O sentido da vida (em diferentes filósofos)

Hiper simplificado? Sim.  Mas no mínimo é divertido! Essas seriam as respostas de diferentes escolas para a pergunta: qual o sentido da vida?

Platonismo: estude mais ( para sair da sua caverna de ignorancia)

Aristotelismo: seja bom (correção, seja virtuoso, inserido naquilo que você tem aptidões naturais)

Cinismo: seja auto-suficiente (mais do que isso. Não se filie a correntes e mantenha sempre a dúvida sadia)

Hedonismo: busque o prazer agora (prazer em excesso não faz mal)

Epicurismo: evite a dor (e o sofrimento desnecessário. O prazer em excesso pode te levar a uma dor mais a frente )

Estoicismo: seja lógico  (e racional) 

Liberalismo clássico: defenda a liberdade individual 

Kantismo: aja de acordo com o dever (mesmo que isso cause dor e sofrimento)

Niilismo: faça qualquer coisa, a vida não tem sentido  (obs: em Nietzsche é o contrário mas ele não te conta)

Pragmatismo: faça o bem para o maior número de pessoas ( correção, o quadro está errado. Essa definição é do utilitarismo. O pragmatismo diria “faça aquilo que trouxer a melhor consequência para você”. Pragmatismo e utilitarismo são doutrinas consequencialistas mas bem distintas em suas aplicações).

Teísmo: faça a vontade de Deus (nada contra. O banho de sangue começa quando um grupo quer impor a vontade dele ao outro. Particularmente eu não colocaria o Teísmo em um quadro de filosofia)

Existencialismo: tome decisões  e seja positivo  (correção: não sei de onde tiraram a consequência de manter pensamento positivo. Quem fez esse quadro errou feio. Eu diria: viva com a carga das suas decisões, sejam elas ativas ou pela omissão)

Absurdismo : não tente achar sentido nas coisas. Só viva. (Mesma coisa que o niilismo mas com novas palavras)

Humanismo: aja de maneira desinteressada pelo bem comum. (Correção: eu não concordo. Eu diria, respeite a dignidade de todo e qualquer ser humano e aja de acordo com esse dever – e você chegou no Kantismo novamente)

Positvismo lógico: a vida não tem nenhum sentido até você criar um. ( e adivinhe, eles repetiram o que está na base do existencialismo)

Panteísmo natural : cuide da natureza ( acrescento: as respostas estão nela e quando nos afastamos do natural nos corrompemos.)




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O Existencialismo de Sartre e o Sentido da Vida

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As correntes tradicionais filosóficas colocam que há uma essência humana, podendo ser acessível através de uma conexão religiosa ou laica. As linhas religiosas entendem como Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino que temos uma essência transcendente acessível pela Alma. Linhas laicas entendem que a Razão nos diferencia do restante dos demais seres e que através dela – razão – também podemos isolar e apontar uma essência humana, algo que nos define e que determina o que é ser um “ser humano”. Ou seja, antes mesmo de existirmos, existe uma essência. Linha, aliás, seguida pela filosofia desde Sócrates e Platão, com o estabelecimento de sua teoria do mundo das Idéias, local acessível apenas pela razão e no qual estariam as verdades essenciais de tudo o que existe no mundo material.   

Em suma: a essência antecede a existência.

Desta forma, haveria uma Essência Humana antes mesmo da evolução histórica das civilizações e a  Humanidade estaria indo em direção a valores mais nobres e mais iluminados, na esperança de um dia igualarmos nosso dia a dia com os valores de tal Essência anteriormente prevista. Existiria um sentido para a Vida, mesmo que não o entendêssemos a principio e nossos dias deveriam perseguir o véu deste sentido para descortiná-lo de alguma forma. Viver seria buscar esse sentido anterior e maior da própria Vida.

Para outros pensadores,  como Jean Paul Sartre essa explicação não convence.

Não haveria nada a ser considerado como uma essência humana a priori, nenhum sentido prévio da Vida que seja passível de ser atingido pela experiência religiosa ou pela razão pura.

Para Sartre, a existência antecede a essência.

Como explicava Sartre em seu opúsculo “O Existencialismo é um Humanismo”  :  

  “(…)… se Deus não existe, há pelo menos um ser, no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significa então que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente é nada. Só depois será, e será tal como a si próprio se fizer.”

Ou seja, a essência humana é sempre a posteriori e criada pelo próprio indivíduo. Somos nós próprios, individualmente, o único elemento responsável por criar e dar significado à nossa própria vida.

sartre existencialismo humanismoOs valores a seguir, a interpretação dos laços afetivos, culturais e históricos que nos ligam e nos separam, todo o longo e amplo espectro de elementos do que chamamos de Vida ganham significado apenas dentro de nós e de acordo com o caminho que decidimos seguir de forma livre e autônoma, sem qualquer Essência anterior a servir de molde.

A Vida seria a rota, nunca o destino.

Mesmo que nos alinhemos a uma fileira de pensamento mais ampla e nascida gerações antes de nosso nascimento, deveríamos fazê-lo de forma livre e apenas após processar de forma crítica se tais formatações e paradigmas estão de acordo com o sentido que NÓS queremos incluir em nossa vida por escolha própria.

Vivemos em um contexto histórico e social preciso e pré-determinado que Sartre denomina “situação”. Assim, vivemos sempre em situação; ou seja, nascemos em um ambiente aleatório, não escolhido por nós e muitas vezes constrangidos por circunstâncias de difícil superação. Mas somos NÓS que decidimos – sempre – como digerir e processar esse ambiente e, por fim, as escolhas que darão sentindo às nossas próprias vidas.

Fazemos isso do ponto de vista individual e também como corpo social. Para o existencialismo Sartreano, o ser humano e a sociedade são processos históricos. Não existe essência anterior. As decisões são nossas e a responsabilidade pela manutenção ou modificação da sociedade como ela é hoje, também.

Os existencialistas colocam a liberdade nas escolhas da Vida como o elemento máximo e inalienável do individuo, algo que nunca poderia ser inteiramente tomado por parte do tecido social, apesar das determinações pré determinadas da situação. O indivíduo, mesmo constrangido por regras, normas e preconceitos sociais,  sempre poderá encontrar algum escopo de escolha e liberdade para inserir-se  ou romper com os valores históricos e culturais do tempo e da sociedade onde vive. A cada situação – de cada tempo e de cada sociedade – caberiam obviamente uma gama de escolhas possíveis.

Para Sartre, seríamos então condenados a escolher sempre: mesmo que fosse escolher a  omissão e aceitação do status quo.  

Mas até onde as forças sociais da cultura onde nascemos se constituem em verdadeiras algemas que nos limitam e retiram a possibilidade de escolha? Até onde podemos criar o sentido de nossa própria vida em contradição com os valores do tecido social sem receber uma carga de ataque que venha a destruir a própria essência do que se tenta viver? O poder de escolha  entendido por Sartre é de fato verdadeiro ou seria a própria escolha uma ilusão?

Esse temas são abordados na segunda parte do post. Uma análise da desumanidade como construção histórica também pode ser encontrada na parte três clicando neste post.

 

Stanley Kubric e a questão da VIDA

stanley-kubrick-2Descobri que Stanley Kubric era um gênio quando assisti ao filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço”.

A maneira delicada, genial e perfeita com que retratou a viagem espacial em pleno ano de 1968 (data do filme) ainda o faz um dos melhores filmes do gênero seja na fotografia, efeitos especiais e construção da narrativa.

Acredito que virei fã de Sci-Fi ali. Não a toa, o filme está no topo da lista do blog dos melhores filmes de sci-fi. 

Anos depois assisti a outros filmes desse diretor com fama de perfeccionista, temperamento difícil e intratabilidade com os atores: Laranja Mecânica, O Iluminado, Spartacus, Nascido para Matar… cada filme a que assistia era melhor que o anterior e em todos eles verificava a marca do gênio: um profundo estudo dos diversos lados do ser humano com suas neuras, medos, psicopatias, paixões, ilusões e um desejo ardente de deixar sua marca no mundo. Não canso de rever nenhum dos seus filmes.

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Stanley Kubric foi entrevistado pela revista Playboy americana em 1968 e quando perguntado se  apesar de sua total falta de sentido, a vida valia a pena,  o diretor traduziu em palavras o sentimento que perpassa em todos os filmes de sua obra. E todo esse post era para dividir com vocês esse pensamento.

A resposta de Kubric:

 ” A própria falta de sentido da vida força o homem a criar o seu próprio significado.

As crianças, é claro, começam a vida com um sentido imaculado de admiração, uma capacidade de sentir alegria total a algo tão simples como o verde de uma folha; mas à medida que envelhecem, a consciência da morte e da decadência começam a criar uma impressão em sua consciência e sutilmente a erodir a sua alegria de viver, seu idealismo – e sua suposição da imortalidade.

Enquanto uma criança amadurece, ela vê morte e dor em todos os lugares e começa a perder a fé na bondade suprema do homem. Mas se ele é razoavelmente forte – e sortudo – ele pode emergir deste crepúsculo da alma com um renascimento do élan da vida. Tanto por causa, e mesmo apesar, da sua consciência da falta de sentido da vida, ele pode forjar um novo senso de propósito e afirmação.

Ele pode não recuperar o mesmo sentimento puro de admiração com que ele nasceu, mas ele pode moldar algo muito mais duradouro e sustentável.

O fato mais terrível sobre o universo não é que ele é hostil, mas que é indiferente. Mas se podemos chegar a um acordo com esta indiferença e aceitar os desafios da vida dentro dos limites da morte – conquanto mutáveis o homem pode fazê-los ser – a nossa existência como espécie pode ter significado e realização genuínos. Quanto mais vasta a escuridão, devemos fornecer a nossa própria luz.”

 Perfeito!

2001

O iluminado

Nascido Para Matar

Laranja Mecânica

Hunter Thompson: viva sua vida e faça sua própria escolha

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Hunter Thompson foi o pai do jornalismo gonzo. Ou seja, matérias onde o jornalista e o personagem da matéria são o mesmo, descrevendo as aventuras e desventuras de seu narrador nas mais estranhas, bizarras, perigosas,  escatológicas e mesmo criminosas situações.

Problemático, filho de pais alcoólatras, foi preso jovem por roubo e recebeu como parte da pena o alistamento militar, uma condição que marcaria toda sua vida em contestação à autoridade.

Seu primeiro livro de sucesso ainda nos anos 60 foi “Hell´s Angels – Medo e Delírio” , descrevendo o ano em que viveu com a gangue de motociclistas dos Hell´s Angels e seus crimes, rixas, conflitos com a policia e estilo de vida desregrado.

Anos depois escreveria o  emblemático “Medo e Delirio em Las Vegas” descrevendo em detalhes seu mergulho na sordidez da cidade, a prostituição, os barões criminosos do jogo e seu caminho pessoal e sem fim nas drogas e na bebida.

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Sujeito intratável, decadente, arruaceiro, do tipo que é melhor manter distância. Mas escrevia bem feito o diabo!

De sua máquina de escrever saíram clássicos. Viveu a vida como quis. Nunca aceitou que as circunstâncias ditassem suas escolhas. Ao contrário, de suas escolhas conseguiu moldar sua vida (para o bem e para o mal).

Se matou em 2005, com um tiro de espingarda na cabeça. Sofria de depressão.

  

Documentário sobre Thompson

 

Mas no inicio de carreira, um jovem  Thompson  menos deprimido e menos desencantado com a vida, escreveu uma resposta para uma carta recebida de um amigo. 

Vale a pena para pensar.

Thompson: “ Dar um conselho para um homem que pergunta o que fazer com sua vida é alguma coisa muito próxima da egomania. Presumir que se possa colocar um homem na direção correta e em seu objetivo final – apontar na direção CORRETA. É algo que apenas um tolo assumiria fazer.

Ser ou não ser: eis a questão. Será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? 

E sim, essa É a questão: flutuar e ser levado pela maré ou nadar em direção a um objetivo. É uma escolha que todos nós devemos fazer consciente ou inconscientemente ao menos uma vez em nossas vidas.

Tão poucas pessoas entendem isso! Pense em qualquer decisão que você já tenha feito que tenha tido influência em seu futuro: eu posso estar enganado, mas eu não vejo como isso pode ser outra coisa além de uma escolha, mesmo que indireta – entre essas duas coisas que eu mencionei: flutuar ou nadar.

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A  resposta – e de certa forma, a tragédia da vida – é que nós procuramos entender o objetivo e não o homem.

Nós estabelecemos um objetivo que exige de nós certas coisas: e nós as fazemos. Nós nos adaptamos às exigências de um conceito que NÃO PODE ser válido. Quando você era mais jovem, digamos que você queria ser um bombeiro. Eu tenho uma razoável certeza que você não quer mais ser um bombeiro. Por que? Porque sua perspectiva se modificou. Não foi o bombeiro que mudou: foi você.

Todo homem é a soma de suas reações às experiências. Enquanto suas experiências diferem e se multiplicam, você se torna um homem diferente e, então, sua perspectiva se modifica. E continua assim para sempre. Toda reação é um processo de aprendizado: cada experiência significativa altera sua perspectiva.

Então, não seria tolo ajustar nossas vidas de acordo com as demandas de objetivos que nós vemos de diferentes ângulos a cada dia? Como podemos esperar atingir qualquer coisa que não seja uma neurose galopante?

A  resposta deveria ser não lidar com objetivos de qualquer tipo, ou ao menos com objetivos tangíveis. Gastaria resmas de papel para desenvolver esse assunto inteiramente. Deus sabe quantos livros foram escritos sobre “o sentido da vida” e esse tipo de coisa, e Deus sabe quantas pessoas se dedicaram ao assunto (eu uso o termo ‘Deus sabe…” apenas como uma expressão). Não há muito sentido em tentar entregar a resposta para você; porque eu sou o primeiro a admitir minha absoluta falta de qualificações para reduzir o sentido da vida em um ou dois parágrafos.

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Colocar nossa fé em objetivos tangíveis seria, na melhor das hipóteses, pouco sábio.

Nós não nos esforçamos para sermos bombeiros, ou banqueiros, ou policiais ou doutores. NÓS LUTAMOS PARA SERMOS NÓS MESMOS.

Mas não me entenda mal. Eu não quero dizer que nós não possamos SER bombeiros, banqueiros ou doutores – mas sim que nós devemos adequar esses objetivos em conformidade com o indivíduo; ao invés de fazer o individuo se adequar ao objetivo.

Em cada homem, hereditariedade e meio se combinaram para produzir uma criatura de certas habilidades e desejos – incluindo uma profunda necessidade  de agir de forma que sua vida TENHA SENTIDO. Um homem tem que SER alguma coisa: ele tem que ter significado.

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É assim que eu vejo: um homem deve escolher um caminho que permita que suas habilidades funcionem no máximo de sua eficiência em direção à gratificação de seus desejos.

Ao fazer isso, ele está preenchendo uma necessidade (dando a ele mesmo identidade ao funcionar em um padrão em direção a um objetivo designado), evitando a frustração de seu potencial (escolhendo um caminho que não coloque limites ao seu autodesenvolvimento) e evitando o terror de ver seu objetivo fraquejar ou perder o charme à medida que  se aproxima. Ao invés de se contorcer  para atingir as demandas do que ele procura, ele forçou seu objetivo para se adequar às suas habilidades e desejos.

Em resumo, ele não dedicou sua vida para alcançar um objetivo pré-definido. Ao contrário, escolheu um modo de vida que ele SABE que irá apreciar. O objetivo é absolutamente secundário: é o agir em direção a esse  objetivo que é importante.

Parece até ridículo ter que falar que um homem PRECISA agir de uma forma que seja da sua própria escolha. Porque permitir que outro homem defina seus próprios objetivos é abrir mão de um dos aspectos mais significativos da vida – o ato definitivo que transforma um homem em um indivíduo.

Um homem que atrasa SUA ESCOLHA, a verá inevitavelmente feita pelas circunstâncias. Logo, se hoje você se coloca entre os desencantados, então você não tem outra escolha a não ser aceitar as coisas como elas são; ou então buscar seriamente outra coisa.

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Mas cuidado ao buscar por objetivos! Busque por um estilo de vida. Decida como você quer viver e então veja o que você pode fazer para ganhar a vida DENTRO desse estilo de vida.

Mas você diz: “Eu não sei onde procurar. Eu não sei o que procurar.”

E aí está a encruzilhada: vale a pena abandonar o que eu já tenho para procurar por outra coisa melhor? Eu não sei. Vale a pena? Quem poderia tomar essa decisão além de você?

Mas mesmo se decidindo por procurar, você já andou um longo caminho no próprio ato de decidir.

Eu não estou tentando te colocar “na estrada” em busca de um Valhalla, mas apenas mostrando que não é necessário aceitar as escolhas que te foram dadas pela vida.

Existe mais do que isso. Ninguém é obrigado a fazer algo que não deseja pelo resto de sua vida.”