Leandro Karnal: o humano e o religioso

Leandro_Karnal

Leandro Karnal é historiador e professor, ministrando suas palestras sobre os mais diversos temas que vão da religião, à sociologia, história e filosofia.

Suas aulas são leves, bem humoradas e com explicações minuciosas do tema proposto, quase sempre tendo como contexto a história da religião e seu papel no cotidiano da sociedade. 

1) O mal primordial: o orgulho nosso de cada dia

 

2) O pecado envergonhado: a inveja

 

3) Os velhos e os novos pecados

Crônica: O mundo espiritual bateu à minha porta

O mundo espiritual bateu à minha porta.

(Manuel Sanchez)

 

Convidaram-me para ser o padrinho no batismo. E isso sempre é uma grande honra. Daquelas que devem ser levadas a sério, mas que hoje em dia parece que não dão mais importância. Típico destino das coisas que devem ser levadas a sério.

No dia marcado estava eu a postos no centro espírita. Entrei no local como quem age com a polidez exagerada de quem não sabe o que fazer mas não quer ofender ninguém. Estava em um lugar onde todas as mentes estavam mergulhadas em transcendências espirituais. Logo eu,  mente e corpo que nadam na imanência da matéria.

Como havia chegado cedo demais, sentei em um dos muitos bancos do templo e fui decifrando onde estava.

A primeira coisa que me falaram é que deveria desligar o telefone celular porque o sinal atrapalha os serviços espirituais. Foi em tom de ordem mesmo. Desligue o celular.

Pensei na quantidade de ondas eletromagnéticas que cercavam o planeta inteiro naquele minuto: ondas de rádio, ondas de tv, todo o espectro luminoso, as micro-ondas, os raios-x, os raios ultravioleta etc… mas se o meu celular tinha o poder de impedir a comunicação com o Reino Espiritual quem era eu para querer interferir logo no batizado da minha sobrinha. Vai que eu recebo uma mensagem na minha rede social bem na hora que o Espírito Santo está querendo agir. Desliguei o celular.

No altar central uma imagem maior de Jesus Cristo parecia abençoar uma outra dezena de imagens que mostravam um pajé seminu ao lado de um preto velho fumando um cachimbo. Tinha Iemanjá de braços abertos, Nossa Senhora olhando a multidão e São Francisco de braços estendidos brincando com os pássaros. Nas laterais uma série de quadros com mensagens Kardecistas, frases de Gandhi, orações católicas e fotos do Papa Francisco. Na parte mais alta, sobre o pórtico por onde entravam os fiéis, havia um quadro gigante do Sol. Pelo contexto, certamente era do Deus-Sol. Rá.

Se a idéia de girar minha vida ao redor de forças da transcendência espiritual me incomodava, a tolerância do local me agradou muito. Em outros tempos e mesmo hoje em certos meios, juntar duas daquelas figuras sob o mesmo teto daria um derramamento de sangue sem fim. Acusações e rompimentos, no mínimo.

Mas ali estavam todos os mestres reunidos. Ou quase todos. Senti falta de Buda. Mas os outros estavam todos em paz. Cada um dos fiéis certamente conseguiria entrar em comunhão com sua entidade de preferência. Quase que uma religião à la carte. Desde que você desligasse o celular.  O celular parece que tem características profanas atentatórias à boa evolução do sinal de wifi médium/reino espiritual.

As pessoas chegavam em pequenos grupos para a cerimônia de passe espiritual. Por todo o templo, servidores vestidos de branco davam orientações, cumprimentavam os recém-chegados com alegria e faziam as últimas arrumações. De frente ao altar central, dezenas de médiuns com roupas alvas sentavam-se em cadeiras e entravam em transe. Alguns rezavam e faziam o sinal da cruz. Outros usavam colares de miçangas coloridas. Outro tinha um ramo de alguma erva nas mãos. Aquela fazia gestos no ar e batia as mãos de tempos em tempos.

Quando vi o salão estava cheio, os familiares já estavam presentes e a cerimônia começou. Havia algumas crianças no local, mas todas calmas e serenas. Vozes começaram a cantar. A oração falava de São Cipriano.

O cântico que ecoava ficou bonito em meio a tanta gente vestida de branco. E a oração de São Cipriano invadiu o templo.

Os médiuns no centro permaneciam sentados e em concentração. Na lateral um homem vestido de branco – todos eles – usava ervas ao redor do pescoço e dançava para frente e para trás como um índio Xavante.  O médium que conduzia a cerimônia era um senhor de idade e quando o cântico aumentou de volume ele entrou em contato com a entidade de São Cipriano e falava e falava e falava… confesso que não entendia quase nada das palavras balbuciadas mas ele aspergia um ramo de ervas molhado sobre as outras dezenas de médiuns sentados a sua frente que realmente estavam em outra dimensão: todos concentrados e de olhos cerrados, alguns inclinando seus corpos para frente e para trás, sinais feitos no ar, batiam as mãos, rezavam alguma coisa ininteligível.

Todo o público estava em silêncio assistindo a cerimônia quando nos convidam para o altar central com minha sobrinha no colo. Era hora do batizado e só no momento em que o médium jogou a água sobre sua fronte é que a criança parece ter despertado e se assustado um pouco.  Não faço idéia da entidade que realizou o ato, mas logo em seguida fomos informados que o espírito  havia saído e que podíamos ir para nossos lugares.

Fez-se o silêncio.

E todos fomos convidados para a sessão de passe espírita. Um a um todos se colocaram em fila indiana para irmos nos posicionando em frente a um dos médiuns. Minha cunhada com sua filha e minha esposa iam na minha frente. No meio da fila pensei se me submetia ao passe ou se respeitosamente me colocava de lado esperando a cerimônia encerrar.

Fiquei na fila.

As pessoas iam passando por um grupo de servidores do templo acompanhados pelo mestre da cerimônia e um deles jogava uma água, falava um número (cada pessoa tinha cantado para si um número) e encaminhava a pessoa para um dos médiuns sentados em transe.

– Esse aqui é onze! – falaram de mim quando passei.

E nesse momento o mundo espiritual voltou a chegar bem perto de mim. Estávamos longe e separados por tanto tempo. Fiz questão disso.  Não quero abrir mão da minha liberdade. Não quero ouvir lições de moral. Não quero saber de caminhos traçados. Não quero missões assumidas antes do nascimento. Não quero ouvir como a vida depois da morte é boa e que me peçam para abrir mão da vida enquanto vivo.

– Esse aqui é onze! – repetiram e me deram um cartão branco do templo com dados e horários da secretaria – Bem vindo, meu amigo! A gente espera poder contar com você. Fica nessa posição aqui que vai dar mais força na nossa corrente –  e me encaminharam para um das médiuns sentadas em transe.

A senhorinha lembrou-me de minha falecida avó. Negra, parecia baixa, rosto marcado, toda vestida de branco e usando uma guia de  miçangas ao redor do pescoço. Ela rezava em voz baixa e colocava as mãos – sem me tocar – sobre o meu peito.

Depois fomos encaminhados para um outro grupo de médiuns. Mesmo procedimento. Mas dessa vez foi uma senhorinha branca que  não usava colares e abriu os olhos umas duas vezes para sorrir para mim.

Terminado, fui convidado para sair. Havia uma fila grande de pessoas esperando pelos passes.

Antes de sairmos mostrei para minha esposa o cartão branco do templo com as anotações e disse que tinha que passar na secretaria para devolvê-lo.

– Mas vem comigo. Não quero entrar lá sozinho – eu disse para ela.

E como testemunha de todos os meus percalços e caminhos, ela me acompanhou. Nunca tive dúvidas quanto a isso.

A secretaria era clara e iluminada. Parecia uma secretaria de colégio e ali fui recebido por um senhor de idade e – claro –  vestido de branco.

Teria sido mais sábio não entrar. Mas uma vez ali e entregando o cartão recebido na fila do passe, ouvi educadamente.

São Cipriano me fazia um convite.

O mundo dos espíritos batia na minha porta e me chamava para entrar. De novo.

Por motivos que não compreendo, era a segunda vez na vida que me chamavam em um templo para fazer desenvolvimento mediúnico. Eu, que na pré-adolescência pensei em ser padre. Mas foi em terrenos de umbanda ou congêneres que os convites de participação espiritual vieram sem aviso algum. Na primeira vez eu achei que aquilo havia sido alguma peça de mau gosto ou um erro da entidade. Mas já era a segunda vez. Dessa vez eu entendia o que era o número onze.  E realmente tinha que ser um erro da entidade.

O senhor me explicou sobre o chamado espiritual que me era feito. Ele disse sobre a missão de caridade ao qual eu estava sendo convidado. Que isso não era prêmio ou virtude: era débito. Do quanto eu tinha para resgatar e que o chamamento  ocorria justamente pela carga de erros deixados em vidas passadas; mas que eu tinha o caminho do auxilio ao próximo aberto para mim. Caridade ao próximo me ajudando a resgatar débitos próprios.

Ouvi educadamente.

E enquanto o senhor pacientemente me explicava o convite de São Cipriano, eu pensei.

Pensei que não tenho dúvidas sobre os débitos que tenho com o mundo espiritual (seja lá o significado que você queira dar a isso).  Sou um poço repleto da falta de virtudes. Pela quantidade de apetites sexuais que despertam em mim. Pela bebida que ingiro todos os dias. Pelo desejo de dar fim mais célere a essa existência que volta e meia vem à mente. O rancor que guardo no peito. A dificuldade em perdoar. A visão cínica do ser humano que aumenta com o passar dos anos. A total falta de paciência que tenho com gente burra, além dos vários planos que invadem o meu pensamento para acelerar o desencarne de alguns – planos abortados, acalme-se!

Pensei na matéria. No corpo. Na vida que persigo na imanência e de como não estou disposto a seguir transcendências de antigas eras. Nem a ouvir lições que não sejam racionalmente atingíveis.

Quando meu interlocutor encerrou sua explicação, com todo o tato e educação eu agradeci e declinei o convite.

Não era para mim.

Nem padre e nem médium.

Não era para mim.

Minha esposa deu-me as mãos e saímos do templo.

Mas voltando para casa, pensei no convite de auxílio ao próximo para resgatar meus próprios débitos.

Um convite que a vida me fez há muito tempo.

E que eu já havia aceitado mesmo com todos os fios soltos, as inseguranças e os erros que me acompanham.

Pensei nas milhares de pessoas que já atendi profissionalmente ao longo dos anos. Na imanência. Na terra. Sem fazer julgamento moral, mas servindo-me justamente de meio, de mídia para tentar auxiliar o individuo na minha frente.

Presídios em que entrei,  júris que fiz, uma quantidade de gente sem caráter que tirei da cadeia esperando que o sujeito acertasse dessa vez; muita gente desesperada que eu auxiliei  em vias de perder a guarda de seus filhos, serem despejadas, ou que queriam justamente retornar ao convívio de seus filhos, reconquistar o patrimônio esbulhado por terceiros, fazer uma cirurgia de urgência no meio desse sistema de saúde carcomido ou achar uma saída em uma vida repleta de humilhações.

Gente impaciente. Muitos agressivos. Uma maioria que nunca vai saber a quantidade de horas e de madrugadas que perdi estudando seus processos e preparando suas defesas.

O mundo espiritual bateu à minha porta, sim. Querendo que eu me colocasse à serviço. Que independentemente dos meus débitos e das minhas próprias fraquezas, eu trabalhasse em prol do próximo.

Mas eu optei por fazer isso do meu jeito.

Nessa terra. Na imanência.

E deixando o telefone celular ligado.

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Crônica “O mundo espiritual bateu à minha porta” de  Manuel Sanchez

Eles estão surdos….

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Para refletir, queria convidar o leitor a visitar nosso post em “Deus tem muitas vozes” ,  também assistir ao debate entre os cientistas Carl Sagan e Stephen Hawkings em “Deus, o Universo e todo o resto” e ler o texto de Osho entre as diferenças entre religião e religiosidade.

 

Aventuras de 60 segundos: Religião

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O site da Open University é conhecido pelos seus vídeos e aulas gratuitos na internet.  A organização preparou aulas sobre os princípios elementares de alguns estudiosos a respeito de religião.

Aqui apresentamos vídeos de chamariz para as aulas. Eles tem cerca de um minuto (as aventuras de 60 segundos – 60 seconds adventures) mas conseguem condensar o tema da aula e sempre terminam de uma maneira bem humorada.

 

 

1)      Karl Marx – religião como ferramenta de controle social. O primeiro vídeo apresenta a ideia de Marx de que a religião é uma ilusão criada apenas para manter o controle da população.

 

2)      Auguste – religião como um ritual. Auguste Comte pensava a religião como uma evolução para um ritual humanista de glorificação de valores como a caridade, ordem e o pensamento científico.

 

3)      Bachofer – religião como uma mãe protetora. Bachofer acreditava que as primeiras religiões deveriam ter se desenvolvido como um matriarcado e que a posição hegemônica masculina só teria surgido posteriomente. Foi importante para o desenvolvimento posterior das religiões da nova era e da ideia de Gaia.

4)      Richard Dawkins – religião como um vírus. Dawkins é bastante conhecido pela sua cruzada anti-religião e sua ideia de que o pensamento religioso é contagioso, espalhando-se pelo tecido social como um vírus.

 

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