Crônicas e Afins: “Mais Fácil”

Qhdp7DPkWgtr

“Mais Fácil”

(Manuel Sanchez)

 

Era para ser mais fácil, não é mesmo?

Mais risos, carinhos, tolerância.

Nunca conseguimos ter certeza dos sentimentos alheios,

Cada um sabe o caos que carrega dentro de si

Não existe dúvida sobre o que deu errado.

Sabemos em qual curva saímos da estrada.

Em qual noite traçamos rotas diferentes.

E mesmo o local do descarrilho.

 

Era para ser mais fácil, não é mesmo?

Mais risos, carinhos, tolerância.

E ter as respostas na mão, também não ajuda em nada.  

Dizem que a ignorância é uma doce ilusão,

Mantém o sonho, mantém a chama. O chão.

 

Nunca conseguimos ter certeza dos sentimentos alheios,

Cada um sabe o caos que carrega dentro de si  

Não existe dúvida sobre o que deu errado.

Sabemos quando o fogo apagou.

Em qual noite o canto cessou.

E mesmo o local onde o coro se fez silêncio.

 

Era para ser mais fácil, não é mesmo?

Era para ser mais fácil.

solidc3a3o

Anúncios

Crônica: “Cinco minutos do seu tempo cabem em um cigarro”

tumblr_m2aklkWbli1r9emg2o1_500 Divide o cigarro comigo.

São cinco minutos do seu tempo. Fica aqui do meu lado. Podemos beber algo enquanto isso. 

Melhor não buscar sentido nessas coisas. E não precisamos falar sobre o assunto se você não quiser.

Quando chegarmos no último trago, é possível que não vejamos mais beleza nessa aproximação.

Mas ainda temos quatro minutos.

Divide o cigarro comigo. 

Gosto da sua companhia. Nenhum sentido nisso, você responde. E de fato não tem. Nada tem sentido se você observar a fundo.

Mas quando duas pessoas encontram-se e tentam se conhecer, não é o sentido que faz a ligação.

Três minutos. Divide o cigarro.

É o que então, você pergunta. Acho que é a vontade de não ficar sozinho. Acho que é esse grito que vem na cabeça quando não temos ninguém para conversar. Acho que é a vontade de fugir de programas de banalidades. Das vulgaridades. Acho que é a noite de insônia que afasta o corpo e nos joga no mundo, na rua.

Você diz que é apenas a curiosidade.

Curiosidade de ver como o outro é de verdade. Como ele se comporta face a face. Que mundos ele guarda dentro de si. 

Você gosta de gente. Diz que não precisamos procurar vida em outros planetas. Temos civilizações inteiras em cada pessoa aqui mesmo ao nosso lado. Cada um é senhor de seus próprios mistérios. E cada qual toca uma música diferente. Você tem bons ouvidos.  

Dois minutos. Divide.

Eu gosto de poucos. Você se pergunta então do que eu gostei em você, mas não verbaliza.

Também não respondo. Confesso que também não sei o que responder. Mas gosto. Muito.

Um minuto. Divide.

Olho para você e vejo que sim. Você tem civilizações inteiras. E suas músicas possuem um ritmo bom. Senhora de mistérios em caixas com estilos tão longe do meus. Tenho curiosidade também.

O cigarro acabou.

tumblr_m5837iJXCc1qkztapo1_500

Sanchez, ‘Cinco Minutos do Seu Tempo Cabem em um Cigarro”

Crônica: Erros.

a-vida-e-o-tempo

Um homem não entra duas vezes em um mesmo rio, já afirmava Heráclito. Por dois motivos: ou o rio está renovado, já que as torrentes de água não cessam de correr; ou o homem, possivelmente, também não será mais o mesmo.

Tudo muda, tudo flui. Mesmo contra os nossos desejos…. e muitas vezes em oposição a eles.

Existem situações que nos marcam, seja por sua intensa alegria e prazer, seja por sua marca profunda na alma. Agressões que machucam. Deleites que abrem todo um novo mundo para nossos sentidos. Fato é que as emoções nos modificam e moldam. Às vezes para melhorar o que nós somos, outras para colar uma série de cacos traumatizados do que restou de nossa autoestima.

Melhorados ou remendados, não somos mais os mesmos.

Podemos insistir, seja por apego ou medo. Mas o rio não é mais o mesmo.

Buscar os mesmos caminhos, as mesmas emoções, em trilhas que já percorremos não nos levará a novas locações. Ao contrário, voltaremos apenas a encontrar os mesmos muros e as mesmas cercas. Becos sem saída. Água estagnada. Por hábito, achamos que a mesma água voltará a matar a nossa sede. Insistimos em nos enganar. Criamos a nossa própria ilusão nesse castelo de espelhos. A alegoria se repete como um número de picadeiro.  

Por isso, quando a dor apertar, lembre-se de não deter-se nas mesmas margens que já conheceste. Leve o seu cantil para outro lugar. Mata a sede longe daqui.

Teremos um deserto a nossa frente, talvez. Mas sigamos em frente.

Porque todas as terras secas desembocam no mar.

E não existe nada que um banho de mar não limpe.

____________________________________

“Erros”, Manuel Sanchez

Crônica:O Beijo

Klimt
Klimt

Trocaria a memória de todos os beijos que já te dei por um beijo teu agora.

E mesmo esse último beijo, pela certeza de que sentes minha falta.

E afastaria essa falta te aninhando em meu peito.

Desta vez para sempre. Desta vez sem erros.

Trocaria todos os meus sonhos futuros pelo primeiro sim que nunca demos.

Rodin
Rodin

E este sim, meu amor,  guardaria no cofre mais forte

Porque é o sonho mais belo que tenho.

Mas desta vez não quero sonhos que se esvanecem.

Eu te quero. Para sempre.

Trocaria todas as minhas certezas pela insegurança de estar ao teu lado.

E de teus abraços faria cordas com as quais nunca me soltaria.

Esse frêmito, esse medo, um salto em um vale que não se vê.

Boca. Desejo. Paixão

A perdição que só encontro em você.

— Sanchez

 

741322_826166657438017_1052561346058218214_o

Crônica: “Estraçalhados pelo Tempo”

26d84-amizadeperdida

O tempo não perdoa alguns relacionamentos.

Vamos mudando, envelhecendo, alterando gostos, ficando mais tolerantes em alguns pontos, mais intransigentes em outros, sem paciência para certos comportamentos e quando nos damos conta, verificamos que não temos rigorosamente mais nada a ver com alguns amigos e familiares que anos antes eram tão próximos e afinados.

Refiro-me a pessoas com os quais não tive nenhum rompimento formal, nenhuma discussão séria, nenhuma rusga intransponível. Mas definitivamente, o tempo teve seu efeito e as diferenças se mostraram cada vez mais agudas nos eventuais encontros pessoais e nas sempre onipresentes redes sociais.

mensagens-sobre-separacao-e-dor-1

Em alguns, foi semeada uma paixão religiosa fundamentalista inexistente há uma década e meia atrás; em outros, os anos desenvolveram uma sede de justiciamento e morte irreconhecíveis nas lembranças do tempo em que tínhamos maior contato. Certos amigos se tornaram pródigos na defesa de qualquer argumento proibicionista, arautos do controle do comportamento alheio; outros aprofundaram seus sonhos juvenis e passaram a viver de delírios esquerdistas dos mais messiânicos. Um ou outro enriqueceu e deu as costas aos demais, sem maiores explicações. Um ou outro empobreceu e passou a culpabilizar o mundo por todas as suas desgraças.    

Pouco a pouco fui me afastando de um, evitando outro…  percebi que alguns conhecidos também usavam as mesmas técnicas e iniciavam um movimento de afastamento de mim.

Obviamente, as minhas mudanças particulares também devem ter desagradado a alguma parcela de amigos e familiares, que provavelmente também devem me achar irreconhecível quando comparado à lembrança de minha pessoa existente anos atrás. Sou o mesmo, mas completamente diferente.

E o que fica?

Um certo constrangimento. Uma certa paciência para não ser grosseiro, um esforço para não criar um clima desagradável nos encontros. Atura-se o que não se gosta por pura educação. Tolera-se a presença por deferência a uma amizade antiga ou a um laço de sangue.

E assim o tempo segue.

E nós vamos mudando. Talvez nem sempre para melhor, mas definitivamente diferentes.  

fim

_________________________________

“Estraçalhados pelo Tempo”, Sanchez