Explicando os conceitos: o totalitarismo em Platão

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Platão não demanda grandes apresentações. Filósofo grego do século IV a.C, oriundo de família helênica nobre e rica, discípulo de Sócrates , fundador da renomada Academia, centro de estudos que permaneceu em atuação até os primeiros séculos da era Cristã e cujo nome se tornou sinônimo de local dedicado a estudos avançados.

Ao contrário de diversos outros estudiosos do período, de cuja obra só sabemos através de pequenos trechos sobreviventes e graças a menções feitas em obras de terceiros, o trabalho de Platão chegou razoavelmente completo até nossos tempos.

Seus títulos estruturam-se em diálogos escritos anos após a morte de Sócrates, sentenciado à morte em Atenas. Quase todos colocam seu antigo mestre como o personagem central dos debates.

Tendo em vista que Sócrates não deixou nenhum texto escrito, existe grande celeuma entre os estudiosos na separação de quais seriam as idéias do Sócrates histórico e quais seriam as extrapolações e pensamentos próprios de Platão, ditas através do personagem Sócrates.

Uma grande variedade de temas aparece nos textos platônicos como  ética, o mundo das ideias e seu reflexo no mundo material, a estruturação do Estado e da sociedade, lógica, o papel da educação etc…

Para nossa análise, interessam apenas as idéias de Platão sobre a estrutura do Estado e o papel de subjugação do cidadão, sobretudo expostas nas obras “A República” e “As Leis”. Juntas, essas obras delineiam um estado claramente totalitário.

Apesar de criado no berço do pensamento democrático, verificamos em Platão uma estrutura de pensamento que restringe o exercício do Poder a uns poucos, controla o livre fluxo de idéias, censura os pensamentos dissonantes e controla até mesmo o período fértil de homens e mulheres.

plataoO Estado surge devido à necessidade. Os homens têm suas necessidades e como não é possível que um homem domine todos os conhecimentos necessários à vida e à produção de bens, juntam-se pela conveniência da troca de produtos e serviços.

Para Platão, os cidadãos comuns, artífices e populares não estão preparados para discutir as altas decisões de Estado. Sua participação nas decisões sobre o Estado e a gestão da sociedade são nocivas, uma vez que movidos por paixões demagógicas ou interesses superficiais.

Sua visão é totalmente antidemocrática. Em Platão (pelas palavras colocadas na boca de Sócrates), defende-se a idéia que o povo não tem condições de se autogovernar e que, portanto,  é necessário que o poder seja exercido apenas pelos mais aptos, que irão guiar o restante pelo caminho correto.

Platão idealiza a sociedade dividida em castas. Na ponta da pirâmide social estariam os guardiões da cidade: uma classe de homens talhados para a liderança e para a tomada das decisões importantes da vida social. Para Platão, o filósofo/pensador deveria ser o guardião da cidade e comandar os outros homens. Somente um estudioso teria as condições, o discernimento e a sabedoria necessários para o julgamento justo e condução honesta do Estado. Percebe-se aqui o viés claramente aristocrático do estado platônico.

PlatãoA classe intermediária é a dos soldados\guerreiros. A classe inferior é a do cidadão comum do povo. Cada classe deve se destinar apenas a sua função e não se imiscuir nos assuntos da outra. A possibilidade de mobilidade social é diminuída, quase descartada.

Não por acaso, séculos depois, em plena Idade Média, as idéias platônicas sobre a divisão de poder e a organização da sociedade são retomadas e ressignificadas pela Igreja Cristã. A dogmática cristã medieval colocou a Igreja e seus clérigos no topo da liderança espiritual e da influência política (no papel do Rei Filósofo de Platão); seguidos do apoio da aristocracia como executores da vontade papal e o povo como a choldra restante.

O conceito é novamente ressignificado no marxismo de índole Lenilista e sua necessidade de existência de um grupo seleto de vanguarda que decidirão os rumos da Revolução Socialista e a conduta exigida pelos demais na busca do ideal da sociedade sem classes. Só os Reis Filósofos sabem os caminho, o povo não compreende coisa alguma e precisa ser guiado o tempo inteiro. O pensamento aristocrático encontra inúmeras roupagens na história.

Caberia a classe dos guardiões\filósofos também decidir o que deveria ser ensinado ao povo.

platao-004Lemos na República que Platão menciona Homero e os teatrólogos gregos relacionando trechos que deveriam ser apagados em uma versão editada. Em sua concepção, as obras artísticas poderiam  levar o povo a ter idéias más em relação ao estado e aos seus líderes.

Cabe ao governante decidir o que deve ser ensinado, optando por trechos e histórias edificantes e morais, eliminando assuntos de discórdia e que incentivem ou ilustrem as más paixões.

Assim, sugere que sejam apagados trechos da Iliada que mostrem lutas e discórdia entre os deuses e entre estes e os reis ou que mostrem os grandes reis mentindo ou enganando. Tais trechos não seriam edificantes ao povo. Platão chega a falar que os poetas deveriam ser aconselhados  ou mesmo forçados – se a primeira opção não surtir efeito – a seguir tais ditames.

Estamos falando de censura prévia e de castigos corporais para aqueles que não seguissem as normas estatais. Prenúncio das fogueiras de livros inapropriados, do Códex dos livros proibidos, da censura de material contrário aos interesses do Estado ou da perseguição e prisão de autores que divulguem ideologias dissonantes do poder central.

grecia_maior1Algo interessantíssimo sobre a educação: o ensino deve ser estendido a todos, independente do sexo.

Quando vemos notícias atuais sobre como meninas são atacadas por fundamentalistas porque desejam apenas estudar,  percebe-se que neste ponto Platão estava além de seu tempo. A situação da mulher é vista como algo mais que uma peça de reposição para gerar filhos. Não existe restrição para que as mulheres exerçam cargos de importância na cidade, desde que pertençam à classe dos guardiões dominantes. As crianças deveriam ser educadas de forma lúdica e nunca com violência.

A ideia de restrição aos bens privados e às fortunas individuais é também expressa com todas as letras. Para Platão, a propriedade deveria ser comunitária e nunca privada. O estado ideal  na “República” de Platão é socialista Ninguém deveria possuir mais do que seu semelhante e ataca-se o comércio como uma forma degenerada de contato com estrangeiros – classe também a ser evitada.

Décadas depois, no fim da vida, ao escrever “As Leis”, Platão modificou um pouco seu entendimento, havendo uma aceitação parcial da propriedade privada e da diferença de escalonamento das riquezas entre os homens. Chega ao ponto de defender como aceitável uma diferença entre as riquezas até o limite de05 vezes entre o mais pobre e o mais rico.

ZZ1E54E5D5Se é verdade que as mulheres poderiam ocupar cargos de administração, elas não eram inteiramente livres. Platão está longe de reconhecer a igualdade entre os sexos. As mulheres e as crianças devem ser vistas como um bem comum da cidade. A procriação entre os melhores homens e as melhores mulheres deveria ser estimulada como uma maneira de estimular o desenvolvimento de crianças mais fortes e inteligentes.

É o estímulo da eugenia com todas as letras. O Estado realizaria sorteios para escolher os pares a serem formados para terem as relações sexuais e gerar filhos. Platão defende que tais sorteios sejam discretamente direcionados, de forma que o maior número e as melhores parceiras sejam destinados para os guardiões\filósofos e para os soldados.

Os rebentos nascidos não seriam criados por seus pais, mas por um centro educacional da cidade, criadas por mulheres da cidade e amamentadas por amas de leite comunitárias. Ninguém saberia quem é seu filho e quem é seu pai; o que em sua opinião geraria um maior sentido de união entre todos os cidadãos da cidade.

O Estado controla a todos e determina, inclusive, a idade procriativa de homens e mulheres. As mulheres seriam utilizadas para gerar filhos dos 20 aos 40 anos; os homens até os 55 anos de idade. As pessoas que se unissem e gerassem filhos fora da idade determinada, ou mesmo na idade correta mas sem a autorização do Estado, teriam seus filhos considerados como indesejáveis. Liberdade de escolha de seu parceiro? Não. Liberdade de planejamento familiar? Muito menos. E a criança nascida pertence ao estado.

Enfrentando uma situação de guerra externa, é legitimo que a cidade governada por reis-filósofos se valha do auxilio de cidades que não sejam governadas pelos mesmos padrões de liderança. Neste ponto, Platão se rende ao que seria séculos depois chamado de real politik. Sugere  que se façam alianças com cidades menos sábias numa situação de guerra, entregando-lhes todo o ouro e riquezas do butim retirado da cidade adversária em troca de proteção ou auxílio na guerra.

7abd834cee28b73387d54ea109b965edA desconfiança do “outro”, o controle do “diferente” e rasgos de xenofobia também surgem no livro “As Leis”. O autor defende que o contato com povos estrangeiros e cidadãos de outras cidades deve ser cuidadoso e travado ao mínimo para que não se contamine os ideais da cidade governada pelos reis-filósofos. A entrada de estrangeiros, se possível deve ser proibida.

Os embaixadores da cidade que forem para o estrangeiro deverão passar por uma quarentena quando retornarem, de forma que não espalhem ideias estranhas e nocivas ao corpo social.

Como em quase todos os estados totalitários, o Estado ideal de Platão exerce censura para as idéias que venham de outros locais e que possam ser consideradas subversivas.

Igualmente, em “As Leis”, deve-se criar um grupo ou conselho que vele para que as idéias de justiça e as normas do estado estejam sendo devidamente cumpridas pelos cidadãos. Aqueles que desobedecerem seriam levados para centros de “readequação espiritual”.Se persistirem no erro de não seguir os ditames da sociedade, deveriam ser expulsos da cidade. Uma descrição perfeita de uma polícia de costumes e centros de punição para aqueles que estiverem fora da conduta moral da sociedade, conforme determinado pelo Estado.

Óbvio que Platão não inventou o totalitarismo ou mesmo sociedades fechadas e restritivas da liberdade. Exemplos históricos e no seu entorno geográfico não lhe faltavam. Mas é curioso que o filósofo ateniense tenha deixado para as futuras gerações o primeiro e mais completo manual de como exercer o controle das liberdades individuais e fortalecer o do Estado.    

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Sócrates: meditação ao sol 

Uma vez que se pôs a meditar e ficou em pé, no mesmo lugar, desde a madrugada, como se não encontrasse solução para o que pensava, não desistiu, mas continuou imóvel, absorvido pela reflexão.

Veio o meio-dia, e os soldados o observavam. E diziam uns aos outros, pasmados, que Sócrates desde a alvorada se conservava naquela posição, pensando.

Enfim, uns jônios, já era pelo entardecer e todos haviam jantado, arrastaram para fora suas esteiras, para dormir ao relento, pois era verão, e também para observar se Sócrates passaria ali imóvel a noite inteira.

Pois ali permaneceu, naquela mesma posição, até a aurora e o nascer do Sol; e então fez sua prece a Hélio, e se foi.

— Platão, em O Banquete – elogio de Sócrates, proferido por Alcebíades

Aforismos de Sócrates 

​Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.

Uma vida sem desafios não vale a pena ser vivida.

Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância.

A sabedoria começa na reflexão.

A maneira de se conseguir boa reputação reside no esforço em se ser aquilo que se deseja parecer.

Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses.

O amor é desejo. E o desejo surge da falta daquilo que não possuímos.

Para conseguir a amizade de uma pessoa digna é preciso desenvolvermos em nós mesmos as qualidades que naquela admiramos.

Sócrates

O Julgamento e a Morte de Sócrates

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Sócrates foi um homem fundamental para a evolução do pensamento ocidental que, não por acaso, divide-se  entre filosofia pré e pós-socrática.

Sócrates não deixou qualquer texto escrito. O que sabemos chegou a nós  através de textos sobre sua vida e doutrina escritos pelos seguidores Xenofonte e Platão, décadas após sua morte.

O relato de Xenofonte traz um Sócrates mais casuísta, de enfoque quase utilitarista e que não trouxe maiores aprofundamentos filosóficos. A fama que atravessou os séculos veio através da imagem de Sócrates que nos foi deixada por Platão.

A paixão e morte de Sócrates foi relatada por seu discípulo Platão em 04 textos básicos: Eutifron, Apologia, Criton e Fédon, como veremos a seguir em maiores detalhes.

Sócrates nasceu em Atenas em 469 a.C e morreu na mesma cidade em 399 a.C, tendo atuado no chamado periodo clássico ateniense.  Sua morte foi determinada em julgamento pelos cidadãos de Atenas. Através de Platão – ou na sua versão dos fatos – os motivos que levaram o filosofo a julgamento e a sua condenação foram três: não acreditar nos costumes e deuses gregos, introduzir novas divindades e , sobretudo, corromper os jovens com suas ideias.

Ao longo de toda a tradição filosófica ocidental, o julgamento e a morte de Sócrates foi citada e cantada como um dos atos mais injustos e incompreensíveis da democracia ateniense. Sócrates foi reverenciado como o primeiro dos grandes filósofos, praticamente o homem que criou as discussões sobre ética e virtude, tratando-as como matérias independentes per si. Tratou também da posição do cidadão no Estado, as razões de ser do Estado, as características do Estado ideal e as maneiras de alcançá-lo entre outros assuntos que o colocaram como o grande pensador do mundo ocidental – para o bem e para o mal.

Meme de Sócrates- Sábio é aquele que...A acreditar nas razões elencadas por Platão, os motivos parecem muito pobres e não justificariam tamanha gravidade da sentença.

Afinal, outros filósofos também ensinavam em Atenas no mesmo periodo e tomar jovens para tutelá-los ou ensiná-los era uma atividade bem remunerada e exercida por diversos sábios atenienses.

Sócrates, ao contrário, não cobrava por seus ensinamentos e conversas e seus ataques ao ensino remunerado está na raiz da ideologia que vê o professor ou mestre como um santo abnegado em missão de vida, ao contrário de um profissional que deve ser bem remunerado para o exercício de suas funções.

Mas afinal, quais seriam esses ensinamentos que tanto corrompiam os jovens? Por que as palavras de Sócrates eram tão temidas a ponto de justificarem um julgamento dessa magnitute? Qual era o contexto histórico da época? O que havia no mundo político de Atenas naqueles anos poderia ter alguma relevância para o julgamento? Entre os seguidores de Sócrates, havia alguém com poder político ou econômico capaz de exercer uma real influencia negativa na cidade?

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No que tange especificamente a Sócrates, os historiadores e pensadores tem se dedicado no ultimo século a entender justamente este ambiente político e suas conexões com a vida de Sócrates e seus discípulos.

Não se pode entender o contexto da morte de Sócrates sem se enxergar a Guerra do Peloponeso. Esta foi uma verdadeira “Guerra Mundial do Mundo Helênico”, que se estendeu por cerca de 30 anos e dividiu o mundo grego em dois grandes grupos: o primeiro liderado por Atenas e o segundo por Esparta. O próprio Sócrates lutou na guerra do Peloponeso (defendendo Atenas) e alguns de seus seguidores tiveram forte presença em decisões que foram desastrosas para Atenas.

Atenas era uma democracia, onde o poder político era exercido pelos cidadãos da cidade-estado, escolhidos por sorteio. Os assuntos da cidade eram discutidos em praça pública. Famosos eram seus oradores e inúmeros são os relatos louvando ou criticando a mudança de humores da massa de ouvintes após debates públicos entre políticos com posições contrárias. Era uma cidade onde se veneravam as artes, o discurso, o esporte e as competições atléticas. Atenas era um centro comercial, sendo o centro empresarial do mundo grego.

soldados-espartanosEsparta era uma oligarquia. Uma cidade-estado dominada por aristocratas, únicos a terem o título de cidadãos. Ao restante do povo, nenhum direito. O debate público era inexistente. O ensino das artes era considerado mais do que inútil, deletério. As atividades atléticas serviam para a luta, nunca ao esporte. O comercio não era valorizado, sendo a cidade mantida por tributos pagos pelas cidades vizinhas submetidas ao seu domínio. O Estado Espartano era dirigido por poucos, para poucos, devendo a massa apenas seguir.

Apesar de ter nascido e ter ensinado em Atenas por toda a sua vida, Sócrates estava longe de ser um democrata e suas ideias encontravam mais eco no estilo de vida espartano.

A acreditar nos relatos de Platão, sobretudo em obras como ”A República”, Sócrates defendia um estado dividido em classes, orientado por uma classe política especializada cujo objetivo era criar o Estado ideal, tutelando as massas através de formas indiretas ou mesmo pela força, quando necessário.

O Estado ideal do Sócrates platônico considerava o cidadão como um objeto a ser disposto pelo Estado, sendo que este decidia a idade de procriação das pessoas, confiscava seus filhos, exterminava as crianças física e mentalmente inaptas, censurava as obras artísticas consideradas inadequadas, controlava o trabalho de artistas, censurava previamente os discursos, criava centros de “reeducação” para cidadãos que não baixassem a cabeça para as determinações da elite mandante e chegava mesmo a defender o exílio para aqueles que insistissem em agir fora das determinações do Estado.

Esparta x Atenas - BRESCOLA Sócrates era um elitista.

Era um homem que tinha total descrença na democracia e que defendia o governo do povo por uma classe privilegiada. Alguns de seus seguidores incluíam membros das famílias mais ricas e aristocráticas de Atenas: Platão (seu discípulo mais famoso) era descendente de uma das famílias mais ricas e nobres da cidade, Alcebíades (outro discípulo) foi um dos generais da esquadra ateniense durante a guerra do Peloponeso e Critias (outro discípulo) era tio de Platão e um nobre de berço.

Através de relatos históricos – totalmente higienizados nos relatos de  Platão – sabemos que Alcebíades foi além de um dos generais Atenienses durante a guerra e, também, discípulo de Sócrates,  um desertor que passou para o lado espartano traindo seus compatriotas. Voltou para Atenas e novamente traiu a cidade para Esparta.

A guerra do Peloponeso teve inúmeras fases. Em uma delas, a aristocracia ateniense conseguiu tomar o controle da cidade de Atenas e se uniu a Esparta fazendo um expurgo das lideranças democráticas atenienses. Foi um periodo que entrou para a História como “Ditadura dos 30 tiranos” , sendo um periodo de prisões, julgamentos sumários e condenações a mortes. Um dos chamados 30 tiranos que quase mataram a democracia ateniense foi Crítias, tio de Platão e igualmente discípulo de Sócrates.

Sócrates pessoalmente parece nunca ter se envolvido em assuntos políticos práticos e nem exercido cargo politico, mas alguns de seus discípulos sim. E fizeram isso durante a guerra e tomando o lado de Esparta e exercendo grande poder.

O fim da guerra trouxe o declínio das duas grandes cidades.

Em Atenas, foi aprovada uma lei de anistia. Em uma tentativa de trazer de volta a cidade cidadãos exilados ou fugidos para outras localidades e recuperar a paz social, ficou proibido o exercício de qualquer ação judicial com base em atos praticados durante a guerra. Traidores e soldados, todos foram perdoados em nome da pacificação política da própria Atenas.

Leis de anistia resolvem a situação jurídica e apagam fatos no plano do direito positivado; mas não apagam as mágoas, o ódio e o rancor semeados entre a população ao longo de 30 anos de conflito.

Sócrates não deixou de ensinar suas ideias.

Idéias estas que como vimos era contrárias ao estilo de vida e ao próprio Estado Ateniense. Apesar de Platão jamais dizer isso diretamente, surge um painel bastante claro de um pós-guerra sanguinolento onde no meio de Atenas continua havendo um Sócrates pregando um estado forte, oligárquico e avesso à democracia.

Juntando a lembrança da guerra recém terminada, a mágoa pela morte de parentes, o sofrimento acarretado e a conexão com generais traidores e políticos tiranos usurpadores do poder  democrático; chega-se a conclusão que Sócrates não devia ser uma pessoa das mais queridas em Atenas e esta seria a verdadeira razão do ódio atraído contra sua pessoa e do julgamento arquitetado contra si, pouco importando aqui se ele acreditava ou não nos deuses da cidade.

Ótimos livros tratam bem de todas estas questões políticas do periodo e sua conexão com os ensinamentos Socráticos.

Os que recomendo e são bastante acessíveis são os seguintes (todos são ótimos):

1)      O Julgamento de Sócrates – autor: I.F. Stone, editora Companhia de Bolso

2)      A Morte de Sócrates – autora:Emily Wilson, editora Record

3)      História da Filosofia Ocidental – autor: Bertrand Russel,

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Em todas essas obras, encontra-se uma extensa bibliografia que pode remeter o interessado a outras leituras mais profundas.

As ideias de Sócrates e seus ensinamentos são descritos por Platão em dezenas de diálogos. Em todos, o filósofo trata da virtude e da ética através da desconstrução dos conceitos, demonstrando a insuficiência de conhecimento que possuímos sobre os mesmos.

O julgamento e a morte de Socrates são descritas em 04 textos: Eutifron, Apologia, Criton e Fédon (nesta ordem).

O primeiro é Eutifron e traz Socrates em um debate com o sábio Eutifron sobre o significado da piedade. Neste texto ficamos sabendo que Sócrates está a caminho do fórum, onde enfrentará um julgamento. No mais, é um texto sem outra conexão com o tema.

ArquivoExibir (1)Na Apologia de Sócrates, temos efetivamente o julgamento. Um texto belíssimo, trazendo as acusações dos detratores do filósofo (negar os deuses da cidade e exercer má influência sobre os jovens) , a defesa de Sócrates em frente a multidão e a votação, com a consequente condenação à morte após o filósofo recusar-se a modificar sua postura e suas ideias; o que se mostra no texto platônico é o ideal de todo pensador que se recusa contemporizar com suas convicções mesmo em face da morte.

Pouco importa o Sócrates totalitário visto em ‘A República”… é impossível não torcer por Sócrates neste texto belíssimo e escrito com maestria literária por Platão.

Criton

O terceiro texto é Críton, quando um amigo e discípulo de Sócrates o visita na cadeia e oferece a chance de fuga. Mas o filósofo nega-se a fugir e decide ficar, aceitando a decisão que o condenou à morte com um longo discurso sobre o respeito devido à cidade e suas leis, mesmo quando elas se voltam contra nossos interesses pessoais. Trata-se de um discurso sobre o dever e a responsabilidade.

O quarto e último texto do tema é o Fédon, que traz as últimas horas de Sócrates no cárcere, a visita de seus discípulos e seus últimos ensinamentos. Um texto de forte cunho religioso tratando de temas como a vida, morte, a alma e a reencarnação.

Platão estava de fato acima de seus pares na sua capacidade literária e este é um dos melhores textos, juntamente com a Apologia entre todos os diálogos.

Fedon

Filósofo, mestre, semeador das raízes do totalitarismo, idealista, religioso, primeiro debatedor da virtude e da ética… as palavras de Sócrates e os textos de Platão continuam sendo lidos e discutidos  quase 2.500 anos depois de sua morte.