Fernando Pessoa: Os deuses e os nossos cacos 

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.

Caiu pela escada excessivamente abaixo.

Caiu das mãos da criada descuidada.

Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!

Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.

Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.

Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.

E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zangam com ela.

São tolerantes com ela.

O que eu era um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,

Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.

Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.

Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?

Um caco.

E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.

Fernando Pessoa

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Sobre a filosofia de um leão 

Não se sente sob a macieira com ninguém além de mim
escolher sabiamente é meio caminho andado na estrada para a vitória;

a outra metade é conquistada pela indiferença.

por um lado você pode dizer qualquer coisa que quiser;

por outro lado você não tem que dizer.

de alguma forma consegui fazer as duas coisas.

então qualquer problema que você tiver comigo 

é seu.

– Bukowski, em À toa em San Pedro

Pedrada da noite: “Eu sei, mas não devia” 

Eu sei, mas não devia. 

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

{…}

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

— Marina Colasanti, em “Eu sei, mas não devia”. Interpretação de Antônio Abujamra, programa Provocações da TV Cultura.