Filosofia nos Quadrinhos: Lúcifer, Estrela da Manhã

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 Lúcifer, estrela da manhã é um personagem de quadrinhos do selo Vertigo e para mim a melhor versão já retratada em qualquer mídia. Inicialmente, ele surge idealizado por Neil Gaiman como um personagem secundário nas páginas da aclamada série de quadrinhos Sandman; e depois é detalhado e expandido por Mike Carey em título próprio, utilizando-se de todos os mitos judaicos e cristãos sobre os anjos e suas batalhas, não deixando de mencionar as histórias de cunho místico que não se vinculam a nenhuma das religiões principais.

Sim, Lúcifer é a história atual do personagem mencionado no Gênesis bíblico.

Mas pouco tem a ver com a imagem de uma criatura suja, feia, maldosa, mentirosa, envolvida com a perversidade e desejosa de criar pequenas maldades ao ser humano.

O personagem dos quadrinhos tem mais semelhanças com o Lúcifer do clássico inglês  “Paraíso Perdido” de John Milton: uma figura bela, que exala liderança, apaixonada, soberba, ciente de sua força e de sua inteligência. Uma alma nobre, atormentada, de natureza aristocrática e dotado de um código de honra que segue à risca. O Lúcifer de John Milton e dos quadrinhos do selo Vertigo tem esse ar de desprezo pela fraqueza, de pouco caso com os que aceitam a obediência. Desprezo pela moral dos fracos, dos que ficam à espera de um mundo melhor no por vir.

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Preferido do Criador, o Portador da Luz é um ser amargurado por se sentir traído por Deus ao descobrir que uma eternidade de serviços prestados será ignorada em prol de uma nova raça criada pelo Senhor: os homens. Claramente inferiores aos Anjos, sem sua beleza, inteligência e força, mas que receberão o maior presente de Deus – negado aos Anjos – o livre arbítrio.

Em sua fúria ao ter todo seu amor e serviço não valorizados e em ter negado o direito ao livre arbítrio, Lúcifer articula uma rebelião nos Céus, sendo por fim derrotado por Miguel Arcanjo.

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Derrotado, jogado ao Inferno com sua hoste de seguidores, Lúcifer por fim transforma a derrota em conquista, declarando aos seus seguidores o direito de tomar suas próprias decisões, seguirem seus desejos, reinando a seu modo.

“É melhor reinar no Inferno do que servir no Paraíso”; ou seja, é melhor criar a sua própria identidade e traçar o próprio destino – mesmo que difícil e espinhoso – do que seguir ordens, aceitar um papel estabelecido pela sociedade (mesmo que divina) e negar a própria individualidade.

Esta frase de Lúcifer ao ser remetido ao Inferno é a afirmação da individualidade; a confirmação da modernidade. A assunção do “Eu posso”.

É deste personagem Miltoniano – e não do bíblico – que Neil Gaiman bebe para contar a história de Lúcifer, quando o mesmo percebe que NÃO, ele ainda não tem seu livre arbítrio. Que seu reinado individual no Inferno é falso.

lucifer16Afinal, as almas humanas condenadas são todas destinadas ao Inferno por ordem de Deus, sem qualquer interferência de Lúcifer que continua sem poder decidir quem fica ou não em seus domínios.

Finalmente percebe que o Inferno é apenas mais um dos reinos de Deus, sendo ele – Lúcifer – apenas um gerente em nome do Criador para cuidar de um canto destinado aos sofrimentos impostos pela Ordem Divina.

É Deus quem decide as regras de salvação ou condenação da alma e quem envia ao Inferno ou perdoa os atos. O julgamento das ações humanas é sempre de Deus, nunca de Lúcifer. Este apenas recebe as almas mandadas por uma Ordem Superior.

A identidade que Lúcifer orgulhosamente acreditava ter criado para si mesmo era falsa, imposta de fora, determinada por Deus, uma vez que seu reino continuava submetido às decisões tomadas nos Céus.

Lúcifer percebeu que estava sendo enganado. Ele não reinava. Obedecia. Ele não era livre, mas mantinha seus vínculos de vassalagem com o Todo Poderoso.

Finalmente lhe ocorre que toda sua vida, seus serviços, a Rebelião, a administração do Inferno – TUDO – já havia sido predestinado por Deus em seu Reino, retratado sempre como uma sociedade hierarquizada, de papéis definidos, onde não é permitida a decisão livre e espontânea.

lucifer01Na obra de Neil Gaiman “Sandman, Estação das Brumas”, parte da vasta coleção do personagem Sandman, temos o primeiro contato com o  personagem Lucifer.  Nesse livro, o autor  leva a busca pelo livre arbítrio de Lúcifer ao extremo, quando ele abandona as chaves do Inferno, corta suas asas e ruma para a Terra, abrindo um piano bar e vivendo entre os humanos.

Simplesmente uma mudança de paradigma total que inicia uma saga contando as histórias de Lucifer vivendo entre os humanos e as criaturas sobrenaturais que andam pela Terra.

É esse personagem livre e sem vínculos, aristocrático, gentil e vaidoso, vivendo entre os humanos e dono de um piano bar chamado “Lux” – em Los Angeles (óbvio!) – frequentado por místicos, bruxos e demônios que o escritor Mike Carey conduzirá em uma série própria que durou 75 números.

A série de quadrinhos é filosófica. Discute a questão do livre-arbítrio e da predestinação, a criação da identidade, a ansiedade da responsabilidade pelas próprias decisões e pela criação do próprio destino em um mundo que está sempre em mudança; onde a noção de hierarquia está deteriorada e não existem mais papéis fixos.

De certa forma, o personagem Lúcifer está até o pescoço envolvido com todos os assuntos que sociólogos como Zygmunt Bauman retratam na atual modernidade líquida.

Ao contrário da noção bíblica, Lúcifer nunca mente. Ele deseja, articula, persegue… mas nunca mente. Esta é a base da moralidade do personagem, que persegue o mote de nunca mentir como um verdadeiro imperativo categórico Kantiano.

Lucifer_Liege_Luc_ViatourAr aristocrático, mente nobre, gosto refinado, ele expõe claramente o que deseja deixando aos terceiros que o encontram a decisão de se unirem ou não a ele – e enfrentarem as consequências de suas PRÓPRIAS decisões, falsidades e mentiras.

Lúcifer se vê como uma criatura que refuta as noções de bem e mal pré-estabelecidas seja por Deus, pelos demais anjos ou pelos homens. A idéia de que sua identidade foi forjada na polifonia dos simbolos e signos do mundo exterior destrói sua alma. Ele quer forjar seu caminho.

Compaixão não está em seu vocabulário. O personagem é praticamente um seguidor não declarado da filosofia de Friedrich Nietzsche. Existem seres destinados para a grandeza e outros destinados a servir; sempre existirão ovelhas que preferem seguir um pastor a tomar suas próprias decisões. E usar de suas mentes fracas para alcançar objetivos superiores não é um problema.

Ou seja, além do deleite dos quadrinhos, o argumento e diálogos são perfeitos para discussões filosóficas e comparações entre autores variados.

As aventuras de Lúcifer o colocam rumo ao seu grande desejo: a criação de um Universo próprio, em paralelo e mesmo em oposição ao universo de Yahweh, o Deus judaico cristão, seu pai. A concepção psicanalitica freudiana da oposição entre pai e filho permeia toda a obra. 

Tais manobras o colocam em rumo de colisão com diversas entidades místicas, deuses mortos de sociedades antigas e claro, com as hostes de anjos que enfrentou no passado da Rebelião original. Ao longo de 75 números, Lúcifer visita seus antigos domínios, passa pelas representações dos Infernos da mitologia oriental, até chegar à sua antiga moradia na Cidade dos Anjos e ter sua conversa definitiva com Deus.

Uma obra de fôlego impressionante que vai sendo contada em um crescendo. Mike Carey domina a arte do clímax literário.

Sandman - Estação das brumasNão é um quadrinho para ler fora de ordem.É uma novela mesmo. E das boas.

A quem interessar, tem que começar com a obra do Sandman “Estação das Brumas” (que se situa ali pelo meio da série de Sandman) e depois partir para o título solo de “Lúcifer”, com os 75 números na ordem. Tudo tem ligação na saga e referências entre diálogos dos primeiro números com acontecimentos da parte final são abundantes.

Um personagem atormentado de dúvidas, mas que não permite que elas o travem. Ao contrário, estas o impelem sempre a agir, atuar e criar. Nietzsche em estado bruto. Não tenho como esconder minha preferência. É a melhor série de quadrinhos já produzida.

A série foi posteriormente adaptada para a televisão em um seriado fraco, sem substância e que em nada lembra os quadrinhos.

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Zygmunt Bauman: mundo de incertezas 

A incerteza foi sempre o chão familiar da escolha.

A incerteza é o habitat natural da vida humana – ainda que a esperança de escapar da incerteza seja o motor de atividade de atividades humanas. Escapar da incerteza é um ingrediente fundamental presumido, de todas e quaisquer imagens compósitas da felicidade genuína, adequada e total sempre parece residir em algum lugar à frente: tal como o horizonte, que recua quando se tenta chegar mais perto dele.

Zygmunt Bauman

De Max Weber à Zygmunt Bauman: Do mundo sólido ao mundo líquido

Terminada a leitura de ” A ética protestante e o espírito do capitalismo ” de Max Weber, as relações com o último livro resenhado neste Blog ,  “Vida para Consumo” de Zygmunt Bauman,  são espontâneas (a resenha do livro de Bauman pode ser encontrada aqui).

Weber foi um dos pais fundadores da sociologia e uma das suas obras mais importantes é “A Ética protestante e o espírito do capitalismo”, onde analisa o surgimento do capitalismo industrial e sua relação com o ethos religioso encontrado nos países protestantes.

Inicialmente, o autor reconhece que empreendimentos com sinais capitalistas já era encontrados desde a Antiguidade, mas foi apenas na Época Moderna que o capitalismo atingiu um nivel industrial, arraigando-se na cultura e criando uma nova ética permeando todas as relações da sociedade.

Weber traça esse desenvolvimento analisando a mentalidade surgida no cisma religioso que deu inicio à Reforma Protestante na Europa, afirmando que o novo ethos surgido com o Calvinismo, Luteranismo e demais correntes  foi imprescindível – e mesmo o motor – para o desenlace subsequente do capitalismo.

O livro parte para a análise da doutrina da predestinação, que se encontra no âmago das correntes protestantes. Apesar de existirem algumas diferenças entre luteranos, calvinistas, anabatistas etc… há um traço comum nas correntes religiosas que se espalharam pelo norte da Europa e ilhas inglesas: a doutrina da predestinação e uma reinterpretação da idéia de vocação.

Através da doutrina da predestinação, os crentes aceitam que Deus já escolheu aqueles que serão salvos no mundo pós-morte e aqueles que estão condenados. Isso já está decidido desde o nascimento, não importando as obras individuais, arrependimentos ou bondades feitas ao longo da vida. Já se nasce salvo ou condenado na eternidade por determinação divina. Obviamente, não há forma de um ser humano descortinar os desígnios da divindade mas a doutrina da predestinação nos dá uma dica: o enriquecimento. A pessoa que caiu nas graças da divindade e destina-se à salvação possui sinais exteriores de riqueza, conforto e bem estar material.

Reinterpreta-se, igualmente, a idéia da vocação. Retira-se seu caráter místico e assume-se um significado mais mundano. Vocação é igual a dedicação ao trabalho. E trabalho é igual ao cumprimento da missão dada pela divindade. A obtenção de lucro e bem estar material através do trabalho é sinal de trabalho bem feito, acerto na missão estipulada pela divindade e assim um estigma que denota que se faz parte da assembléia dos escolhidos para a Salvação.

Desta forma, segundo Weber, o protestantismo afastou-se da mentalidade católica que apontava o lucro como pecado e a relação com o dinheiro como a raiz do Mal, abraçando a ética do trabalho árduo, do assenhoreamento material  e do desenvolvimento econômico. Estava formada a cama para o surgimento do ethos da sociedade capitalista industrial.

Neste momento o enriquecimento como sinal de escolha divina não é feito para o desfrute. Não se trata de enriquecer para dedicar-se ao ócio, beber, gastar com a luxúria etc…  Tais condutas eram fortemente condenadas pelo ethos protestante. Trata-se de enriquecer para manter. Enriquecer para acumular. Enriquecer para gerar mais capacidade de trabalho. Enriquecer para atingir estabilidade. O gasto e o desfrute eram sinais do mamonismo e do pecado.

Weber explica assim como essa moral espalhada pelos países do norte europeu e ilhas inglesas, colocou-os em posição de vantagem para criação de um caldo cultural que estimulava o trabalho, o acúmulo de riquezas, a postergação do desfrute e o empreendedorismo. Ser bem sucedido e ter sinais de desenvolvimento econômico eram apontamentos de que se estava também no bom caminho religioso.

Saltemos um século para Zygmunt Bauman.

Bauman descreverá a sociedade analisada por Weber como o alvorecer da sociedade sólida, da criação e desenvolvimento do capitalismo industrial e suas caracteristicas como sociedade de produtores: o trabalho era visto como objetivo a ser alcançado e mantido, estável, focado em produção. Em uma sociedade de produtores, a ética do trabalho era a do esforço, o sacrifício era visto como uma necessidade e validado pelo corpo social. E por fim, Bauman descreverá como saímos dessa sociedade e criamos um novo ethos, para novos tempos – uma ética do consumo.

Na sociedade líquida – pós moderna – que se coloca no lugar do mundo industrial anterior, a ética não é mais a do trabalho, mas a da busca do prazer instantâneo; os vínculos são curtos e mantidos apenas pelo tempo necessário, a solidez dos contatos é transformada pelo mundo virtual em um contato efêmero. Buscam-se soluções rápidas para frustrações, nega-se o sacrificio e a idéia de postergar um prazer é tida como absurda.

Se “A Ética Protestante e o Espirito do Capitalismo”  (Weber) é um livro fala da criação da ética capitalista da poupança e da acumulação com a postergaço do usufruto; em “Vida para Consumo” (Bauman) temos a análise do fim dessa mentalidade e sua substituição pelo consumismo e ética do prazer instantâneo: o ethos da cultura pós-moderna.

É interessante notar que Weber afasta-se de qualquer interpretação do materialismo histórico. Textualmente (chega a chamar de ingênuo), Weber nega a possibilidade da modificação da infraestrutura econômica ser o motor que reorientará a superestrutura cultural.  Ou seja, para Weber, foram as mudanças culturais trazidas pelo ethos protestante (entre outros elementos da cultura e da sociedade analisadas na obra) que sinalizaram e criaram as condições para a convulsão da forma de produção econômica advinda com o capitalismo industrial.

Karl Marx analisará a formação do ethos capitalista no sentido inverso: primeiro vem a modificação da infraestrutura econômica passando do mercantilismo para o capitalismo industrial e depois – como forma de justificação e criação de discurso – surgem as novas concepções éticas e morais que conformarão os demais setores culturais da sociedade (religião, normas jurídicas, concepções artísticas etc…)

E assim fazemos o gancho para o próximo livro a ser resenhado: “Ideologia Alemã”, de Karl Marx.

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por Manuel Sanchez

Resenha: Vida para Consumo, de Zygmunt Bauman

Terminar a obra “Vida para Consumo” de  Zygmunt Bauman é levar um soco na boca do estômago. (tratei sobre a obra de Bauman neste link)

O sociólogo analisa como nossa sociedade se transformou de uma sociedade de  produtores em uma sociedade de consumidores, com todas as mudanças de paradigmas  consequentes. 

Na sociedade de produtores, que vigorou do inicio do capitalismo industrial até meados do sec. XX,  o trabalho era visto como objetivo a ser alcançado e mantido, estável, focado em produção.

A ética do trabalho era a do esforço, o sacrifício era visto como uma necessidade e validado pelo corpo social. A  manutenção dos vínculos era buscada pelo maior tempo possível, focava-se no  acúmulo de capital, seja do ponto de vista dos grandes industriais, seja do ponto de vista do individuo: poupar e acumular eram vistos como fundamentais, não o consumo.

Bauman analisa como o mundo saiu desse quadro e entrou no que ele cunhou de modernidade líquida, que neste livro é analisada sob o prisma das relações de consumo.

Na sociedade de consumidores que evoluiu como uma consequência  lógica da necessidade de expansão do capitalismo, a ética não é mais a do trabalho, mas a da busca do prazer; os vínculos são curtos e mantidos apenas pelo tempo necessário, a solidez dos contatos é transformada pelo mundo virtual em um contato efêmero que pode ser desfeito com um clique. 

Se antes o foco era a acumulação, agora passamos a ter o foco no marketing e na sua busca de prazer rápido e instantâneo. A sensação de completude é sempre postergada para que haja a necessidade de procurar novos produtos e novidades que entreguem  o gozo tão desejado.

Também as relações de trabalho se modificam. Laços longos e sólidos entre empresas e trabalhadores viraram pó e foram substituídos por contratos cada vez menores. Se antes ser empregado de determinada empresa ou setor era uma forma de identidade, agora esses laços são tão rápidos e descartáveis que as pessoas estão sempre em uma busca frenética por projetos que lhe deem os meios de subsistência.

Ao mesmo tempo que consumimos e descartamos objetos sem qualquer apego, somos nós também transformados em commodities a serem anunciadas e vendidas, buscando que nos consumam e retribuam. Como tudo é ligeiro e descartável, somos levados a nós mesmos nos transformarmos em mercadorias ilustradas pelo marketing e polidas pelas marcas e produtos fashion que consumimos com avidez.

Como sempre, Bauman não está interessado em propor soluções mas a fazer um diagnóstico. Sua obra não quer sugerir caminhos libertadores mas abrir os olhos das pessoas para que elas ao menos saibam o jogo que estão jogando.

–   Manuel Sanchez