Então vire semente

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“Então quando tudo morre é melhor pegar esses restos e plantar novamente.

De uma muda não sai uma planta nova?

Da semente não aparece uma árvore?

Vou plantar um novo jardim.

E cuidarei para que neste existam flores.

Sim.

Cuidarei”.

(“Virar Semente” – Sanchez)

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Crônica: “Dia dos Mortos”

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Entrei na casa nova. Não era um lar. Talvez nunca fosse.

Estava mais para um esconderijo.

Liguei o som depositado no chão por falta de estante e um ritmo suave fez eco pelos quartos sem móveis. Alguma coisa de suave tinha que entrar naqueles aposentos. De bruto, bastavam meus pensamentos.

Sentia falta do beijo de boa noite. Sentia falta do abraço ao chegar de viagem e da pizza pedida à francesa para matar nossa fome. Mesmo as conversas sem fim, à distância,  durante a semana…

Aquele poderia ter sido nosso lar.

Estranho como uma pessoa te impulsiona durante anos a sair de uma situação congelada e quando a decisão é tomada, ela diz que não poderá aguentar a pressão de lidar contigo no momento de transição. Diabos… era aqui! Era aqui que começava! Disse tantas vezes que eu era covarde. E depois: fugiu.

Fico bebendo para colocar ordem nos pensamentos.

Minha amiga diz que estou vivendo dias de luto. Não tenho sido eu mesmo.

Luto.

Lembro da ex e de como ela está na cama com outro. Vivendo dias de carnaval. Uma troca que levou pouquíssimos dias. Tanto amor ela dizia…. nada. Lixo. Trocado sem nem olhar para trás. Em poucas horas.

Vivendo dias de carnaval.

Meu tudo não significava nada. Abri a porta de um lar e ela preferiu outro endereço para encontrar seus gozos. Fiquei com uma casa que não é um lar. E com passagens para uma viagem que nunca vai acontecer. Guardei as passagens como souvenir. 

Isso explica muito, afinal.

Luto. Carnaval.

Minha vida virou um maldito dia dos mortos mexicano.

 

Crônica: “Sentimental”

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Eu sou um sentimental.

Detesto quando confundem e acham que sou carente. Não tenho nada de carente. Eu sou uma rocha. Eu sou um muro. Eu tenho um fosso sem fundo antes de deixar alguém bater no portão do castelo. E no fosso tem crocodilos. 

Por mim, explodiria essa porra inteira cheia de gente louca, estúpida e chata mergulhada em um mar de mediocridade até o pescoço. Eu não busco os outros. Não preciso de companhia de quem nada significa para mim para me manter são. Eu não quero ser simpático. Eu não preciso de aplausos. Não finjo nada em busca de afinidades vazias.

Mas eu sou sentimental. Adoro dar carinho. Gosto de cachorros. E do pôr-do-sol. Gosto de ler na varanda. De dividir uma tarde de charutos com amigos. Preciso do corpo dela encostado no meu à noite. Gosto do brilho do sol na água salgada. E dos olhos dela quando faíscam de desejo de manhã.

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Não tenho nada de carente. Eu sou uma porta fechada. De ferro. 

Eu não sou rude. Apenas ignoro quem não me acrescenta.

Acredito que sonhar faz a alma ficar mais leve. Mas depois tem que concretizar.  Não gosto de enrolação. Agita logo esse barco que a maré está subindo.

Eu sou sentimental. Gosto de fotos antigas de família. Me emociono quando recebo cartas. Acompanho de longe amigos com quem briguei no passado. Só convido à minha mesa as almas com quem me identifico.  

Não tenho nada de carente. Eu sou um soco inglês com ponta afiada.

Mas eu sou sentimental. Gosto dos beijos dela no meio do dia. Gosto dos olhos, seios e cintura no fim da noite. Corro com meus cachorros no fim da tarde. Ensino o moleque a nadar no fim de semana. Gosto de risadas. Das piadas.  Existem músicas que me dão um nó na garganta. Se a lágrima chegar, não finjo. Eu tenho saudades. Eu não escondo. 

Sou apenas um homem com carinho no peito.

E eu sou uma rocha. Uma muralha. Um castelo.   

— Sanchez

As opções do Caminho

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“Sempre que houver alternativas, tenha cuidado. Não opte pelo conveniente, pelo confortável, pelo respeitável, pelo socialmente aceitável, pelo honroso. Opte pelo que faz seu coração vibrar.   Opte pelo que gostaria de fazer, apesar de todas as consequências. ”    – Osho

Crônica: ” A Conquista Suave”

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Ela misturou o whiskey com o refrigerante exatamente na proporção que eu ensinei. E gelo. Muito gelo. 

Mas disse que achava um desperdício fazer aquilo com a bebida… Tudo bem, nada é perfeito.

O importante é que eu gostava assim. E assim ela fazia.

Ela se deixava conduzir e sussurrava nos meus ouvidos enquanto nos amávamos. Ela era obediente na cama.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

Depois de algumas vezes –  saciado –   peguei um charuto da caixa e acendi sorvendo as baforadas. Ela insistiu que queria experimentar também.

– Você não vai gostar.

Mas ela pedia igual uma criança. Passei o robusto.

Ela tinha curiosidade. E coragem. Tudo de novo que eu queria, ela queria também ou aceitava experimentar.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

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Os olhinhos dela se encheram de lágrimas quando a fumaça invadiu a sua boca. Começou a tossir e a engasgar e por fim me perguntou como eu podia gostar de me matar dessa forma.

– Existem formas piores de morte. Eu gosto das de tipo lento.

Ficamos ali naquela madrugada, enroscados no meio da cama, conversando. Por horas. Há muito tempo não conversava tanto com alguém. Existe um prazer na conversa que une um casal tanto quanto o sexo. Talvez até mais.

Ela dizia que gostava de me ouvir falar sobre os assuntos mais loucos. Ela achava meus interesses meio inusitados. Eu adorava o timbre da sua voz. E o som das risadas. A maneira como tudo se iluminava.   

Rindo, ela disse que meu estilo era curioso:  um retrô-psicodélico, meio cavalheiresco antiquado misturado com um bruto dispensável, totalmente perdido no tempo.

Lembrei que haviam me chamado de coisas muito piores recentemente: falso, cretino, covarde, duas caras… uma coleção de impropérios justamente quando havia me decidido pela mudança.

Larguei tudo para trás: casa, conforto, hábitos, rotina…na verdade, a primeira me largou, a segunda eu deixei. A terceira me colheu. Acho que para bom entendedor, isto basta.

Sua voz calma preencheu o quarto naquela madrugada que já virava uma  manhã rubra. Ela me convidou ao seu corpo novamente.

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Ela veio sobre mim obediente e receptiva, me amando a galopes e sem pudores, fazendo com que eu me sentisse sempre o mais vigoroso e potente.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

Fazia parte das suas Artes Mágicas criar a fantasia onde eu acreditava que estava no comando: que era ela a seduzida e eu o suposto conquistador.  

Nós dois sabíamos que eu nunca estive no comando de coisa alguma. Perdido e à deriva. Eu precisava de um farol e de um porto. 

Ela sabia que de forma suave, me conquistava. Ela sentia que se deixando conduzir, na verdade determinava meus passos. Se fingia obedecer, ela era quem mandava. Perguntando para onde eu queria ir, ela me guiou os passos.

Conseguiu de mim coisas que neguei por anos. Eu nem percebi quando aconteceu.

Calma e silenciosamente, com o Poder que só o comando exala,  ela mantinha a Ilusão de que o responsável pela conquista sempre havia sido eu.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

( Sanchez – ” A Conquista Suave”)

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Outras crônicas dessa série podem ser lidas em “A mulher que vestia o Fogo” ,  “A Dedicatória“, “Ao Teu Lado” e “Um pedaço de mim”