Schopenhauer: sábios e tolos 

“De maneira geral, decerto, os sábios de todos os tempos sempre disseram o mesmo, e os tolos, quer dizer, a maioria incomensurável de todos os tempos, sempre fizeram o mesmo, a saber, o contrário: e assim seguirá sendo.”

Arthur Schopenhauer in Aforismos para a Sabedoria de Vida

Schopenhauer: “desejo = carência”. Mas será mesmo? 

SCHOPENHAUER, A. O mundo como Vontade e Representação. Tomo II).

 A base de todo querer […] é a necessidade, carência, logo sofrimento, ao qual o homem está destinado originalmente pelo seu ser. Quando lhe falta o objeto do querer, retirado pela rápida e fácil satisfação, assalta-lhe vazio e tédio aterradores, isto é, seu ser e sua existência mesma se lhe tornam um fardo insuportável. Sua vida, portanto, oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio, os quais em realidade são seus componentes básicos.

Schopenhauer: jogando pérolas aos porcos 

Arthur Schopenhauer — O Leitor de Cérebro Insignificante 
O braço mais vigoroso, quando lança um corpo leve, não pode comunicar-lhe bastante movimento para que voe longe e atinja o alvo. O corpo logo cairá ao chão porque carecia de substância material própria para absorver a força externa. Tal será também a sorte dos pensamentos elevados e belos, das obras mestras do gênio, quando, para recebê-las, há apenas cérebros insignificantes, débeis ou equivocados.

Isso é o que os sábios de todos os tempos, em uníssono, têm deplorado sem cessar. Por exemplo, disse Jesus, filho de Sirach: Quem fala com louco, fala com um que dorme. 

Quando houver acabado, esse pergunta: Que há? E Hamlet diz: Um discurso eloquente dorme no ouvido de um tolo.

Goethe, por sua vez: 

O ouvido de um tolo zomba da palavra mais sábia.

Novamente:

Teu esforço é vão, tudo permanece inerte. Não te desconsoles! Nenhum sino dobra quando se joga pedras na lama.

E Lichtenberg diz: Quando uma cabeça e um livro colidem, e produz-se um som oco, isso provém sempre do livro? Novamente: Tais obras são como espelhos; quando um macaco olha nelas, não se pode ver um apóstolo. O belo e comovente lamento do velho Geller também merece ser lembrado: 

Quantas vezes as melhores qualidades encontram menos admiradores. Quantos homens tomam por bom o mau! Esse é um mal que se observa todos os dias, porém, como evitar essa peste? Duvido que possa ser erradicada desse mundo. Não há mais que um só meio na terra, porém é infinitamente difícil. Que os tolos se façam sábios. Porém, como? Isso nunca serão. Desconhecem o valor das coisas. Julgam pela vista, não pela razão. Elogiam constantemente o que é pequeno, porque nunca conheceram o que é bom.

— Arthur Schopenhauer, in Aforismos Para a Sabedoria de Vida.

Obra de Gabriel Ritter von Max.

Introdução ao pensamento de Schopenhauer

Schopenhauer traz para a filosofia uma riqueza de pensamento que irá desaguar em outros pensadores fundamentais do fim do século XIX e XX como Nietzsche e Freud.

Afastando-se do pensamento Kantiano e deontológico clássico que coloca o ser humano como uma criatura racional, lógica e que ultrapassa suas paixões e desejos analisando as consequencias e valorando seus deveres, Schopenhauer vê o homem como um ser atrelado aos seus afetos e que é movido por uma vontade de viver arbitrária e que se afasta da razão fria.

De forma trágica, Schopenhauer postula um  mundo sem sentido, onde somos marcados por nossos desejos, ansiamos pelo que não temos e estamos sempre perseguindo desejos que fogem. Schopenhauer não tem dúvidas de que isso nos causará frustrações , dores e traumas: motivo pelo qual Schopenhaeur é considerado um grande pessimista na filosofia. Nossa existência não se baseia em transcendências e nem tem base no sentido de dever Kantiano, sendo apenas uma constante dinâmica de afetos – mais ao estilo espinozano.

As linhas gerais de Schopenhauer irão repercutir em Nietzsche, Freud, Sartre e outros pensadores que negam o racionalismo como essência humana e postulam que nossa consciência é apenas uma parte ínfima de nossa psiquê, mergulhada em desejos e vontades que muitas vezes nos são negadas. A dor dessa negação pode nos levar a uma compaixão pelos demais seres humanos, já que eles também devem sofrer as mesmas frustrações pelas negativas e surras que a vida nos impõe a todos. Assim, o fundamento da moral Schopenhauriana vai ser depositada na compaixão; não havendo sentidos maiores na vida além daquele que nós próprios construímos.

Abaixo seguem alguns pequenos vídeos para os que desejarem conhecer mais.

Schopenhauer e a idade 

(…) Quanto mais se avança em idade, mais insignificantes nos parecem as coisas humanas, por maiores que sejam; a vida que, durante a juventude, estava ali ante nós, firme e imóvel, nos parece agora uma sucessão rápida de fenômenos efêmeros; e se compreende o vazio e o nada das coisas deste mundo.

– Arthur Schopenhauer, in “Aforismos para a Sabedoria de Vida”.

Obra “caveira fumando um cigarro” – Van Gogh