“A morte de Sócrates”  – Discutindo filosofia e passeando no museu

“A morte de Sócrates”  de David. Gosto demais desse quadro! Ele está  exposto no Metropolitan de Nova York.

As circunstâncias da morte de Sócrates é que despertaram em Platão a necessidade de escrever e discutir filosofia, moral e ética (para mais detalhes sobre as circunstâncias históricas do julgamento acesse nosso post anterior aqui).

Não teríamos acesso ao corpo filosófico platônico não  fosse a condenação injusta de Sócrates à morte e posteriormente sua negativa de fugir ou viver em exílio. Ao longo do relato platônico, encontramos um Sócrates que cumpre o ritual do julgamento público, atesta seu equívoco sem receio, aceita a lei da pólis e submete-se à sua pena mesmo tendo a chance de fugir posteriormente. Momentos antes de morrer está na cela dando aula aos seus discípulos.

O início da discussão moral na filosofia  ocidental começa com um texto arrebatador sobre um julgamento que discute os erros da Justiça pública, coloca a ética sendo deslocada de uma norma transcendente para um acordo consensual da coletividade, atesta o imperativo do senso de dever, a necessidade do pensamento crítico,  firma a aceitação de quem se é ainda que viole o costume da maioria e coloca na mesa o tema tabu do suicídio.

Como já disseram anteriormente, “toda a história da filosofia ocidental resume-se a uma série de notas de rodapé à obra de Platão” (Alfred Whitehead).

 

– Manuel Sanchez

O Mito da Caverna de Platão explicado em Matrix e por José Saramago.

O mito  da caverna é uma das passagens mais clássicas da história da Filosofia, sendo parte constituinte do livro  “A República” onde Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal que, aos olhos de hoje, possui tintas claramente totalitárias e de controle estatal extremo sobre a vida dos cidadãos.

A narrativa da caverna expressa a imagem de prisioneiros que desde o nascimento são acorrentados no interior de uma caverna de modo que olhem somente para uma parede iluminada pela luz exterior que passa por uma fresta. Aqueles que vivem aprisionados só conhecem as sombras projetadas na parede da caverna e acreditam que esta é toda a realidade. E ouvindo os sons que vem de fora da caverna, associam tais sons equivocadamente às sombras. 

Um dos prisioneiros consegue se soltar e sair da caverna.  Ao sair, a luz do sol ofusca sua visão imediatamente e só depois de muito habituar-se com a nova realidade, pode voltar a enxergar e admirar as maravilhas dos seres e formas de fora da caverna. Percebe que aqueles seres tinham mais qualidades do que as sombras, sendo, portanto, mais reais. Finalmente associa verdadeiramente os sons aos seres e às situações que as originaram.

Maravilhado com esse novo mundo e com o conhecimento que então passa a ter da realidade, esse ex-prisioneiro lembra-se de seus antigos amigos no interior da caverna e da vida que lá levavam envolvidos em ignorância e falsas percepções. Imediatamente, volta à caverna para contar aos seus antigos pares do novo mundo que descobriu.

No entanto, como os ainda prisioneiros não conseguem vislumbrar senão a realidade que presenciam, debocham de seu colega liberto, dizendo-lhe que está louco. Como ele insiste em suas idéias e descobertas, os prisioneiros declaram  que se não parasse com suas maluquices acabariam por matá-lo.

Essa bela alegoria reflete como somos iludidos e completamente afastados da realidade, assumindo por verdadeiro aquilo que são apenas sombras e ecos. Quando nos libertamos da mediocridade reinante e passamos a verdadeiramente a pesquisar, estudar e refletir, somos como o ex-prisioneiro que finalmente sai da caverna e entra em contato com o mundo exterior. Primeiro ficamos cegos com tanta luz. Posteriormente, passamos a discernir melhor as formas e as coisas. Invariavelmente, aquele que enxerga uma nova faceta da realidade e se livra do ranço da ignorância, tende a querer levar essa novidade para seus pares. Neste caso, como o ex-prisioneiro que volta à caverna, prepare-se para receber críticas, falta de compreensão e mesmo a ira de seus antigos pares. 

No filme Matrix, sem dúvida um dos melhores filmes de sci-fi dos últimos tempos, a discussão da alegoria da caverna platônica permeia toda a história. Na série, vivemos em uma realidade virtual criada pelas máquinas, acreditando piamente que nosso entorno é o mundo real; assim como os prisioneiros da caverna que só enxergam as sombras e assumem que essa é toda a realidade. Alguns poucos conseguem perceber essa realidade criada pelas máquinas dominantes e enxergar o mundo como é. E por fim, voltam voluntariamente à caverna (o mundo virtual) na tentativa de despertar os demais prisioneiros (prisioneiros do mundo virtual e de uma vida de mentira). Enquanto alguns aceitam a libertação, alguns dos prisioneiros lutarão incessantemente para permanecer no mundo virtual de ilusão.

O segundo vídeo traz uma análise de Saramago sobre o nosso mundo atual midiático e alicerçado em imagens que criam a realidade reinante em nossas mentes. Somos inundados por fatos e imagens que forçam e moldam nossa interpretação do mundo. Interpretação essa que é normalmente acrítica e superficial. Para o autor português, o mundo digital moderno e de informações transbordantes é fraco em análise e em substância. Pouco refletimos, pouco pensamos e assumimos a realidade que nos é mostrada em doses cavalares tais como os prisioneiros da caverna. 

 

Machado de Assis e o dualismo platônico 

Machado de Assis tinha essa incrível habilidade de pegar conceitos sofisticados e transpô-los para contos ou passagens de suas novelas.

Neste trecho, o bruxo do Cosme Velho explica o dualismo platônico do corpo-alma com sua ironia fina.

-Manuel Sanchez 

“A idéia do Ezequiel Maia era achar um mecanismo que lhe permitisse rasgar o véu ou revestimento ilusório que dá o aspecto material às coisas. Ezequiel era idealista. Negava abertamente a existência dos corpos. Corpo era uma ilusão do espírito, necessária aos fins práticos da vida, mas despida da menor parcela de realidade. 

Em vão os amigos lhe ofereciam finas viandas, mulheres deleitosas, e lhe pediam que negasse, se podia, a realidade de tão excelentes coisas. Ele lastimava, comendo, a ilusão da comida; lastimava-se a si mesmo, quando tinha ante si os braços magníficos de uma senhora. 

Tudo concepção do espírito; nada era nada. 

Esse mesmo nome de Maia não o tomou ele, senão como um símbolo. Primitivamente, chamava-se Nóbrega; mas achou que os hindus celebram uma deusa, mãe das ilusões, a que dão o nome de Maia, e tanto bastou para que trocasse por ele o apelido de família.”

Machado de Assis, no conto “A idéia do Ezequiel Maia”

Explicando os conceitos: o totalitarismo em Platão

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Platão não demanda grandes apresentações. Filósofo grego do século IV a.C, oriundo de família helênica nobre e rica, discípulo de Sócrates (abordado neste link), fundador da renomada Academia, centro de estudos que permaneceu em atuação até os primeiros séculos da era Cristã e cujo nome se tornou sinônimo de local dedicado a estudos avançados.

Ao contrário de diversos outros estudiosos do período, de cuja obra só sabemos através de pequenos trechos sobreviventes e graças a menções feitas em obras de terceiros, o trabalho de Platão chegou razoavelmente completo até nossos tempos.

Seus títulos estruturam-se em diálogos escritos anos após a morte de Sócrates, sentenciado à morte em Atenas. Quase todos colocam seu antigo mestre como o personagem central dos debates.

Tendo em vista que Sócrates não deixou nenhum texto escrito, existe grande celeuma entre os estudiosos na separação de quais seriam as idéias do Sócrates histórico e quais seriam as extrapolações e pensamentos próprios de Platão, ditas através do personagem Sócrates.

Uma grande variedade de temas aparece nos textos platônicos como  ética, o mundo das ideias e seu reflexo no mundo material, a estruturação do Estado e da sociedade, lógica, o papel da educação etc…

Para nossa análise, interessam apenas as idéias de Platão sobre a estrutura do Estado e o papel de subjugação do cidadão, sobretudo expostas nas obras “A República” e “As Leis”. Juntas, essas obras delineiam um estado claramente totalitário.

Apesar de criado no berço do pensamento democrático, verificamos em Platão uma estrutura de pensamento que restringe o exercício do Poder a uns poucos, controla o livre fluxo de idéias, censura os pensamentos dissonantes e controla até mesmo o período fértil de homens e mulheres.

plataoO Estado surge devido à necessidade. Os homens têm suas necessidades e como não é possível que um homem domine todos os conhecimentos necessários à vida e à produção de bens, juntam-se pela conveniência da troca de produtos e serviços.

Para Platão, os cidadãos comuns, artífices e populares não estão preparados para discutir as altas decisões de Estado. Sua participação nas decisões sobre o Estado e a gestão da sociedade são nocivas, uma vez que movidos por paixões demagógicas ou interesses superficiais.

Sua visão é totalmente antidemocrática. Em Platão (pelas palavras colocadas na boca de Sócrates), defende-se a idéia que o povo não tem condições de se autogovernar e que, portanto,  é necessário que o poder seja exercido apenas pelos mais aptos, que irão guiar o restante pelo caminho correto.

Platão idealiza a sociedade dividida em castas. Na ponta da pirâmide social estariam os guardiões da cidade: uma classe de homens talhados para a liderança e para a tomada das decisões importantes da vida social. Para Platão, o filósofo/pensador deveria ser o guardião da cidade e comandar os outros homens. Somente um estudioso teria as condições, o discernimento e a sabedoria necessários para o julgamento justo e condução honesta do Estado. Percebe-se aqui o viés claramente aristocrático do estado platônico.

PlatãoA classe intermediária é a dos soldados\guerreiros. A classe inferior é a do cidadão comum do povo. Cada classe deve se destinar apenas a sua função e não se imiscuir nos assuntos da outra. A possibilidade de mobilidade social é diminuída, quase descartada.

Não por acaso, séculos depois, em plena Idade Média, as idéias platônicas sobre a divisão de poder e a organização da sociedade são retomadas e ressignificadas pela Igreja Cristã. A dogmática cristã medieval colocou a Igreja e seus clérigos no topo da liderança espiritual e da influência política (no papel do Rei Filósofo de Platão); seguidos do apoio da aristocracia como executores da vontade papal e o povo como a choldra restante.

O conceito é novamente ressignificado no marxismo de índole Lenilista e sua necessidade de existência de um grupo seleto de vanguarda que decidirão os rumos da Revolução Socialista e a conduta exigida pelos demais na busca do ideal da sociedade sem classes. Só os Reis Filósofos sabem os caminho, o povo não compreende coisa alguma e precisa ser guiado o tempo inteiro. O pensamento aristocrático encontra inúmeras roupagens na história.

Caberia a classe dos guardiões\filósofos também decidir o que deveria ser ensinado ao povo.

platao-004Lemos na República que Platão menciona Homero e os teatrólogos gregos relacionando trechos que deveriam ser apagados em uma versão editada. Em sua concepção, as obras artísticas poderiam  levar o povo a ter idéias más em relação ao estado e aos seus líderes.

Cabe ao governante decidir o que deve ser ensinado, optando por trechos e histórias edificantes e morais, eliminando assuntos de discórdia e que incentivem ou ilustrem as más paixões.

Assim, sugere que sejam apagados trechos da Iliada que mostrem lutas e discórdia entre os deuses e entre estes e os reis ou que mostrem os grandes reis mentindo ou enganando. Tais trechos não seriam edificantes ao povo. Platão chega a falar que os poetas deveriam ser aconselhados  ou mesmo forçados – se a primeira opção não surtir efeito – a seguir tais ditames.

Estamos falando de censura prévia e de castigos corporais para aqueles que não seguissem as normas estatais. Prenúncio das fogueiras de livros inapropriados, do Códex dos livros proibidos, da censura de material contrário aos interesses do Estado ou da perseguição e prisão de autores que divulguem ideologias dissonantes do poder central.

grecia_maior1Algo interessantíssimo sobre a educação: o ensino deve ser estendido a todos, independente do sexo.

Quando vemos notícias atuais sobre como meninas são atacadas por fundamentalistas porque desejam apenas estudar,  percebe-se que neste ponto Platão estava além de seu tempo. A situação da mulher é vista como algo mais que uma peça de reposição para gerar filhos. Não existe restrição para que as mulheres exerçam cargos de importância na cidade, desde que pertençam à classe dos guardiões dominantes. As crianças deveriam ser educadas de forma lúdica e nunca com violência.

A ideia de restrição aos bens privados e às fortunas individuais é também expressa com todas as letras. Para Platão, a propriedade deveria ser comunitária e nunca privada. O estado ideal  na “República” de Platão é socialista Ninguém deveria possuir mais do que seu semelhante e ataca-se o comércio como uma forma degenerada de contato com estrangeiros – classe também a ser evitada.

Décadas depois, no fim da vida, ao escrever “As Leis”, Platão modificou um pouco seu entendimento, havendo uma aceitação parcial da propriedade privada e da diferença de escalonamento das riquezas entre os homens. Chega ao ponto de defender como aceitável uma diferença entre as riquezas até o limite de05 vezes entre o mais pobre e o mais rico.

ZZ1E54E5D5Se é verdade que as mulheres poderiam ocupar cargos de administração, elas não eram inteiramente livres. Platão está longe de reconhecer a igualdade entre os sexos. As mulheres e as crianças devem ser vistas como um bem comum da cidade. A procriação entre os melhores homens e as melhores mulheres deveria ser estimulada como uma maneira de estimular o desenvolvimento de crianças mais fortes e inteligentes.

É o estímulo da eugenia com todas as letras. O Estado realizaria sorteios para escolher os pares a serem formados para terem as relações sexuais e gerar filhos. Platão defende que tais sorteios sejam discretamente direcionados, de forma que o maior número e as melhores parceiras sejam destinados para os guardiões\filósofos e para os soldados.

Os rebentos nascidos não seriam criados por seus pais, mas por um centro educacional da cidade, criadas por mulheres da cidade e amamentadas por amas de leite comunitárias. Ninguém saberia quem é seu filho e quem é seu pai; o que em sua opinião geraria um maior sentido de união entre todos os cidadãos da cidade.

O Estado controla a todos e determina, inclusive, a idade procriativa de homens e mulheres. As mulheres seriam utilizadas para gerar filhos dos 20 aos 40 anos; os homens até os 55 anos de idade. As pessoas que se unissem e gerassem filhos fora da idade determinada, ou mesmo na idade correta mas sem a autorização do Estado, teriam seus filhos considerados como indesejáveis. Liberdade de escolha de seu parceiro? Não. Liberdade de planejamento familiar? Muito menos. E a criança nascida pertence ao estado.

Enfrentando uma situação de guerra externa, é legitimo que a cidade governada por reis-filósofos se valha do auxilio de cidades que não sejam governadas pelos mesmos padrões de liderança. Neste ponto, Platão se rende ao que seria séculos depois chamado de real politik. Sugere  que se façam alianças com cidades menos sábias numa situação de guerra, entregando-lhes todo o ouro e riquezas do butim retirado da cidade adversária em troca de proteção ou auxílio na guerra.

7abd834cee28b73387d54ea109b965edA desconfiança do “outro”, o controle do “diferente” e rasgos de xenofobia também surgem no livro “As Leis”. O autor defende que o contato com povos estrangeiros e cidadãos de outras cidades deve ser cuidadoso e travado ao mínimo para que não se contamine os ideais da cidade governada pelos reis-filósofos. A entrada de estrangeiros, se possível deve ser proibida.

Os embaixadores da cidade que forem para o estrangeiro deverão passar por uma quarentena quando retornarem, de forma que não espalhem ideias estranhas e nocivas ao corpo social.

Como em quase todos os estados totalitários, o Estado ideal de Platão exerce censura para as idéias que venham de outros locais e que possam ser consideradas subversivas.

Igualmente, em “As Leis”, deve-se criar um grupo ou conselho que vele para que as idéias de justiça e as normas do estado estejam sendo devidamente cumpridas pelos cidadãos. Aqueles que desobedecerem seriam levados para centros de “readequação espiritual”.Se persistirem no erro de não seguir os ditames da sociedade, deveriam ser expulsos da cidade. Uma descrição perfeita de uma polícia de costumes e centros de punição para aqueles que estiverem fora da conduta moral da sociedade, conforme determinado pelo Estado.

Óbvio que Platão não inventou o totalitarismo ou mesmo sociedades fechadas e restritivas da liberdade. Exemplos históricos e no seu entorno geográfico não lhe faltavam. Mas é curioso que o filósofo ateniense tenha deixado para as futuras gerações o primeiro e mais completo manual de como exercer o controle das liberdades individuais e fortalecer o do Estado.