Manuel Bandeira: sendo como um rio 

O rio
Ser como o rio que deflui

Silencioso dentro da noite.

Não temer as trevas da noite.

Se há estrelas no céu, refleti-las

E se os céus se pejam de nuvens,

Como o rio as nuvens são água,

Refleti-las também sem mágoa

Nas profundidades tranquilas.

Manuel Bandeira, do livro “Belo belo”, 1948.

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Fernando Pessoa: quando eu quero a outra 

Amamos sempre no que temos

O que não temos quando amamos.

O barco pára, largo os remos

E, um ao outro, as mãos nos damos.

A quem dou as mãos?

À Outra.
Teus beijos são de mel de boca,

Sãos que sempre pensei dar,

E agora a minha boca toca

A boca que eu sonhei beijar.

De quem á a boca?

Da Outra.
Os remos já caíram na água,

O barco faz o que a água quer.

Meus braços vingam minha mágoa

No abraço que enfim podem ter.

Quem abraço?

A Outra?
Bem sei, és bela, és quem desejo…

Não deixa a vida que eu deseje

Mais que o que pode ser teu beijo

E poder ser eu que te beije.

Beijo, e em quem penso?

Na Outra.
Os remos vão perdidos já,

O barco vai não sei para onde.

Que fresco o teu sorriso está,

Ah, meu amor, e o que ele esconde!

Que é do sorriso 

Da Outra?
Ah, talvez, mortos ambos nós, 

Num outro rio sem lugar

Em outro barco outra vez sós

Poderemos recomeçar,

Que talvez sejas 

A Outra.
Mas não, nem onde essa paisagem

É sob eterna luz eterna

Te acharei mais alguém na viagem

Que amei com ansiedade terna

Por ser parecida

Com a Outra.
Ah, por ora, idos remo e rumo,

Dá-me as mãos, a boca, o teu ser.

Façamos desta hora um resumo

Do que não poderemos ter.

Nesta hora, a única, 

Sê a Outra!

(Fernando Pessoa)

Bukowski: coração Risonho 

Se esse blog fosse ser resumido em um post… Em apenas um post… esta seria a mensagem que eu gostaria de passar. 

Para mim, “Coração Risonho” é o melhor poema de Bukowski. Ou sendo mais sincero, o poema que eu mais gosto seja lá de que autor for.  

Não me agrada o Bukowski da imagem mais conhecida.  Não me interessam os porres, nem a reclamação da falta de grana, a descrição das suas fodas e nem das putas. 

No meio de tudo isso que a maioria parece buscar, ele escrevia sobre resiliência para encarar as dificuldades e rasteiras da vida mas mantendo o encantamento com a vida. 

O bêbado que detestava o contato com as pessoas e buscava uma prostituta atrás da outra, tem algumas letras escritas  de profunda sabedoria. 

E este para mim é o ápice.

Bukowski – Coração Risonho 

“Sua vida é a sua vida.

Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.

Esteja atento.

Existem outros caminhos.

E em algum lugar, ainda existe luz.

Pode não ser muita luz, mas ela vence a escuridão.

Esteja atento.

Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.

Conheça-as.

Agarre- as.

Você não pode vencer a morte, mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.

E quanto mais você aprender a fazer isso, mais luz vai existir.

Sua vida é a sua vida.

Conheça-a enquanto ela ainda é sua.

Você é maravilhoso, os deuses esperam para se deliciar em você.”

Fernando Pessoa: a mais formosa morena 

Os versos da minha pena 

Buscam, como o fogo o céu, 

A mais formosa morena 

Que meu coração conheceu.

Por te buscar, minha vida 

Deixei o meu coração 

Por isso ela nem já sente 

E ele já não vive, não.

Teu coração pesa muito 

Na balança do amor; 

Há cousas que muito pesam 

E não têm nenhum valor.
(Fernando Pessoa)