevo. Eu acredito! Mesmo que não consiga praticar tudo. Eu tento. E acho mais! Tentando atingir esse ideal, o dia a dia vale mais a pena de ser vivido. Não morri ainda! Estamos só na metade da batalha. A cada dia, estou mais perto.

Ela pegou o copo da minha mão e tomou um gole do meu chopp. Ela era difícil de ler.

– Continuo te achando um puta de um hipócrita.

– Talvez eu seja. Mas mesmo assim você vai passar a noite comigo hoje.

Ela sorriu.

O chopp acabou.

Arremessei o cigarro longe antes de darmos um beijo.

Os cabelos dela tinham um cheiro doce. “

— Sanchez

 

Crônica: “Sentimental”

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Eu sou um sentimental.

Detesto quando confundem e acham que sou carente. Não tenho nada de carente. Eu sou uma rocha. Eu sou um muro. Eu tenho um fosso sem fundo antes de deixar alguém bater no portão do castelo. E no fosso tem crocodilos. 

Por mim, explodiria essa porra inteira cheia de gente louca, estúpida e chata mergulhada em um mar de mediocridade até o pescoço. Eu não busco os outros. Não preciso de companhia de quem nada significa para mim para me manter são. Eu não quero ser simpático. Eu não preciso de aplausos. Não finjo nada em busca de afinidades vazias.

Mas eu sou sentimental. Adoro dar carinho. Gosto de cachorros. E do pôr-do-sol. Gosto de ler na varanda. De dividir uma tarde de charutos com amigos. Preciso do corpo dela encostado no meu à noite. Gosto do brilho do sol na água salgada. E dos olhos dela quando faíscam de desejo de manhã.

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Não tenho nada de carente. Eu sou uma porta fechada. De ferro. 

Eu não sou rude. Apenas ignoro quem não me acrescenta.

Acredito que sonhar faz a alma ficar mais leve. Mas depois tem que concretizar.  Não gosto de enrolação. Agita logo esse barco que a maré está subindo.

Eu sou sentimental. Gosto de fotos antigas de família. Me emociono quando recebo cartas. Acompanho de longe amigos com quem briguei no passado. Só convido à minha mesa as almas com quem me identifico.  

Não tenho nada de carente. Eu sou um soco inglês com ponta afiada.

Mas eu sou sentimental. Gosto dos beijos dela no meio do dia. Gosto dos olhos, seios e cintura no fim da noite. Corro com meus cachorros no fim da tarde. Ensino o moleque a nadar no fim de semana. Gosto de risadas. Das piadas.  Existem músicas que me dão um nó na garganta. Se a lágrima chegar, não finjo. Eu tenho saudades. Eu não escondo. 

Sou apenas um homem com carinho no peito.

E eu sou uma rocha. Uma muralha. Um castelo.   

— Sanchez