Poesia na vida: Vinicius de Moraes, Tudo de amor que existe 

Tudo de amor que existe em mim foi dado.

Tudo que fala em mim de amor foi dito.

Do nada em mim o amor fez o infinito

Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado.

Tão fácil para amar fiquei proscrito.

Cada voto que fiz ergueu-se em grito

Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse

Nesse meu pobre coração humano

Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano

Melhor fora que desse e recebesse

Para viver da vida o amor sem dano.~

Vinícius de Moraes

Bukowski: São quatro e meia da manhã 

“os barulhos do mundo

com passarinhos vermelhos,

são quatro e meia da

manhã,

são sempre

quatro e meia da manhã,

e eu escuto

meus amigos:

os lixeiros

e os ladrões

e gatos sonhando com

minhocas,

e minhocas sonhando

os ossos

do meu amor,

e eu não posso dormir

e logo vai amanhecer,

os trabalhadores vão se levantar

e eles vão procurar por mim

no estaleiro

e dirão:

“ele tá bêbado de novo”,

mas eu estarei adormecido,

finalmente, no meio das garrafas e

da luz do sol,

toda a escuridão acabada,

os braços abertos como

uma cruz,

os passarinhos vermelhos

voando,

voando,

rosas se abrindo no fumo e

como algo esfaqueado e

cicatrizando,

como 40 páginas de um romance ruim,

um sorriso bem na

minha cara de idiota. 

-Poema Quatro e meia da manhã, Charles Bukowski

Bukowski: Paraíso Bastardo 

PARAÍSO BASTARDO
Hoje dias ruins e noites ruins acontecem

Demais,

O velho sonho de ter alguns anos

Tranquilos antes de morrer-

Aquele sonho desapareceu assim como os outros

Sonhos.

Uma pena, uma pena, uma pena.

Desde o início, ao longo dos

Anos e próximo ao fim:

Uma pena, uma pena, uma pena.

Houve momentos,

Faíscas de esperança

Mas eles dissolveram rápido

Voltando à velha e mesma

Fórmula:

O fedor da realidade.

Mesmo quando havia

Sorte

E vida dançando na

Carne,

Sabíamos que e permanência

Seria

Curta.

Uma pena, uma pena, uma pena.

Queríamos mais do que

Algum dia pudesse haver:

Mulheres com amor e

Com risadas,

Noites selvagens o bastante para o

Tigre,

Queríamos dias que passeassem pela

Vida

Com alguma graça,

Um pouquinho de

Sentido,

Uma utilidade razoável,

E não algo

Apenas para

Desperdiçar,

Mas algo para

Lembrar,

Algo para

Dar um soco

Nas entranhas

Da morte.

Uma pena, uma pena, uma pena.

Somando todas

As coisas, é claro, nossa pequena agonia é

Estúpida

E fútil

Mas sinto que os nossos

Sonhos não

São.

E nós não estamos sós

Os fatores implacáveis não

São uma vingança

Pessoal contra um

Único

Indivíduo.

Outros sentem a mesma

Queimadura do

Desconcerto, enlouquecem, suicidam-se, ficam

Estúpidos, correm feridos para

Deuses

Imaginários, ou embriagam-se, drogam-se, emburrecem

Naturalmente

Desaparecem nessa multidão de nadas

Que nós chamamos de famílias,

Cidades,

Nações.

Mas o destino não é o único

Culpado

Nós desperdiçamos

Nossas oportunidades,

Nós estrangulamos

Nossos próprios corações.

Uma pena, uma pena, uma pena.

Hoje nós somos cidadãos do

Nada(…)

Bukowski, O amor é Tudo Que Nós Dissemos Que Não Era.

Quadros de Marc Chagall