Reflexões ao volante: Queimando a vida

”Poesia é apenas a evidência da vida. Se a sua vida está queimando bem, a poesia torna-se apenas as cinzas” (Leonard Cohen)

“Respirando fundo e olhando em volta, constato que minha vida está queimando bem. Falo até pouco para não espantar o bendito passarinho e deixá-lo cantando mais tempo no meu quintal. Quero um quintal com grama e árvore; nada de ladrilhos ou piscina.

Caem as cinzas? sim.  Não se iludam, a vida está sempre se esvaindo. Queimando. A questão é saber como você está usando esse tempo. O charuto está bom? Não quero baforadas vagabundas. Viver os dias deve ser como apreciar um bom charuto: baforadas longas, bouquet intenso, paladar marcante.  Sem pressa. Mas sem vício. É um momento de reconciliação e busca.

Não precisamos provar que estamos sempre certos. Não existe qualquer obrigação de entrar de sola em todas as brigas. Use de sabedoria para contornar certas situações.  Não se esgote. 

Certos casos devem ser honrados. Existem momentos em que torna-se necessário manter-se de pé e falar. Não fuja. 

Cuide dos seus próximos.  Olhe pelos mais fracos. Ajude aos demais mas entenda que cada qual tem a sua própria luta. Auxilie sempre. Mas não permita que a tempestade alheia retire sua paz. 

Agruras ocorrerão. Prepare-se para elas. Mas não grite tanto. Absorva e lide com os problemas de forma madura. Sem vitimismo. Sem egolatria. Cresça. 

Demonstre amor. Não é sua responsabilidade se não aceitam. Mas não se entregue até existir real confiança. E confiança é construída com o tempo e superação. Não confunda amor e confiança com desejo. Essa armadilha já dilacerou homens e mulheres por gerações sem fim.

E a vida vai queimando. E a vida vai marcando.  E a vida vai exalando seu cheiro. O paladar deve ser intenso. O odor marcante das folhas consumidas pelo fogo. 

Todo charuto chega ao fim. Existem aqueles que dizem que existem mais charutos na caixa.  Outros declaram que a experiência é única. Não sei. Oscilo entre as duas crenças e já não faço questão de prender a verdade com anzol. Acate e brinque com as dúvidas. 

O importante é queimar bem.”

Crônica “Queimando a vida” , de Manuel Sanchez 

Reflexões ao volante: trechos de entrevista, parte 2

– e você é feliz?

– sou. Mais do que parece. Falo de tristezas para desviar o foco e enganar a inveja.

– e por que você não conta sobre isso? Por que não dá a receita para os outros?

– não acredito em receita, não.  E nem acho que é coisa que se deve apregoar por aí.

– mas você não acha que as outras pessoas podem se aproveitar de descobrir um atalho ?

– então… Não tem atalho.  Não tem tabela.  É contigo. Decisão intransferível. Caminho único.  Rota virgem. A minha seara é do meu jeito e não se mistura com a de ninguém.  Cabe a cada um descobrir seus passos.

– Parece auto ajuda.

– talvez seja a única ajuda que valha a pena.

– não é meio brega?

– se você quiser ser chique, seja. Se quiser ser brega, tudo bem. Não existe tabela. Não tem receita para ser copiada por todos.  Não tem qualidade de vida título de matéria de revista .  Tem vida de qualidade. E só você pode descobrir o que acrescenta qualidade na SUA vida.

– você acredita em Deus?

– assim, na lata?

– você acredita em Deus?

– não acredito em determinismos. Não acredito em postergar a felicidade para depois da vida. Não acredito em transcendências que violem a vida. Acredito em Ogum. Acredito em energia de batalha. Acredito em Nietzsche. Conjugo Dionísio e Apolo na mesma mesa. Acredito na eudaimonia de Aristóteles e Sou confesso do amor fati.

– não entendi.

– os da minha tribo entenderam.
(Manuel Sanchez, trecho de entrevista)

 

Reflexões ao volante: trechos de entrevista, parte 1 

– para que você escreve essa página?

– nenhum motivo especial.

– você acha que alguém lê?

– não sei.  Não me importo com isso.  Não muito…. é para mim. É minha terapia.

– então para que se preocupar?

– eu não me preocupo.  Só quero dividir algo que achei interessante.

– mas não tem nada original. Nem suas crônicas. Você está sempre ou falando da sua vida ou resumindo muito mal gente muito mais complexa.

– não tenho pretensão de ser original. Só coloco à vista o que acho interessante. É só um farol. Cada um segue seu caminho.

-Mas nem tudo o que você coloca aqui é bonito ou dá esperança.

– eu nunca disse  que era para dar esperança.

– as pessoas podem achar que nada vale a pena lendo isso aqui.

– e talvez estejam certas.

– Isto é  um desserviço.

– não vim ao mundo para servir ninguém.
(trecho de entrevista, Manuel Sanchez)

 

Crônicas e Afins: De pai para filho.

Filho,

Você que ainda não chegou, existem tantas coisas que eu gostaria de te passar. Será que teremos esse tempo? Você vai me escutar? E se me escutar, garoto, terei condições de expressar o que de fato sinto que é importante?

Espero que consiga te dar o meu exemplo. Nem sempre acertei. Mas Deus sabe que  tentei.  Correndo de um lado para o outro, sobrecarregado de trabalho, quebrando a cara…  por vezes  imaturo em meus sentimentos , fugindo da reflexão, centrado na busca do próprio ego, passando por cima de sentimentos alheios, reticente em assumir deveres e responsabilidades,  estupidificado pela preguiça ou por diversões vazias…  fui um homem normal, meu filho. Caí em muitas armadilhas ao longo da vida e muitas vezes repeti os mesmos erros.

Mas chega um ponto na vida de todo homem – e chegará para você também – em que temos de parar com o auto-engano, entender nossos deveres, apreciar nossas inclinações e compreender que o mundo segue em frente independentemente de nossas vontades, crises ou receios. Rever decisões e agir para encerrar uma série de situações inúteis. Corrigir rotas.

Montando uma lista – essa invenção inútil por natureza – de algumas lições que seu velho pai extraiu até a presente curva do rio, ela seria mais ou menos como abaixo.

Não é um roteiro, garoto. Seu pai não acredita em tabelas. E nem em mandamentos. Nada que venha tiranizar suas escolhas.

Mas é o que gostaria que você entendesse.

 

1. Conheça a si mesmo:

Talvez o início da filosofia. Talvez o início do pensamento crítico. Com certeza, o primeiro passo para tomar as rédeas de sua vida: conheça a si mesmo. Contemple o que te apraz. Perceba o que te dá prazer de fazer na vida. Veja o tipo de pensamento que te motiva a prosseguir.

Pode ser que ao se analisar e descobrir seus pendores, você se descubra em um grupo isolado e minoritário. Tudo bem. É uma tolice essa busca de pertencimento a grupos. Junte-se a eles se você concordar. Mas não se imponha uma idéia ou um comportamento apenas para não se sentir sozinho no meio da multidão. Entenda quem você é e Seja. Torne-se essa pessoa que vive no seu desejo e na sua mente. Eventualmente encontrará pessoas com os mesmos interesses, gostos etc… mas também não se importe se não encontrar. Talvez seja VOCÊ a criar esse ponto onde outros no futuro irão encontrar repouso e ânimo.

Invariavelmente a sociedade nos força a pertencer a grupos, nos colocando em caixas, facilitando a extração de nossa potência com rótulos. Rebele-se contra isso. Descubra quem você é. E viva a sua vida.

 

2.  Pensamento sem ação não te levará a lugar algum

Depois de chegar às conclusões dos seus gostos, inclinações e ferramentas de potência, aja no sentido de sua realização. Saia da zona de conforto. Saia da inércia. 

É possível  que a busca dessa realização seja lenta. Seja paciente. Com toda certeza, seja qual for o plano que você deseja seguir na vida, ouvirá vozes de reprovação e desânimo disfarçadas de preocupação. Seja perseverante.

Mas o fato é que você tem que agir para desenvolver as potências descobertas após analisar e conhecer suas inclinações. 

Às vezes, a ação envolve estudo, outras vezes envolve empreender e abrir o próprio negócio, por vezes desenvolver novas capacidades físicas ou linguisticas.. sei lá, garoto, vai ser contigo. Não existem tabelas pré-ordenadas porque cada um, conhecendo a si próprio, navegará em águas específicas na busca pela realização pessoal.

A questão é começar a agir.  A contemplação sem ação é inútil.

 

3. Não se acomode

Aprenda algo novo sempre. Mesmo que você esteja bem situado na vida, economicamente estável e com suas questões pessoais bem resolvidas. Aprenda algo novo. Pode ser um idioma, um esporte, uma atividade artística, uma nova faculdade, conhecer um país diferente… seja o que for, cobre-se para aprender algo novo.

Somos criaturas que precisam ser constantemente desafiadas sob pena de nos tornarmos chatos, redundantes e monótonos.

 

4. Seja perseverante e resiliente

Apesar de ter falado isso acima, vou colocar aqui em separado para marcar sua importância: não recue e aguente firme.

O mundo não está interessado nos seus belos planos de realização pessoal. O mundo segue seu rumo com ou sem você e não estranhe quando ele chegar com tudo atropelando seus planos tão bem arrumadinhos. Dores, doenças, mágoas, golpes baixos, traições, desemprego, morte de entes queridos e demais notícias que arrebentam nossa potência interna… elas virão em algum momento. Às vezes os cavaleiros do desespero chegam juntos. Aguente firme: resiliência. Pele grossa. Couro firme. As pancadas virão e isso nada tem a ver com você ser ou não uma boa pessoa e de índole honesta. O mundo é assim: belo, caótico e sem noção de justiça. E às vezes as chicotadas do caos arrebentam nas nossas costas sem aviso. Seja resiliente.

Existirão aqueles que irão tentar te dissuadir dos seus planos. Vão jogar na sua cara as dificuldades, os pontos de inconsistência, mostrando por “A + B”  porque você não deveria dedicar-se a este ou aquele caminho. E nem sempre farão isso por maldade ou malícia. As vozes do desânimo podem vir disfarçadas de sincera preocupação. Entenda isso, não leve para o lado pessoal e continue atuando nos seus planos se eles fazem sentido para você e para quem você quer se tornar. Seja Perseverante.

 

5. Caia fora quando não fizer mais sentido

Você não é uma árvore: se não gosta de onde está, retire-se. Mova-se. Dá medo, sim. Mas viver com o medo é melhor que morrer sem sentir nada.

Quando aquele “algo” perdeu o sentido, é hora de seguir adiante. E por “algo” estou falando do emprego ao relacionamento, passando pela identidade que você havia construído para si até algum tempo atrás, mas que por alguma razão perderam a importância e a tangência com sua realidade.

Ser perseverante não quer dizer ignorar a nova realidade  quando antigos planos se desfizeram e viraram pó. Entender que algumas coisas se encerram, mudam e seguir adiante não é sinal de imaturidade e nem de falta de resiliência. Existem momentos, planos e sentimentos que de fato terminam. 

Tenha sabedoria para identificar a diferença.

 

6. Assuma suas responsabilidades.

Ser quem você deseja ser, lutar pelos seus sonhos e cair fora de uma situação quando ela perdeu o sentido, não significa ter uma carta branca para ser inconsequente, imaturo, atropelar os sentimentos alheios ou detonar expectativas sinceras que você criou nas outras pessoas.

Existem responsabilidades que assumimos que devem ser honradas. Cumpra com suas obrigações. O mundo não é uma egotrip onde só importam os seus desejos e ambições. Termine bem as situações que você mesmo criou no plano pessoal ou profissional. E entenda que certos atos criarão responsabilidades pelo resto da sua vida.

7. Não banque a vítima

Muitas coisas na vida nos arrebentam e doem. Algumas são resultados de atos que nós mesmos tomamos enebriados pela cobiça, luxúria, afetos mal canalizados, empolgação inconsequente ou falta de planejamento. Outras são resultados de atos sórdidos realizados contra nós ou que acabam nos atingindo, mesmo que essa não fosse a intenção original.

Não quero minimizar a dor e o sofrimento de ninguém. De fato, alguns eventos são violentos e traumáticos. Mas saiba que é você (e só você) que pode se reerguer. Se para isso é necessário auxílio médico ou psiquiátrico, procure.

Não temos como alterar inúmeras coisas que aconteceram conosco ou fazer desaparecer doenças com as quais nascemos ou desenvolvemos. Existem afetos que as pessoas a nossa volta ou de nossa família negam-se a dar. Não podemos mudar o local onde nascemos ou as pessoas que nos cercam neste meio. Receberemos bofetadas da vida e de várias pessoas. Algumas serão especificamente cruéis. Respire e levante-se.

Mas se não podemos evitar inúmeras  coisas que a vida nos impinge, podemos escolher como vamos lidar com elas. Chorar e reclamar pode servir como um desabafo momentâneo para aliviar o peito, mas não irá resolver nada. As outras pessoas podem ouvir com compaixão e solidariedade, mas elas não resolverão sua vida. E ninguém gosta de alguém eternamente se vitimizando ao seu lado.

Somos todos vítimas involuntárias de algumas situações ao longo da vida, mas não vivencie eternamente isso. 

Assuma sua vida em suas mãos e reconstrua-se.

 

8) Enlouqueça (…às vezes)

Um pouco de maluquice faz bem, garoto.

Experimentar faz bem. Passar ridículo, não mata ninguém.

Ter uma opinião fora do comum , não te rebaixa. Aliás, normalmente as opiniões mais comuns e massificadas são traiçoeiras e, não raro, limitadoras do espírito.

O preço a pagar pelo excesso de controle e medo do ridículo é a entrega da felicidade. E ademais, acredite, as pessoas não reparam tanto em você como você acredita que elas façam.

Ria de você e do ridículo que fazemos nessa vida.

Somos um grão de poeira consciente desse Universo, tentando entender a si próprio. Estamos aqui em meio a uma completa ignorância sobre nossas origens espirituais e nosso destino após a morte. Ninguém sabe coisa alguma por mais que finja ou se iluda. Temos todos as mesmas dúvidas, os mesmos medos e o mesmo desejo de ser feliz. Ninguém está nem aí se você fizer algumas doideiras de vez em quando.

 

9) Seja Honrado

Força e Honra, já dizia o lema das falanges romanas.

Tenha respeito próprio e dignifique sua vida. Mantenha sua palavra. Cuide bem daqueles que fazem parte do seu círculo de afetos. Trate com respeito todos que o cercam, sejam ou não merecedores. Zele por suas obrigações. Ainda que o mundo a sua volta esteja inundado de imundice, roubalheiras e traições, mantenha-se íntegro. Proteja seus amigos. Honre seu nome.

Não existe recompensa externa por isso. Não existe nenhuma divindade que virá lhe dar tapinhas nas costas por suas decisões. Trata-se de uma norma de conduta. Trata-se de rigor íntimo. É melhor ser reto do que ser retificado.

 

10) Cuide dos seus afetos.

Afetos sinceros nesse mundo mecanizado e veloz são presentes reais. Cuide deles.

Zele pela sua família, pelas suas amizades e pelo convívio em geral. Entenda que cada qual tem um limite e o que chamam de sinceridade e espontaneidade, às vezes, é apenas falta de tato e menosprezo com o bem estar alheio. 

Um carinho faz bem a qualquer hora. Uma gentileza também. E não precisa de motivo. Entenda que silêncio e respeito também são formas de carinho.

 

11) Aprenda a lidar com seu dinheiro.

Seja consciente que vivemos em um mundo alicerçado em trocas monetárias. E qualquer frase de efeito de diretório acadêmico que você queira gritar não mudará isso.

Saber lidar com seu dinheiro, poupar e investir são realidades do mundo prático que irão lhe trazer maior conforto, realização de conquistas materiais e tranquilidade em situações de aperto, desemprego e urgências mil que ocorrem ao longo da vida. Tenha uma reserva de emergência. Acredite: sempre existirá algo que atravessará todo o seu planejamento, então esteja preparado.

Cuide do seu dinheiro. Tire de sua cabeça a idéia de que crédito fácil é sinal de bem estar. Não finja um padrão de vida que não cabe no seu bolso.  Quando o dinheiro minguar, as dívidas permanecerão. E com juros.

12) O fim faz parte e a morte também

Aceite o fim. Fim de projetos. Fim de relacionamentos. Fim de relações longas com seu trabalho. Fim da própria vida.

Nada é eterno. A dor vem em boa parte de nos acharmos permanentes, de acreditarmos que as situações não se modificam ou que por algum motivo somos especiais e nossos padrões de conforto ou relações afetivas jamais serão terminadas.

Mas a impermanência é a única verdade. 

Quando o seu relacionamento terminar, os afetos seguirão novos caminhos. Quando seu ente querido falecer, você continuará respirando. Quando você morrer, as pessoas irão chorar por alguns dias e seguirão com suas vidas e reconstruirão seus afetos.

A vida vem e também seguirá seu trajeto rumo ao silêncio.

O que fazemos no intervalo entre esses dois grandes marcos – nascimento e morte – isso é o que interessa.

Você ainda não chegou, meu filho. Talvez tenhamos essa conversa em breve. Talvez, nunca.

Mas se um dia nos cruzarmos nessa vida, seu pai terá um imenso prazer em ter duas ou três palavras com você. 


Crônica e afins: “De pai para Filho” , de Manuel Sanchez

Crônica: coração de viajante 

Férias! Bem-aventurados aqueles que viajam, se arriscam e se dedicam ao ócio porque deles é o Reino do autoconhecimento e das experiências da mente e dos sentidos.

Volto aos Estados Unidos depois de sete anos. 

Nova York foi a primeira cidade internacional que eu conheci de verdade. E volto à cidade depois de sete anos. Quando estive aqui pela primeira vez era um sujeito que tinha lido muito e visto ou feito nada. Fiquei deslumbrado com a cidade e com suas possibilidades.

Sete anos atrás. No meio desse intervalo passei por outros 12 países, viajei em um deserto, subi em um vulcão e fui na Amazônia. Visitei pirâmides, andei ao redor de Stonehange e entrei em catacumbas. Foi um belo periodo para um moleque criado no subúrbio e que não conhecia nada de nada e só via o mundo pela TV e páginas impressas. 

A primeira vez que estive nos Estados Unidos, achei que Nova York era o melhor lugar do planeta. Nada poderia ser tão impressionante! 

E de fato, estamos falando de um dos principais locais cosmopolitas do planeta. Gente de todo canto,  uma multiplicidade de idiomas nas ruas, museus arrebatadores e teatros encantadores. Bom… e continua tudo ali. Mas um pouco de experiência e perspectiva também colocaram a cidade sob outras luzes e agora ando por essas ruas de um jeito mais cínico e menos deslumbrado. Saio dos turistas, escolho outros ângulos, seleciono os horários. Busco ir para longe do óbvio. Adoro o lugar mas descubro que hoje NY está longe de ser meu canto preferido.

Dessa vez dei um pulo em Boston também. Bonita, limpinha, deve ser gostoso de viver,  mas tudo é arrumadinho demais e acho que ia enlouquecer. Gostei de dar uma caminhada por Harvard e no MIT e depois  tomar uma cerveja Samuel Adams no Macy Market.

E flanei por Whashigton. A capital do império é fria e cinza. A parte central é bem imponente! Típica arquitetura para gerar o sentimento de diminuição no ser humano. Os monumentos são todos dedicados à guerra, soldados e mortes. Ornamentos impávidos de conquista. Obviamente diz alguma coisa sobre uma sociedade amparada nas empresas bélicas e na criação de conflitos.  A área dos museus me deixou muito interessado, mas só tive tempo para visitar um. 

Acho que fecho esse ciclo pelos Estados Unidos. Um ciclo de 7 anos perfeitos. Mergulhei em culturas , idiomas , experiências, dezenas de museus, músicas, bebidas…. me virei, arrisquei e sai da rotina. Amadureci viajando. Descobri que viajando eu faço minha análise e aprendi muito sobre os meus gostos, apetites e interesses. 

Mudei muito nesses sete anos de pé na estrada. E quando eu olho a cidade ao meu redor me dou conta disso. Não sou mais deslumbrado. Sei do que gosto , onde gosto e seleciono. E hoje tenho um caminhão de experiências para comparação.

Creio, contudo, que já basta de Tio Sam. Só retorno quando  esgotar tudo o que quero na Europa e nos vizinhos da América do Sul. E olha que acho que vão ser décadas de exploração.

E assim começo meu novo ciclo de 7 anos. Vamos ver onde eles me levam.

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Por Manuel Sanchez